Samuel Taylor Coleridge


A Balada do Velho Marinheiro

EM SETE PARTES

Creio sem hesitações que há mais naturezas invisíveis que visíveis no universo. Mas quem nos descreverá a família de todas elas, assim como os graus e as relações e as características e as funções de cada uma? O que fazem? Que lugares habitam? A mente humana sempre desejou o conhecimento dessas coisas, mas nunca o alcançou. Enquanto isso, é saudável, não nego, contemplar - seja em espírito, seja num quadro, - a imagem de um mundo maior e melhor, para que o intelecto, acostumado às minúcias da vida atual, não se encolha demasiado e não mergulhe por inteiro nas cogitações triviais. Mas, ao mesmo tempo, devemos estar atentos à realidade e preservar o senso de proporção, para que possamos distinguir as coisas certas das incertas, o dia da noite. - T. Burnett, Archaeol. Phil, p. 68

ARGUMENTO

Como um Navio, tendo atravessado o Equador, foi impelido por tempestades à fria Terra a caminho do Pólo Sul; e como de lá fez seu trajeto para a Latitude tropical do Grande Oceano Pacífico; e das coisas estranhas que aconteceram; e de que modo o Velho Marinheiro retornou a seu próprio País.

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Um velho marinheiro encontra três Galantes convidados a uma festa nupcial, e detém um.











O convidado Nupcial é enfeitiçado pelo olhar do velho homem do mar, e é obrigado a ouvir sua história.























O Marinheiro conta como o navio velejou para o sul com vento favorável e bom tempo, até alcaçar o Equador.











O convidado ouve a música nupcial, mas o Marinheiro continua sua narrativa.












O navio impelido por uma tempestade rumo ao pólo sul.




















A terra do gelo e de sons terríveis onde nenhum ser vivo se podia ver.









Até que uma grande ave marinha, chamada Albatroz, veio entre a névoa, e foi recebida com grande alegria e hospitalidade.











E eis que o Albatroz se revela uma ave de bom augúrio, e segue o navio em seu retorno para o norte em meio à neblina e ao gelo flutuante.










O Velho Marinheiro inospitaleiramente mata a ave de bom augúrio.















Seus companheiros de bordo protestam contra o velho Marinheiro, por matar a ave da sorte.









Mas quando a neblina se ergueu eles o justificam, tornando-se assim, eles próprios, cúmplices do crime.







O vento brando continua; o navio entra no Oceano Pacífico, e veleja rumo ao norte, até alcaçar o Equador.


O navio foi subitamente imobilizado.




















E o Albatroz começa a ser vingado.



















Um Espírito os havia seguido, um dos habitantes invisíveis deste planeta, não almas que se foram nem anjos; a seu respeito, o erudito judeu Josefo e o constantinopolitano platônico Miguel Psellus podem ser consultados. São muito numerosos, e não há terra ou elemento sem um ou mais.















Os companheiros, em sua dolorosa aflição, desejavam lançar a culpa toda sobre o velho Marinheiro; como indício de tal coisa, penduraram a ave marinha morta em seu pescoço.





O velho Marinheiro avista um sinal ao longe no elemento.









Com sua maior aproximação, parece-lhe ser um navio; e a duras penas ele liberta sua fala dos grilhões da sede.







Um lampejo de júbilo;




E segue-se o horror. Pois pode ser um navio o que avança sem vento ou correnteza?














Parece-lhe apenas o esqueleto de um navio.












E suas balizas são vistas como barras sobre a face do sol poente.








A Mulher-espectro e sua companheira Morte, e ninguém mais a bordo do navio esqueleto.


Tal nave, tal tripulação!

A Morte e a Vida-em morte disputam nos dados a tripulação do navio, e ela (a última) conquista o velho Marinheiro.







Nenhum crepúsculo nas cortes do Sol.

Ao levantar-se a Lua,









Um após o outro,






Seus companheiros tombaram mortos.






Mas a Vida-em-Morte começa a trabalhar o velho Marinheiro.






