Entrevista - Chants of Maledicta

(por Fábio Arruda)


Respondida por Elaine Cristina, instrumental e vocais do Chants of Maledicta.


Para os que ainda não conhecem o Chants Of Maledicta, faça uma pequena descrição da história do grupo.

Depois de várias tentativas de formar bandas padrão, com 5 membros, ficamos frustrados principalmente com bateristas, no final só restamos nós dois que somos amigos desde os 9 anos de idade. No desespero vendemos os baixos (nós dois tocávamos baixo antes, mas em diferentes períodos) e decidimos comprar teclados. Foi aí que começou a época mais frutífera de nossa amizade. Cada ensaio era uma diversão ou liberação de angústias do dia-a-dia. Isso foi no final de 95. Fazíamos musicas para nosso entretenimento, porque na época (e ainda hoje) não existia nenhuma banda nova que nos motivasse, só que depois de um tempo, as gravações que fazíamos em casa deixavam a desejar. Queríamos qualidade mas não tínhamos em mente o que fazer, e achávamos que ninguém gostaria do nosso som. Foi aí que eu liguei para um amigo meu que trabalhana loja (Denival da "Coringa") e toquei uma das músicas. Ele falou que deveríamos fazer uma demo-tape, pois existiam pessoas na área que adorariam nossas músicas. Achei que ele estava brincando, por isso continuamos ensaiando e só depois de um tempo decidimos gravar uma demo-tape em um estúdio analógico de 4 canais, num período de 3 horas durante dois dias. Depois de tudo quando colocamos no toca-fitas do carro, pudemos ouvir nossas músicas melhor, e depois disso mostramos para o Denival, e ele adorou! O resto é história, ele colocou para vender na loja de CDs, de repente em um mês havia pessoas nos ligando para parabenizar. O CoM é um grupo relativamente novo. A primeira demo foi muito bem recebida por vários zines, além de ser executada em rádios de alguns países.


Vocês esperavam esse reconhecimento logo no primeiro trabalho?

Não, de maneira alguma. Quando fizemos a demo no inicio de 97 quase não mostramos para ninguém, achávamos que ninguém se interessaria. Quando o Alexandre (vocalista) mandou a demo para um amigo da Suíça, ele não sabia o que aconteceria, mas o amigo dele tinha amizade com um cara de uma rádio de lá e de zines. Para nossa surpresa eles fizeram até um remix de Mournfulness! Uma amiga minha, dos EUA, fez 50 cópias da demo e mandou para amigos dela por todo o país. A propaganda surgiu boca a boca e nunca pensamos que as coisas atingiriam tais proporções, porque não procuramos isso, as oportunidades apenas apareceram.


Isso provou que vocês estavam no caminho certo, e que realmente havia público para esse tipo de som, não?

Sim. Ficamos lisonjeados em saber que as pessoas entendiam as nossas músicas, porque cada uma representa nossas experiências, as mensagens que gostaríamos de ouvir e com que ninguém mais se importa. Contudo, isso não significou que apenas pisamos em pétalas de rosas. Sofremos todo o tipo de preconceito em nossa cidade: de uma lado havia pessoas pedindo até por fitas de ensaios, do outro gente negando tocar uma música sequer na rádio, só porque o estilo não é "rock" no conceito do pessoal "underground". A cena se dividiu.


A primeira apresentação do CoM foi em um evento da griffe Ellus. Você acredita que ter a primeira apresentação ao vivo vinculada a uma marca famosa ajudou em que aspectos?

Ajudou no aspecto que tínhamos uma platéia imensa e queríamos ser testados ao vivo, tocamos para pessoas que não sabiam nada a nosso respeito e foi muito interessante, houve uma resposta positiva. A qualidade do som era regular, contando que a mesa de som estava com a mixagem para a banda principal. O palco foi legal, pudemos fazer uma performance assim como estávamos planejando. Tudo estava coberto ao redor com um papel tipo seda, só dava para ver nossas silhuetas. Aí tinha uma modelo muito louca, maravilhosa, bem futurista, chamando a atenção do público, até que tocamos os primeiros acordes de Spirit Dance e ela rasgou violentamente o papel ao nosso redor, foi adrenalina total, as pessoas estavam boquiabertas. Tinha uma tela, passando os desfiles da griffe. Mas como sempre, ficamos extremamente desapontados: o cara da organização do evento prometeu filmar o show, só que ele veio com a conversa de que não deu porque não tinha mais dinheiro. O problema é que por causa disso deixamos de pedir emprestado para alguém, por acreditar na palavra do cara. Temos só algumas fotos, mas quase não dá para saber quem é quem no meio da fumaça.


O CoM é de Salvador. Como é a cena alternativa de lá?

