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Perguntas e Respostas sobre "Voivode - Estudos Sobre os Vampiros".
Por Cid Vale Ferreira, organizador do livro.

1 - A pergunta fatal... vampiros existem?

Neste caso, não posso arrogar-me qualquer direito de responder pelos outros sete autores do livro, mas - particularmente - não hesito em afirmar que tais seres, em sua concepção clássica de redivivos, não existem. Entretanto - justamente por sua inexistência - os vampiros não estão submetidos aos limites da concretude, ou seja - como conceito imaginário - eles existem desde o início do século XVIII, e não há quaisquer obstáculos a evitar que teólogos, filósofos, artistas e demais aficionados pelo tema criem suas próprias consubstanciações vampíricas. Desta forma, cada vez que usamos o termo, referimo-nos a uma das inúmeras configurações que as sanguessugas "poderiam ter", caso existissem.

2 - Faz sentido, hoje em dia, estudar tais criaturas?

Não vejo diferenças entre estudá-las hoje ou há dois séculos, por exemplo. Estamos lidando com projeções negativas dalguns dos mais antigos tabus humanos e, como tal, apreciar as manifestações vampíricas no decorrer dos séculos revela mais sobre a mentalidade de cada época - com suas implicações acerca da natureza da morte - que dos próprios vampiros. Estes seres legendários já assomaram como bodes-expiatórios de moléstias contagiosas então misteriosas; como representações da ambigüidade entre o medo e a saudade dos mortos; como ícones da individualidade moderna; e como anseios de libertação da perenidade da carne, do trabalho, e da própria noção de moral e pudor; portanto, independentemente do momento em que este tema for abordado, haverá sempre uma infinidade de outros pontos a subjazer sua estampa superficial.

3 - Quais são as propostas desta edição?

Primeiramente, contribuir com o aprofundamento das discussões que envolvem este mito e, na medida do possível, levantar novas questões que alarguem seu alcance tanto no âmbito da cultura popular quanto da acadêmica. Munidos destas ambições, fizemos o melhor que nos foi possível. Para tal, dividimos a obra em três partes (batizadas com paródias de títulos de Friedrich Nietzsche, Francisco Goya e Thomas de Quincey): a primeira reúne nossos artigos, doze textos com olhares inéditos sobre alguns dos principais pontos da tradição vampírica; a segunda pontua a evolução da lenda no decorrer dos séculos, através da tradução, ou - no caso das raridades de Portugal e Brasil, reedições - de documentos históricos; e, finalmente, a terceira analisa e apresenta algumas das aparições dos vampiros na arte.

4 - Como foi reunida a equipe de autores?

Por incrível que pareça, dos outros sete autores, apenas um eu conhecia pessoalmente (há ainda outros quatro que, creio, só conhecerei no lançamento do livro). Esta empreitada nunca seria possível não fosse a comodidade da rede mundial de computadores, que nos reuniu como colaboradores da revista Carcasse.com (donde partiu a idéia toda). Mantemos uma "redação virtual" por correio eletrônico e toda a articulação se deu desta forma; o que me permitiu selecionar criteriosamente os participantes baseando-me unicamente em suas palavras, sem quaisquer preconceitos de idade, gênero ou experiência prévia. Assim, logo que fomos contatados por uma editora paulistana interessada numa publicação sobre vampiros, em julho de 2001, pusemo-nos a trocar experiências e sugestões e, quando o resultado superou até mesmo nossas maiores expectativas, decidimos por lançá-lo independentemente, através da recém-criada Pandemonium Editora.

5 - Que critérios definiram a pauta dos textos de autoria própria?

Nossos artigos não se propõem a esgotar o assunto, mas cobrimos especificidades dentre setores tão díspares do vampirismo que o leque acabou satisfatoriamente abrangente. Começamos com uma abordagem conceitual - a fim de definir diretrizes gerais - aprofundamo-nos em manifestações regionais anteriores e posteriores ao advento do vampiro europeu, rastreamos suas principais manifestações artísticas, e, por fim, detemo-nos em sua disseminada presença na cultura popular. Valemo-nos de pesquisas folclóricas, da crítica literário-cinematográfica, de ponderações antropológicas e, claro, de muita pesquisa de campo pelos setores de obras raras de bibliotecas paulistas e cariocas.

6 - Conferir tal destaque a uma figura do imaginário europeu não seria relegar o riquíssimo folclore brasileiro?