O convidado Nupcial teme que quem lhe fala é um Espírito;








Mas o velho Marinheiro o reassegura de sua vida corporal, e prossegue o relato de sua horrível penitência.







Ele despreza as criaturas da calmaria,





Despeitado por que elas vivem, e tantos jazem mortos.





















Mas para ele a maldição vive no olhar dos homens mortos.











Em sua solidão e imobilidade, ele anseia pela Lua a viajar, e pelas estrelas que restam fixas mas ainda assim avançam; e em toda parte o céu pertence a elas, e é seu designado repouso, e seu país natal e seus próprios lares naturais, onde elas ingressam sem anúncio prévio, como soberanas que são certamentente aguardadas e, no entanto, há um júbilo silencioso à sua chegada.














À luz da lua ele contempla as criaturas de Deus na grande calmaria.





Sua beleza e felicidade.



Em seu coração ele as abençoa.





Começa a quebrar-se o encanto.


















Pela graça da santa Mãe, o velho Marinheiro é revigorado pela chuva.
















Ele ouve sons e vê estranhas visões e comoções no céu e no elemento.





























Os corpos da tripulação do navio são inspirados e o navio se move.










































Mas não pelas almas dos mortos, nem por entidades da terra ou do ar intermediário, mas por uma legião abençoada de espíritos angélicos, enviada pela invocação do santo guardião.


















































O Espírito solitário do pólo sul leva o navio até a linha do equador, em obediência à legião angélica, mas ainda exige vingança.











As entidades-companheiras do espírito polar, os habitantes invisíveis do elemento, compartilham sua indignação; e dois deles relatam, um para o outro, que longa e dura penitência havia sido imposta ao velho marinheiro pelo Espírito Polar, que retorna ao sul.
































































O Marinheiro foi lançado num transe hipnótico; pois o poder angélico faz a embarcação rumar para o norte mais depressa do que a vida humana pode suportar.












O movimento sobrenatural é retardado; o Marinhiro desperta, e sua penitência recomeça.

















A maldição é finalmente expiada.






































E o velho Marinheiro comtempla seu país natal.






























Os espíritos angélicos deixam os corpos dos mortos,



E aparecem em suas próprias formas de luz.






















































O Eremita do Bosque,























Aproxima-se do navio com espanto.





























Subitamente o navio afunda.








O velho Marinheiro é salvo pelo bote do Piloto.






































O velho Marinheiro sinceramente suplica ao Eremita que o absolva; e sobre ele recai a penitência para a vida.









E para todo o sempre em sua vida futura uma agonia o compele a errar de terra em terra;












































E a ensinar atravéz do próprio exemplo, o amor e a reverência por todas as coisas que Deus criou e ama.

PARTE I

É um velho Marinheiro,
E detém um, de três que vê:
- "Por tua barba branca e cintilante olhar,
Tu me deténs por quê?

Agora o noivo escancarou as suas portas,
E eu sou seu familiar.
O comensal se apresta, principia a festa;
Ouve o alegre exultar."

Com a escarnada mão ele o detém ainda;
"Houve um navio..."lhe disse.
"Solta-me! Solta-me barbado vagabundo!"
Deixou que a mão caísse.

Com o olho cintilante ele o detém agora...
E, quieto, o Convidado
Fica a escutar, como criança de três anos,
Pelo outro dominado.

O convidado vai sentar-se numa pedra:
Vê-se forçado a ouvir;
E sua fala prossegue o Marinheiro antigo
De olhar a refulgir.

"O navio foi saudado, o porto evacuado;
Equipagem radiante,
Passamos sob a igreja, sob o promontório,
Sob o farol adiante.

À nossa esquerda então o sol se levantava,
Do mar a se elevar;
Era um claro esplendor... Depois ia se pôr
À direita no mar.

Sempre, sempre mais alto, até que sobre o mastro
Pairava ao meio-dia..."
O ouvinte contrafeito aqui bateu no peito:
O alto fagote ouvia.

Agora a noiva já ingressara no salão,
Rubor rosa tem;
A inclinar as cabeças, menestréis alegres
À sua frente vêm.