Bem, a cena de Salvador sempre deixou muito a desejar. Não no que concerne ao público, mas, em relação às bandas, ninguém se interessa em fazer algo realmente do coração, algo inusitado. A maioria leva as bandas como um hobby de final de semana. Nada de novo, nada que chame a atenção. Tipo a capa da nossa demo tape é até uma ironia, tem um pentagrama. Boa parte da cena de lá é de fãs de black metal, mas eles são pessoas muito interessantes. Com a evolução desse tipo de som eles se abriram mais a outras coisas, muitos deles adoraram o CoM Por outro lado, existem os velhacos que só gostam de heavy metal, com suas bandas clones de clones. Torceram o nariz para a gente, colocaram de primeira o preconceito "isso é musica eletrônica, não tem sentimento nem peso". Não tenho nada contra heavy, eu, particularmente, gosto do Black Sabbath velho, mas odeio pessoas que não dão uma chance para o novo. O problema é que muitos lá de Salvador, programa de rádio e organizadores de shows, acharam que estávamos tomando o lugar do metal, ou algo assim. Recebemos tanta recusa que o único consolo que encontramos foi o ânimo que as pessoas que admiram o nosso trabalho demonstraram, o apoio. O público de lá sabe como as coisas são difíceis. As pessoas de lá merecem coisa melhor, merecem shows com qualidade. Essa coisa de apenas um grupinho controlar tudo tem que terminar.


Existem lugares em Salvador para grupos alternativos se apresentarem?

Sim, mas deixam muito a desejar, a qualidade de som é sempre horrível, a banda muitas vezes tem que pagar para se apresentar. Antes do show para a Ellus, estávamos considerando alugar uma boate, fazer uma coisa só para as pessoas que quisessem nos ouvir. Seria ótimo, porque era uma boate gay! Várias pessoas do metal, que nos detestam, fazem comentários tipo "musica eletrônica é para gay, esse povo gótico bissexual". Seria muito divertida a reação. Mas não aconteceu porque não conseguimos patrocinadores interessados. E não dava para alugarmos por nossa conta, o local tinha bastante visual.


Tomando agora o Brasil como um todo, você acha que bandas como o CoM tem chances de conseguir seguir uma carreira estável?

A nossa filosofia continua a mesma, antes de tudo fazemos música para nós mesmos. Temos conhecimento de que existem algumas pessoas que também compartilham do mesmo gosto musical. Onde existir pessoas interessadas, sempre existirá o CoM. O público no Brasil tem qualidade, o problema é que as gravadoras não percebem o imenso mercado que eles estão deixando de lado.


Você concorda que o pessoal das bandas, zines, casas noturnas, e até o próprio público alternativo acaba subestimando demais a importância que a cena tem?

Plenamente. Um dos maiores responsáveis, em primeiro lugar, são as bandas que quase nunca se respeitam, acabam se sujeitando a tudo que os "organizadores" determinam. Em segundo, o público, que se acostumou à situação... Os zines são um caso à parte. Eu já comprei zine, já fiz zines... As pessoas que fazem não ganham nada em troca, fazem porque gostam, fazem porque têm algo a passar. Eu, na maior parte das vezes, sempre fui a shows mais para conversar com as pessoas do que para propriamente assistir um show! Não dá para ter prazer quando você vê uma banda tocando numa situação caótica, sem monitor, é um sofrimento!


O CoM tem um forte lado gótico. O que você acha do "movimento" gótico como um todo? Você acha que no Brasil existe uma cultura gótica difundida, em todos os aspectos?

No Brasil existe uma cena gótica sim, mas é diferente. Quero frisar, as pessoas aí realmente gostam da música, são fiéis mesmo. Eu estou em constante contato com a cena daqui na Noruega e vi também a cena da Inglaterra quando fui para Londres. A coisa é nojenta! As pessoas daqui estão mais preocupadas com a aparência e são extremamente elitistas. Dizem que são artistas, mas para mim não passa de arte ruim. Fingem ser depressivos, mas são no fundo patéticos. Aquela cena que um dia foi chamada gótica, acabou quando o clube Batcave de Londres fechou. O que restou hoje não conta. Sem falar que as bandas que são consideradas "precursoras" negaram totalmente as raízes, e hoje tentam resgatar o lugar que nunca deveriam ter largado. Todos os "góticos" nos EUA odeiam Marylin Manson. Só que ninguém se lembra que, se não fosse ele e a ignorância da mídia que o rotulou gótico, o público "normal" dos anos 90 não se interessaria em saber o que é a música "gótica" e procurar pelos clássicos. Eu particularmente não gosto dele, mas não posso fechar meus olhos à realidade. De alguma forma ele colaborou com a massificação do estilo. Hoje as gravadoras pulam de alegria se a banda se rotula gótica! O rock pop britânico está em decadência e esse é o espelho do que acontece aqui.