A partir do momento em que as sanguessugas adentraram as narrativas terríficas das amas-de-leite brasileiras no século XIX, como indica um dos documentos que levantamos, fica difícil negar o quão arraigada tornou-se a lenda em nosso território. Também reeditado no livro, há um longo romance em verso brasileiro, publicado em 1849, que contém uma nota que elucida essa estranha “larva da imaginação popular”. Não só nossa literatura, mas também nossa produção de histórias em quadrinhos, nossa música, nosso cinema e nossa programação televisiva, entre outras mídias (sem citar nossa indústria alimentícia), contemplam os mortos-vivos a ponto de viabilizar sua penetração nos círculos culturais de todas as faixas etárias.

7 - Recentemente, o vampirismo invadiu o cotidiano nacional graças à grande mídia. Você não teme ser tachado de oportunista?

Longe de mim querer me comparar a ele, mas será que Voltaire - no auge da repercussão do tratado vampírico de Dom Augustin Calmet - temeu parecer oportunista, ao incluir um longo verbete sobre os vampiros em seu Dicionário Filosófico? Ao contrário do que alguns podem cogitar, a popularidade das sanguessugas de forma alguma me envergonha. Nem se eu fosse um grande especulador eu poderia prever a atual voga, mas eis apenas um entre vários anos de enorme “atividade”, como 1979, 1992 etc. Dois dos maiores destaques nos subterrâneos musicais da Alemanha, por exemplo, as bandas BlutEngel e Sopor Aeternus, surgiram com inequívocas referências vampirescas. Nos EUA, multiplicam-se as seitas organizadas em torno das sanguessugas, algumas com status de religião reconhecida pelo governo, só para citar dois países. O alcance de tais seres não é algo recente, e não dá sinais de que declinará nas próximas décadas. De qualquer forma, mesmo que nossa inspiração fosse a atenção que o tema obteve nos últimos meses - o que não é o caso - continuaríamos a ser julgados pelas características de nosso trabalho, tenha ele versado sobre algo corrente ou não.

8 - Há algo que você lamente ter ficado de fora do livro?

Sim. Há outras três pautas que adoraríamos ter coberto em nossos artigos: a iconografia vampírica na política do século XIX (o voluntário a escrevê-lo foi obrigado a abandonar a idéia devido ao início de seu doutoramento), o vampirismo nos RPGs (pela amplitude do tema), e a atual literatura vampírica nacional (quando os últimos livros saíram, já estávamos finalizando o nosso). Em nossos documentos, fizemos o possível para termos algo fidedigno a respeito do caso Plogojowitz, mas as fontes que encontramos não nos inspiraram confiança. Em nossos encartes artísticos, infelizmente não consta o estupendo soneto Conto Lugúbrico, de Glauco Mattoso, recém-publicado no terceiro número da revista De Profundis (quando o descobrimos, o livro já estava no prelo). Creio que estas sejam as lacunas mais notáveis.

9 - Quais sugestões você daria aos pesquisadores do tema?

Desconfiem de textos sem embasamento histórico, não desprezem a arte erudita e muito menos a popular, sejam cautelosos com o que for encontrado na internet (confirmem tudo em bibliotecas), desistam de forçar relações improváveis para tentar "provar" suposições, evitem ao máximo reproduzir erros, e, sobretudo, respeitem o leitor como se ele fosse você mesmo.

10 - O Voivode é o primeiro lançamento da recém-criada Pandemonium Editora, o que poderemos esperar a seguir?

Quero destacar que é uma honra incomensurável estar encabeçando o primeiro lançamento da Pandemonium, mas seria descabido descrever este trabalho de qualquer outra forma senão como um afetuoso trabalho de equipe. Entre os autores, enfatizo - pela presença em cada etapa do processo - a contribuição do jundiaiense Carlos Primati (nosso revisor e editor, que desempenhou um papel fundamental na ampliação do projeto), da carioca Shirlei Massapust (nossa consultora especializada e pesquisadora incansável) e do ilustrador Victor-Hugo Borges, da baixada santista (que nos produziu mais de 20 imagens exclusivas). Voltando à editora, esta teve seu nome inspirado no palácio infernal d’O Paraíso Perdido, de Milton, e - assim como aquela construção abrigou os anjos caídos - esperamos que nosso catálogo dê guarida a obras alheias ao cânone, com enfoque na arte fantástica. Já temos outras três edições em andamento, além de várias idealizações, mas, no momento, estamos concentrados na divulgação deste livro de estréia. A propósito, pelo pandpress@uol.com.br <mailto:pandpress@uol.com.br>, tanto a distribuição quanto os lançamentos de Voivode - Estudos Sobre os Vampiros podem ser tratados.

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