O ouvinte contrafeito aqui bateu no peito,
Mas é forçado a ouvir;
E sua fala prossegue o Marinheiro antigo
De olhar a refulgir.

"E eis que colheu os navegantes a borrasca,
Tirânica e violenta;
Veio nas asas da surpresa, e nosso barco
Para o sul afugenta.

Pendiam os seus mastros, mergulhava a proa...
Como quem, a dar gritos e golpes cm perigo,
Persegue e pisa a sombra do inimigo,
Curva à frente a cabeça,
O barco assim se evade; e ruge a tempestade
Que ao sul nos arremessa.

E de repente nos envolvem névoa e neve,
Com um frio assassino;
E, alto de um mastro ao vê-lo, flutuava gelo
De um verde esmeraldino.

E, entre os blocos errantes, penhas alvejantes
Dão espectral fulgor;
Homens não vemos e animais que conhecemos...
Só há gelo ao redor.

O gelo estava aqui, o gelo estava ali,
Só gelo no lugar;
E rangia e rosnava, e rugia e ululava,
- Os sons de um desmaiar.

Enfim passou por nós, bem no alto, um Albatroz,
Vindo da cerração;
Em nome do Senhor nós o saudamos, como
se fosse outro cristão.

Comeu o que jamais comera, e lá na altura
Volteava sobranceiro;
Rompeu-se o gelo então co'o estrondo de um trovão...
Passou o timoneiro!

E do sul um bom vento nos soprava alento;
O Albatroz nos seguia,
E à nossa saudação, por fome ou diversão,
Buscava todo dia!

Em névoa ou nuvem vem, no mastro ou no ovém,
Por vésperas nove pousar;
Enquanto a noite inteira, em bruma alva e ligeira,
Luzia o alvo luar."

"Velho Marujo! Deus te salve dos demônios
Que de ti vão empós...
Que olhar! Que te molesta?" Com a minha besta
Eu matei o Albatroz.

PARTE II

Pela direita agora o Sol se levantava:
Do mar a se elevar
Ainda em meio à bruma; e adiante, à nossa esquerda,
Deitava-se no mar.

E do sul o bom vento nos soprava alento...
Mas ave não se via
Que à nossa saudação, por fome ou diversão,
Acorresse algum dia!

E meu ato infernal traria para todos
A desgraça improvisa,
Pois, para toda a nave, eu fora a morte da ave
Que faz soprar a brisa.

Glorioso o Sol surgiu, nem rubro nem sombrio,
Tal qual fonte divina;
E, para toda a nave, eu fora a morte da ave
Que traz névoa e neblina.
Justo era, em seu pensar, tal pássaro matar
Que traz névoa e neblina.

A branda brisa arfava, a espuma alva voava,
E o sulco solto a esfiar...
Jamais humana voz soara antes de nós
Naquele mudo mar.

E o vento cede, as velas cedem... Quem iria
Tristeza mais triste encontrar?
E nós falávamos tão-só para romper
O silêncio do mar!

E num ardente céu de cobre, ao meio dia,
Em sangue o sol flutua,
Pairando bem em cima do alto mastro,
Não maior do que a Lua.

Dia após dia, o barco ali, dia após dia,
Sem sopro, ali, cravado;
Ocioso qual uma pintada embarcação
Num oceano pintado.

Água, água, quanta água em toda a parte,
E a madeira a encolher;
Água, água, quanta água em toda a parte,
Sem gota que beber.

O próprio abismo apodrecia... Como, ó Cristo,
Aquilo foi se dar?
Coisas viscosas e com pernas rastejavam
Sobre o viscoso mar.

Sant'Elmo urdia à noite um coriscar de açoite,
Turbilhão e tropel;
A água - um óleo de bruxa - verde, azul e branca
Ardia sob o céu.

E alguns em sonhos garantiam ver o Espírito
Que atormentar nos deve;
Nove braças ao fundo, havia nos seguido
Do lar de névoa e neve.

O calor e a aridez tinham secado a língua,
Que até a raiz afligem;
E não podíamos falar, como se a nós
Sufocasse a fuligem.

