H. P. Lovecraft

........A obra do escritor norte-americano Howard Philips Lovecraft sempre enfrentou enormes dificuldades de ser transcrita para o cinema. Trata-se de um terror subconsciente, que tem na imaginação um elemento a mais para aterrorizar o leitor. Como passar isto para uma arte estritamente visual?
........Ao contrário de outros escritores nascidos no século XX, que construíram suas obras tendo em vista seu aproveitamento cinematográfico, Lovecraft se manteve fiel a um estilo altamente subjetivo, freudiano. O medo, em sua obra, vem de lugares que não deveriam ter sido explorados, descobertas que não deveriam ter sido feitas. O "Necronomicom", livro secreto escrito pelo árabe louco Abdul al-Hazred, de cujo conteúdo só se conhece pequenos trechos, como esses :

"Não está morto o que para sempre pode jazer,
E, com eras estranhas, até a morte pode morrer."

(do conto "O Chamado de Cthulhu")

........"As cavernas mais inferiores, não são para a compreensão dos olhos que vêem; pois suas maravilhas são estranhas e terríveis. Amaldiçoando o chão onde pensamentos mortos vivem em novos e estranhos corpos, e maligna a mente que é mantida por nenhuma cabeça. Como Ibn Schacabao sabiamente disse, feliz é a tumba onde nenhum mago foi sepultado, e feliz é a cidade onde, à noite, todos seus magos são cinzas. Pois é um velho rumor que a alma dos levados pelo demônio não se precipita dos restos de sua carne, mas engorda e instrui o próprio verme que o mastiga; até que da decomposição surge uma vida horrenda, e os estúpidos escavadores da cera da terra astutamente se mobilizam para criar monstros para nos afligir. Grandes buracos são cavados secretamente onde os poros da Terra deveriam bastar e as coisas que deviam rastejar aprendem a andar."

(do conto "O Festival")

(N. do E. - Grande parte da correspondência do escritor esclarecia que o "Necronomicon" não passava de criação de sua imaginação e que Abdul al-Hazred seria um apelido que um parente lhe dera aos 5 anos, visto que após ouvir estórias do livro "As Mil e Uma Noites" Lovecraft se travestia de árabe em suas brincadeiras.)

........César Souza, responsável pelos (ótimos) fanzines Suspiria e She Demons, certa vez disse que tentou desenhar as criaturas descritas por Lovecraft. “Não dava, era tentáculo saindo pela boca, duas cabeças...aquilo não podia, ou não era feito para ser visualizado”. Outro fator que complica a vida dos cineastas é o clima aterrador imposto pelo criador dos mitos do Cthulhu. Há exemplos de obras que seguem literalmente os eventos descritos pelo escritor, mas não conseguem chegar nem perto das nuances dos livros.
........As primeiras adaptações cinamatográficas de Lovecraft datam dos anos 60, da produtora AIP de Roger Corman. O primeiro é “O Castelo Assombrado (The Haunted Palace)”, adaptação disfarçada de “O Caso de Charles Dexter Ward” tendo Vincent Price como ator principal e o próprio Corman como diretor, trata sobre um nobre obcecado pelas experiências de um antepassado com alquimia, e o modo como ele retoma as experiências deste. Apesar de ser bem fiel à narrativa lovecraftiana, não conseguiu captar a essência do livro, o clima violento e perverso da obra do escritor. O mesmo pode ser dito das duas adaptações seguintes da AIP, “Morte para um Monstro (Die Monster Die)”, com Boris Karloff, adaptação de “A Shadow out of time”, “A maldição do Altar Escarlate (Crimsom Cult)”, tirada de “Dreams in the Witch House” e “The Dunwich Horror”, este uma história de casa mal-assombrada com elementos “roubados” do conto de mesmo nome.
........Muito curiosamente, os melhores resultados obtidos nos anos 70 foram na série de TV “Galeria do Terror”. Crida para ser uma espécie de continuação de “Além da Imaginação”, acabou servindo para Rod Serling fazer adaptrações de contos que sempre gostou, como “Cool Air”. A escasez de recursos e pobreza de produção é compensada pelos climas desenvolvidos pelo diretor Jeannot Schwartz e (importantíssimo) pelo roteirista Richard Matheson (que ficariam famosos anos mais tarde pelo açucarado “Em algum lugar do passado).
........Como a produção não tinha como providenciar os tais monstros descritos nos livros, eles eram apenas sugeridos, ou mostrados em distorções de câmera, forçando a imaginação do espectador a funcionar.
........Já nos anos 80, uma febre de Lovecraft é detonada por Stuart Gordon, num dos filmes de terror mais atrevidos desta época, “Re Animator”, de 1985. É a primeira adaptação cinematográfica de sua obra desde 1970. Uma variação de Frankestein, em que um cientista obcecado pela vida após a morte fica brincando de reviver o necrotério de uma universidade, acendeu numa geração inteira de espectadores a vontade de conhecer a obra deste escritor, de um modo jamais visto antes. O filme tem pouco do livro, mas cenas polêmicas (como quando um cadáver faz sexo oral numa mulher amarrada) lher valeram uma imensa reputação entre os fãs de horror. Teve uma continuação, dirigida por Brian Yuzna, quase do mesmo nível (A noiva do Re-Animator).
........Foi seguido por “Do Além”, com praticamente o mesmo elenco. Desta vez trata de um cientista envolvido em experiências com o mundo dos espíritos. Tem pouco a ver com a obra no qual se baseou, mas é climático e envolvente. O mesmo não pode ser dito de “Necronomicom”, do mesmo Gordon. Financiado por japoneses, utiliza-se de três episódios  para falar sobre os perigos do livro secreto descrito por Lovecraft em vários de seus contos.
........Aliás, várias obras, mesmo não tendo nada a ver com o escritor, fazem referências ao Necronomicom. “Succubus”, de Jess Franco, foi lançado na França e no Canadá com este nome. Não é por acaso que o livro dos mortos da triologia “Evil Dead” (A Morte do Demônio/ Uma Noite Alucinante/ Exército das Trevas) é este ...

........O filme “The Beyound” (lançado em vídeo no Brasil com os títulos “Terror nas Trevas” em 1986, e “A Casa do Além” no ano passado), de Lúcio Fulci, parte de uma premissa tipicamente lovecraftiana (um livro secreto que dá acesso a espíritos malignos e assustadores) para se transformar num legítimo banho de sangue em sua última meia hora.
........A última adaptação direta da obra de Lovecraft foi “Renascido das Trevas (The Ressurected)”, de Dan O’bannon (roteirista do primeiro Alien, que em suas palavras é uma criação lovecraftiana). De novo baseado em “Charles Dexter Ward”, com Chris Sarandon no papel que foi de Vincent Price, sofre do mesmo mal: pouco clima lovecraftiano, apesar de seguir à risca o livro.
........Há o caso oposto, como “À Beira da Loucura”, de John Carpenter. Apesar de não se basear em nada do cânone de Lovecraft, este filme conseguiu chegar mais perto do clima pesado dos livros do escritor que quase todas as outras obras. Trata da procura por um escritor cuja obra enlouquece todos que a lêem. É assumidamente inspirado por Lovecraft, como “homenagem”.

Carlos Thomaz do Prado Lima Albornoz


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