........“Histórias Extraordinárias” é o título da tradução que Baudelaire fez de alguns contos de Edgar Allan Poe para o francês que, segundo alguns críticos, é melhor que a versão original destes. Foi sob este título que três cineastas europeus filmaram contos do grande escritor norte-americano, dando origem a uma das mais originais interpretações da obra deste mestre da literatura fantástica.
........Não muito tempo atrás, Roger Corman havia feito nada menos que oito filmes sobre Poe. Nem todos eram necessariamente baseados em sua obra (“O Castelo Assombrado”, por exemplo, era baseado em Lovecraft), mas o clima destes filmes ficou famoso, e foi dominante no horror mainstream até “A Noite dos Mortos Vivos” e “O Exorcista” mudarem a situação. Por isso, quando foi anunciada a realização desta obra, foi natural pensar que seria uma continuação natural do ciclo de Poe na AIP. Estavam todos redondamente enganados.
........A escolha dos diretores era no mínimo desparelha. Roger Vadim era mais famoso pela bom gosto na escolha de suas esposas (primeiro Brigitte Bardot, depois Catherine Deneuve, e na época deste filme Jane Fonda) que pelas habilidades cinematográficas. Louis Malle é ligado à Nouvelle Vogue, movimento que pregava a liberdade de expressão para os diretores. E Fellini... era Fellini, ora bolas. Com exceção de Vadim, que em 1960 havia dirigido o lindo “Rosas de Sangue” ("Blood and Roses" ), nenhum deles jamais havia  feito filmes de horror.  E continuaram não fazendo, pois “Histoires Extraordinaires” (“Spirits of the Dead” [Espíritos dos Mortos] nos EUA, “Il Tre Pasi nei Delirio” [Três Passos no Delírio] na Itália e “Histórias Extraordinárias” no Brasil) NÃO é um filme de horror. Contém, em seus três episódios, uma atmosfera surreal, um clima inusitadamente onírico, mas tentou contar Poe de outro modo. Como diz Tim Lucas, da revista Video Watchdog, é uma espécie de versão cinematográfica do álbum “Sgt Peppers”, dos Beatles, com seus tons psicodélicos sendo amplamente utilizados em vários momentos do filme.
........Vamos para a parte “Video Watchdog” deste artigo: a versão francesa apresentada de seis em seis meses pelo Multishow, apesar de preservar o belo aspecto widescreen da versão cinematográfica, não é perfeita como poderia, já que existem duas versões do filme. Nesta cópia, há a versão definitiva para o episódio “William Wilson”, onde os atores principais (Alain Delon e Brigitte Bardot) falavam francês no set; um cujas duas versões são equivalentes (“Metzengestein”, dublado por Jane Fonda tanto na versão francesa quanto na americana) e finalmente o terceiro conto, cuja versão definitiva está na cópia exibida nos EUA e na Inglaterra (“Toby Dammit”, onde a magnífica performance de Terence Stamp é dublada por outro ator). Além disso, há um belo “plus” na versão norte-americana: uma narração de Vincent Price para a poesia “Spirits of the Dead”, de Poe. O ideal seria uma composição destas duas versões. Como nenhum produtor de TV parece ter interesse nisso (já considero ótimo terem apresentado uma cópia em bom estado), o negócio é esperar um DVD bilíngue...
........Vamos ao filme: há uma espécie de “acordo tácito” entre a crítica “esclarecida” (aqueles chatos que te dizem que os filmes iranianos e vietnamitas que eles fingem gostar são melhores que os de terror e ação que você ama), pois em todos os guias de referência que li (com exceção do artigo de Tim Lucas) se diz que “o episódio de Vadin é chato, o de Malle é razoável e o de Fellini é uma obra prima”. Concordo com a terceira parte, mas isso simplifica demais o assunto, e não vê as qualidades evidentes dos outros dois segmentos.