Ah! Então - ai de mim! - que olhares mais terríveis
Tive de velho e moço!
Como cruz para o algoz, ataram o Albatroz
Em torno a meu pescoço.

PARTE III

Um tempo de cansaço! A seca na garganta,
No olhar vidrado um véu.
Cansaço! E que luzir em cada olhar vidrado,
Cansado atrás de um véu.
Quando eis que de repente, os olhos no poente,
Eu vi algo no céu.

De início parecia uma pequena mancha,
E depois uma bruma!
Avançava e avançava, até que certa forma
Ele tomou, em suma.

Uma mancha, uma bruma, certa forma, em suma!
E sempre, sempre avança...
Como a esquivar-se de um espírito marinho,
Mergulha e vira e dança.

Com garganta insaciada, a boca negra assada
Riso e pranto cancela;
Nessa aridez, ante a equipagem muda e langue,
O meu braço mordi, suguei o próprio sangue,
E gritei: Uma vela!

Com a garganta insaciada e boca negra assada,
Atônitos parecem;
Graças a Deus! exclamam; riem, riem bastante...
E todos tomam fôlego naquele instante,
Como se eles bebessem.

Vede! Vede! (Gritei) - Não mais vacila! Vem
Salvar-nos certamente;
Navega firme com a quilha levantada,
Sem vento, sem corrente!

Agora o oceano no ocidente era um incêndio:
A tarde no arrebol!
Quase pousara sobre o oceano no ocidente
Largo e luzente o Sol;
Foi quando aquela forma estranha se interpôs
Justo entre nós e o Sol.

E com barras o Sol logo ficou listrado
(Ó Mãe do Céu, socorre o crente!);
Parecia espiar por grades de masmorra,
Com rosto enorme e ardente.

Ai de mim! (eu pensei, e o peito martelava)
O espaço, como ganha!
Seriam suas velas o que ao sol cintila
Como teias de aranha?

O arcabouço talvez - que encerra a luz do Sol
Em grades de madeira?
Seria essa Mulher sua tripulação?
Ela seria a MORTE? Ou ambas que lá estão?
A MORTE é a companheira?

Seus lábios eram rubros; seu olhar, lascivo;
Sua trança, auri-amarela;
Sua pele, como a lepra, era de um branco forte;
Ela era o próprio Pesadelo VIDA-EM-MORTE,
Que o sangue humano gela.

Chegou a nua carcassa; e o par, a jogar dados,
fazia desafios;
"É o fim do jogo!" a Mulher diz, "Ganhei! Ganhei!"
E dá três assobios.

A orla do sol mergulha; fogem as estrelas:
É escuridão total.
Num sussurrar distante, sobre o mar dispara
O navio espectral.

Tudo ao redor o ouvido escuta o e olhar perpassa!
Meu sangue vital sorve, como numa taça,
Em meu peito o temor!
Apagam-se as estrelas, densa é a escuridão;
Lívida a face do piloto à luz junto ao timão!
Nas velas o orvalho é um suor...
Até que a Lua sobe ao longe no oriente,
Nos cornos envolvendo estrela refulgente
Junto à porta inferior.

Um por um, pela Lua que os astros acuam,
Sem tempo de gemer ou suspirar,
Todos viram-me o rosto, com horrenda angústia
E maldição no olhar.

Quatro vezes cinquenta a soma de homens vivos
Que, sem suspiro e sem gemido algum,
Com um baque pesado, quais massas inertes,
Caíram um por um.

Suas almas voaram... para a danação,
Ou para a eterna paz.
E essas almas silvavam, ao passar por mim,
Qual minha seta o faz.

PARTE IV

"Tenho medo de ti, ó velho Marinheiro!
De tua mão escarnada!
E tu és alto, e esguio, e escuro como a areia
Dos mares estriada.

Tenho medo de ti, do olhar teu cintilante,
E da escarnada, escura mão..."
Convidado Nupcial, não temas; este corpo
Não tombou. Ainda não!

Ah, sozinho, sozinho, inteiramente só,
Num largo, largo mar!
E nunca nenhum santo se apiedou
De minh'alma a agoniar.

Uma tripulação tão grande - e tão bonita!
E toda ali morreu;
E milhares, milhares de viscosos seres
Vivendo... e também eu.

Lancei os olhos sobre o oceano putrescente -
E os vazios desolados;
Ao convés putrescente desviei os olhos -
E os mortos lá deitados.

Olhei para o alto e quis orar, mas não jorrou
Nem uma reza só;
Um sussurro malvado fez que o coração
Secasse como pó.

Cerrando as pálpebras, mantive-as comprimidas;
Como veias os glóbulos pulsavam,
Enquanto o mar e o céu, enquanto o céu e o mar
Jaziam como um peso em meu cansado olhar...
E os mortos me rodeavam.

Os seus membros, nem fétidos nem pútridos,
Destilavam suor gelado;
Os seus olhares - os olhares que me olharam -
Jamais haviam passado.

Mesmo à alma superior a maldição de um órfão
Pode danar com seu poder;
Mais horrível, porém, é quando o olhar de um morto
A nós vem maldizer!
Sete dias e noites vi tal maldição,
E não podia morrer.

A Lua viajante alçava-se no céu,
Nenhum lugar seu lar;
Doce subia, acompanhada de uma estrela,
Ou duas, a brilhar...

Qual geada de abril, zombavam os seus raios
Do mormacento oceano;
Mas, onde a sombra imensa do navio jazia,
Ainda a água do mar enfeitiçada ardia,
Um rubro imoto e insano.

Além da sombra do navio, serpentes d'água
Vejo em minha agonia:
Movem-se em trilhas de candura que fulgura,
E, quando se erguem, chispam lâminas de alvura
Das luzes de magia.

Dentro da sombra do navio, as ricas vestes,
Suas vestes ricas vejo:
De azul, negro-veludo, ou verde que rebrilha,
Nadam e se enovelam, quando cada trilha
De áurea chama é um lampejo.

Felizes criaturas! A beleza vossa
Não há quem represente...
Uma fonte de amor jorrou deste meu peito.
E as bendisse inconsciente.
Um bom santo de mim por certo se apiedara,
E as bendisse inconsciente.

Naquele mesmo instante orar eu já podia;
E o albatroz, meu colar,
Se desprendeu de meu pescoço, e mergulhou
Como chumbo no mar.

PARTE V

Ó Sono! Ó Sono, que é de pólo a pólo amado,
Suave essência, e calma!
Nós devemos louvar Maria no seu trono!
Foi ela quem mandou este suave sono
Que desceu em minh'alma.

Sonhei que os baldes, tanto tempo no seu ócio
Ditoso no convés,
Encheram-se de orvalho; mas, quando acordei,
Era chuva ao invés.

Molhadas minhas vestes, úmidos meus lábios,
Minha garganta, fria;
Por certo havia bebido nos meus sonhos,
E o corpo ainda bebia.

Eu então me movi, mas não sentia os membros:
Tão leve estava... Quase
Imaginei que no meu sono havia morrido,
E era espírito em êxtase.

Mas logo ouvi um vento que rugia ao longe -
Um rumor afastado;
Mas só este som já sacudiu todo o velame,
Ressequido e esgarçado.

A vida irrompe no ar! Cem flâmulas-de-flama
Coriscam sobre os mastros,
Indo e voltando, à frente e atrás, rapidamente;
E dentro e fora, para trás e para frente,
Dançam em meio aos astros.

E o vento ao vir ruge mais alto; qual carriça,
Suspiram velas, cordas;
E a chuva se despeja de uma nuvem negra,
Com a Lua em suas bordas.

Inda lá estava a Lua, quando negra e espessa
A nuvem se partiu:
Como de alto penhasco tomba a catarata,
O relâmpago veio numa linha exata,
Um fundo e largo rio.

Nunca atingiu o barco o rumoroso vento -
E o barco era impelido!
Por sob a Lua e o coriscar, os mortos deram...
Sim, deram um gemido.