........Por este ponto de vista não percebe-se, por exemplo, o magnífico trabalho de direção de arte do primeiro episódio (Metzengerstein, de Roger Vadin) que, aproveitando-se de uma “deixa” que está no conto (esta história é atemporal, pois a maldade é assim também) mistura desde roupas renascentistas até figurinos que parecem saídos de Flash Gordon (uma antevisão de “Barbarella”, que ele filmaria alguns meses depois?). Este truque desorienta o espectador. Os dois Fonda estão muito bem, revelando uma segurança na direção que não é tão visível em outros filmes de Vadin. As escolhas que este fez, também, são adequadas, com todo o elenco atuando uniformemente, sem destaques nem (como é comum em filmes de Vadin) decepções. Há também um forte clima sexual, contrastando a libertinagem de Frederique Metzengerstein (Jane Fonda, numa ousada inversão do sexo do protagonista do conto) com o “bicho-grilismo” de Wilhelm (Peter Fonda, um ano antes de fazer “Sem Destino”). O final poético é lindamente conduzido, e muito de acordo com valores em voga na época, de retorno à natureza e ecologia.
........Se há um clima onírico e surreal no primeiro episódio, o segundo é mais sério e realista. “William Wilson” lembra muito o trabalho posterior de Louis Malle, cujas críticas ao sistema escolar presentes aqui seriam repetidas em “Murmúrio do Coração” (1971) e “Adeus Meninos” (1987), assim como ter um personagem principal com tendências fascistas ecoa seu “Lacombe Lucien” (1974). Há escolhas ousadas também, como de não colocar o protagonista Alain Delon no papel de seu “duplo” oposto em virtudes. E demonstra muita habilidade, pois críticos de cinema (Tim Lucas cita o respeitado Phil Hardy) JURAM que a loirinha que é torturada por Delon é Brigitte Bardot (essa atriz se chama Katia Cristina). A linda Brigitte, morena e linda (antes das bundamolices ecológicas), aparece como a jogadora de cartas (no conto é um homem) que perde para Delon e precipita o confronto final entre os dois “William Wilsons”.
........Mas o melhor é o último episódio mesmo... a inacreditável adaptação que Fellini e Bernardino Zapponi fizeram para o conto “Nunca aposte sua cabeça com o Diabo” está entre os grandes momentos do cinema fantástico de todos os tempos. Terence Stamp é Toby Dammit, um ator decadente que parece um punk, com seu cabelo descolorido e jeito entediado. Ele foge para o campo, onde tem a infeliz idéia de fazer uma aposta com o Cramulhão. Dito assim parece simples, mas o jogo de cores e a psicodelia obtidos por Fellini são assombrosos. É ao mesmo tempo o episódio do filme que mais foge de seu original literário e o que faz mais justiça à prosa barroca de Poe. Não foi a primeira vez que se tentou modernizar o ambiente dos contos de Poe (nem a última, vide “Dois Olhos Satânicos”, de Argento e Romero), mas é sem dúvida a visão mais delirante e avant-guarde jamais vista.
........Uma das grandes sacadas de Fellini foi roubar um personagem de “Operazione Paura” (1966), de Mario Bava, uma loirinha inocente que na verdade é o Diabo (quando Bava se queixou para Giuletta Masina, ela simplesmente suspirou e disse, “você sabe como Federico é...”). Este personagem também inspirou a diabinha que tenta Jesus  em “A Última Tentação de Cristo”.
........Curiosamente, tanto Malle quanto Fellini sentiam-se embaraçados ao serem associados a Vadin, cuja obra os dois odiavam. Em entrevistas, quando perguntado sobre o filme, Fellini dizia que havia-o feito com “Malle e Bergman”, e se apertado pelos repórteres dava uma risada e confirmava a “parceria” com Igmar.
........“Histórias Extraordinárias” é um filme sério, escuro e ameaçador, que faz mais justiça à obra de Poe que quase todas as outras adaptações já feitas. Também faz justiça ao clima sombrio da obra de seu intérprete francês, Baudelaire.
........Por mais que os episódios sejam desiguais, eles estão numa estrutura narrativa admirável: uma abertura provocativa, um meio psicologicamente forte e um final catárquico. Pense o que se pense sobre o resultado final, ele é o produto de três diretores com aspirações mais sérias e profundas que o gênero horror comporta. Como seu contemporâneo, o álbum “Sgt Peppers”, ele atravessou um território virgem que teve que ser aumentado depois.

Carlos Thomaz do Prado Lima Albornoz