Gemeram, se moveram, e depois se ergueram,
Sem falar, sem olhar;
Mesmo em sonho, era estranho ver tanto homem morto
Do chão se levantar.

Manobra o Timoneiro, a nave se desloca,
E sem nenhuma aragem;
Os marujos se põem a trabalhar nas cordas,
E tal como antes agem;
Instrumentos sem vida tornam-se seus membros...
Que tétrica equipagem!

Postado frente a mim, puxando a mesma corda,
Era-me companhia,
Joelho com joelho, o corpo de um sobrinho;
Mas nada me dizia.

"Tenho medo de ti, ó velho Marinheiro!"
Por que, convidado, te espantas?
Em vez de seus espíritos atormentados,
Ora os cadáveres estavam animados
Por legião de almas santas:

Pois quando amanheceu, os braços de seus caídos,
Ao mastro envolve o bando;
Das bocas se elevaram lentos sons suaves,
De seus corpos passando.

Voava à volta, à volta, cada som suave
E rumo ao Sol subia;
E lento eles tornavam - um por uma agora,
Agora em harmonia.

Ouvia às vezes, como que a chover da altura,
A voz da cotovia;
Às vezes toda a passarada em seu gorjear,
Gorjear que parecia encher o céu e o mar
Com doce melodia!

E ora lembrava alguma flauta solitária,
Ora instrumentos agrupados;
Mais tarde se tornava um canto angelical,
Que os céus ouvem calados.

Cessou... Mas no velame, até o meio-dia,
segue um murmúrio ameno,
Igual ao do regato no frondoso junho,
Que, oculto no terreno,
Embala a noite inteira os bosques a dormir,
Com seu canto sereno.

Até o meio-dia o navegar foi calmo...
Mas sem nenhuma brisa:
impelido por baixo, lenta e livremente
Nosso navio desliza.

Nove braças ao fundo, sob a sua quilha,
Do lar de névoa e neve
O Espírito se esgueira; é quem empurra o barco
Num movimento leve.
O canto do velame pára ao meio-dia,
E o navio parar deve.

A pico sobre o mastro, o Sol o havia cravado
Naquele oceano manso;
Mas num minuto ele voltou a se mover,
Num breve e duro avanço...
À frente e atrás, não mais que o meio de seu casco,
Num breve e duro avanço.

Então, como um cavalo escarvador que é solto,
Saltou inesperado;
Fez que o sangue à cabeça me subisse,
E caí desmaiado.

Quanto tempo durou o desfalecimento
Eu não sei afirmar;
Mas, antes de vivente vida novamente,
Eu pude ouvir e discernir em minha mente
Um par de vozes no ar.

"Este?" disse a primeira, "O homem então é este?
Por Cristo, que morreu por nós!
Sua mão funesta é que prostrou com uma besta
O inocente Albatroz.

O Espírito, que habita inteiramente só
O lar de névoa e neve,
Amava aquele pássaro que amava este homem
Que o mataria em breve."

A segunda, entretanto, era uma voz mais doce,
Doce quanto o maná;
Disse ela: "Este homem fez bastante penitência,
E muito mais fará".

PARTE VI

PRIMEIRA VOZ

"Mas diz-me, diz-me! Narra mais, e continua
Teu doce replicar...
Por que veleja tão veloz esse navio?
Que está fazendo o mar?"

SEGUNDA VOZ

"A mar, imóvel como o escravo ante o senhor,
Sopro algum tumultua;
Seu grande olho brilhante imerso no silêncio
Volta ele para a Lua

Para o caminho descobrir, pois ela o guia
Em bonança e procela.
Eis ali, meu irmão! Quanta benevolência
Lhe transmite o olhar dela."

PRIMEIRA VOZ

"Porém o que, sem vento ou vaga, a esse navio
Ir tão depressa faz?"

SEGUNDA VOZ

"Fendem-se à frente os ares para a sua passagem,
E fecham-se por trás.

Mas não nos retardemos! Cada vez mais alto,
Foge, irmão - como eu fujo!
Sempre mais devagar irá navio andar,
Despertado o Marujo."

Voltei a mim, e, como quando o tempo é calmo,
Seguia o barco avante;
Plácida a noite, era alta a lua; e vi reunidos
Os mortos nesse instante.

Todos de pé lá no convés, que deveria
Ossário se chamar;
Todos em mim fixavam seu olhar de pedra,
Que brilhava ao luar.

Jamais havia passado a angústia de sua morte -
A dor, a maldição;
Meus olhos de seus olhos não podia tirar
E erguer em oração.

E eis que me é dado ver de novo o oceano verde...
Rompera-se a magia;
Perscrutei o horizonte, mas eu vi bem pouco
Do que ver se podia...

Era eu como quem vai, com medo e com temor,
Por deserto lugar,
E, tendo olhado à pressa para trás, prossegue
Sem nunca mais olhar
Porque bem sabe que um demônio assustador
Pisa em seu calcanhar.

Entanto, logo sopra um vento sobre mim,
Sem moção, sem barulho;
O seu caminho não passava pelo oceano,
Na sombra ou no marulho.

Agitou-me os cabelos, abanou-me a face,
Como a aura faz na primavera...
Mesmo a mesclar-se estranhamente aos meus temores,
De boas vindas era.

Veloz, veloz voava a nave - suavemente
Velejando porém;
E branda, branda a brisa para mim soprava -
Para mim, mais ninguém.

Ó sonho jubiloso! É o topo do farol
O que avisto afinal?
Aquilo é promontório? Aquilo é mesmo a igreja?
É o meu país natal?

Cruzando a barra, entrávamos no porto; e, em pranto,
A Deus orei assim:
Senhor, desperta a mim agora, ou então dá-me...
Dá-me o sono sem fim!

A baía brilhava como um claro espelho,
Tão lisa a face sua!
E por sobre a baía o luar se distendia,
E o reflexo da Lua.

Cintilava o penhasco - e assim a igreja no alto,
Que é seu coroamento;
E o plenilúnio mergulhava na quietude
O imóvel catavento.

E toda aquela alvura à muda luz fulgura;
E da luz vêm por fim
Vultos variados, que eram sombras, ostentando
As cores do carmim.

As sombras de carmim se apressam rumo à proa,
E se postam ali;
Nesse instante voltei os olhos ao convés...
Cristo meu! O que vi!

Cada corpo, estirado... exânime e estirado;
E - pela santa cruz!
Por sobre cada corpo havia um serafim,
Um homem todo luz.

Com as mãos acenando, o seráfico bando
Era visão superna!
Sinaliza para a terra em seu fulgor,
Cada um, uma lanterna.

E o seráfico bando as mãos ia acenando
Em silêncio perfeito...
Em silêncio; mas ó! caía este silêncio
Qual música em meu peito.

Nisto, o bater de remos e o brado do Piloto
Fazem que me alvorote...
Fui forçado a lançar os olhos para o mar,
E vi surgir um bote.

O Piloto, a seguir - com o ajudante seu -
Ouvi se aproximar;
Era alegria - ó Deus do Céu! - que nem os mortos
Podiam arruinar.

E lá vi um terceiro: era o Ermitão piedoso!
Escutei sua voz,
A alta voz com que entoa os seus hinos de loa
Que nos bosques compôs.
Ela há de me absolver, ele há de me lavar
Do sangue do Albatroz.

PARTE VII

Vive o Ermitão piedoso nesse bosque anoso
Que desce para o mar.
Quão doce eleva a sua voz altissonante!
Com marinheiros vindos de qualquer quadrante
Ele ama conversar.

De manhã se ajoelha, e ao meio-dia, e à tarde...
Tem fofo travesseiro:
O velho e apodrecido toco de carvalho
Que o musgo envolve inteiro.

O bote aproximou-se; e ouvi as suas vozes:
"Ora, é estranho, é irreal!
As belas luzes onde estão, que ainda há pouco
Nos faziam sinal?"

"Estranho, à fé!" disse o Eremita... "Nem resposta
Deram a nosso brado!
A tabica empenada! e vede o seu velame
Ressequido e esgarçado!
Nunca vi nada igual em minha vida, a menos
Que seja comparado

Aos espectros das folhas mortas, essa turba
Que ao leito do regato entope e rouba,
Quando na moita de hera a neve se demora
E o mocho pia para o lobo que devora
Os filhotes da loba."

"Meu Deus! Meu Deus! Como é sinistro seu aspecto..."
(É do outro a voz aflita.)
"Estou morto de medo..." - "Avante, avante!" clama
Animado o Eremita.

O bote veio e se encostou junto ao navio:
Eu não falei nem me movi.
O bote veio e se encostou sob o navio;
E um som súbito ouvi.

N'água um surdo rumor, sempre mais alto e horrível,
O abismo todo inunda;
Ele corta a baía, ele alcança o navio,
Que como chumbo afunda.

Aturdido deixou-me o som alto e medonho,
Que sacudiu o oceano e o céu;
Como afogado há sete dias (eu suponho)
Boiou o corpo meu;
Porém, com o Piloto, rápido qual sonho,
No bote vejo-me eu.

No redemoinho do naufrágio o bote gira
Ao redor, ao redor;
Depois, silêncio... Exceto o monte, que defronte
Repetia o fragor.

Movi meus lábios... O Piloto deu um grito
E tombou desmaiado;
O Ermitão santo ergueu os olhos e rezou,
Ali mesmo, a seu lado.

Tomei os remos: o ajudante do Piloto
Se pôs a delirar;
Longo tempo arrastou ruidosa uma risada,
Os olhos a rolar;
"Ha! Ha!" disse ao cabo, "agora sei que o Diabo
Também sabe remar."

E por fim eis-me ali, pisando em terra firme
Na própria terra minha!
Quando o Ermitão depois abandonou o bote,
De pé mal se sustinha.

"Absolve-me, santo homem!" E o sinal da cruz
O Eremita me fez.
"Diz me depressa," inquiriu ele, "diz, te peço:
Que espécie de homem és?"

Esta carcassa desde então foi torturada
Por atroz agonia;
E apenas quando eu relatava a minha história
Livre dela me via.

Sempre aquela agonia - e sempre em hora incerta -
Retorna desde então;
E enquanto a minha história tétrica não conto,
Queima-me o coração.

Tenho um estranho dom do verbo; e, como a noite,
Errar de terra em terra é meu destino;
No momento em que vejo um rosto num lugar,
Eu sei que é o homem que precisa me escutar,
E meu caso lhe ensino.

Quem suporta o clamor que jorra aquela porta!?
Os comensais lá estão;
Mas no jardim a noiva e as damas de honra cantam
Sob o camaranchão;
Ó, escuta o humilde sino do ângelus que agora
Me convida à oração!

Convidado Nupcial! Esta alma esteve só,
Num largo, largo mar...
Era tão vasto e tão vazio, que o próprio Deus
Lá não devia estar.

Ó, bem mais doce do que as bodas para mim -
Porque a maior doçura -
É encaminhar-me em companhia para a igreja,
Na devoção mais pura!

É encaminhar-me em companhia para a igreja,
Na devoção mais pura!

É encaminhar-me em companhia para a igreja
E orar à luz das velas,
Enquanto cada qual ao Pai dobra os joelhos -
Bons amigos, crianças, jovens, velhos
e as alegres donzelas!

Adeus, adeus! Porém... acrescentar convém,
Convidado Nupcial:
somente reza bem aquele que ama bem
Homem, ave e animal.

Somente ora melhor quem sabe amar melhor
A tudo, grande e miúdo;
Pois o bondoso Deus, que tem amor por nós,
Ele fez e ama tudo.

E foi-se o Marinheiro - cintilante o olhar
E a barba branca e vasta;
E das portas do noivo o Convidado agora
Lentamente se afasta.

Caminhou como alguém a cujo senso aturdem
Desvario e ressábio...
E, na manhã seguinte, levantou-se um homem
Mais sombrio e mais sábio.