Então, visto que a cena em Londres (onde seria mais "forte") está totalmente "decadente" (vamos colocar assim), você concorda que pode-se pensar que, o que é conhecida como "cultura gótica" está muito mais autêntica no ensolarado Brasil?

É que por causa dessa decadência do rock pop britânico, o público de lá está redescobrindo as bandas que realmente faziam algo "mais sério". No caso de Londres no que refere à cena "gótica", a única banda que fez algo novo, que está em alta, é a Suspiria. Eles tocam em todo o canto por lá. Lá as pessoas estão mais preocupadas em ir para os clubes e dançar, sem falar que estes só se mantiveram porque nos 80 abriram andares de música industrial e outro de techno. Senão a "cena" de lá não teria sobrevivido! No Brasil as coisas são mais autênticas sim, porque as pessoas gostam do som, elas não podem abusar da imagem por causa do preconceito, por isso, para compensar, elas lêem mais, ouvem mais, se reúnem mais. Isso eu estou falando da realidade que eu convivi, não estou mencionando São Paulo que é a Manchester musical brasileira, não dá para ninguém de fora do circuito entrar! A redescoberta realmente está acontecendo, nos EUA principalmente, mas as pessoas estão rotulando demais, e já estão fechando a possibilidade de outras entrarem na cena. O rock britânico está em pura decadência; é mais fácil você ver BackStreetBoys na parada da Europa, do que uma banda de verdade. Ninguém na Europa está interessado em coisa nova, exceto a Alemanha. O mercado de lá é aberto a todo o tipo de música.


Voltando ao Chants: A sua mudança para a Noruega foi uma opção de ordem pessoal, musical ou um pouco dos dois?

Os dois. Primeiramente, eu vim de férias para visitar meu atual marido no natal. Só que aconteceu que percebemos que não havia condições de ficarmos separados, e eu decidi ficar. Não foi uma decisão fácil, ele visitou o Brasil e adorou, mas aí não tem as mesmas condições que aqui. Sem falar que, quando eu descobri que aqui a banda tem totais condições de atender às nossas necessidades, não pensei duas vezes. Eu e o Alexandre entramos em pânico, quase acabamos a banda, porque não sabíamos o que fazer. Depois de muito pensar descobrimos a solução mais óbvia: já tínhamos 8 músicas prontas quando eu vim para cá, agora estamos trocando fitas com outras coisas, trocando correspondência direto, e em fevereiro Alexandre vem para cá, vamos gravar um álbum independentemente. Poxa, aqui o governo paga projetos culturais, eles financiam filme (meu marido produziu um curta assim) e emprestam equipamento para bandas, dão grana para gravar demo-tapes, só que eu decidi por outro caminho. Aqui um salário comum, num supermercado, dá 25.000 dólares por ano. E eu nem preciso trabalhar esse ano, se eu tenho a bolsa de estudos que eles dão para os estudantes daqui. Estou montando um pequeno estúdio, aos poucos, sem falar que meu marido tem acesso à TV estudantil - vai rolar ate videoclipe!! Claro que tudo tem seu preço, aqui eu não tenho minha família , perdi meus amigos, perdi meu status e importância, aqui eu sou a "garota brasileira". A única pessoa com quem conto é meu marido e ele foi o primeiro a me botar contra a parede e evitar que eu desistisse. Vivo na constante dúvida de se estar aqui é uma dádiva ou um castigo. As pessoas daqui são horríveis, não conversam com estranhos, são muito fechadas. Quase não sobrevivi ao inverno, pensei que fosse morrer, não por causa do frio, mas sim por causa das crises depressivas. Foi aí que me dediquei mais à musica. Alexandre também fez o mesmo. Essa experiência nos marcou bastante e as pessoas vão perceber no álbum.


Você já conseguiu algum tipo de divulgação para o CoM na Noruega?

Só numa loja, mandei uma fita para o dono. Essa loja só tem gótico/eletrônico e é tão radical que você não acha Joy Division porque esta banda você acha em qualquer loja comum. Ele tem mostrado para alguns amigos, ainda estou acertando o show. Precisamos ter uma audiência grande por aqui para acontecer. Tem outro lugar para que ainda tenho que mandar - abriu um outro clube em outra cidade, eles fazem shows constantemente. Eu não vou negar, eu quase me desanimei no começo... meu marido mandou uma fita para a rádio principal daqui, que tem um programa especializado, ainda quando eu estava no Brasil. A dona do programa demonstrou interesse, mas não pode tocar porque aqui ninguém usa fita, e também ela disse que a gravação precisa ser remasterizada. Foi então que abri os olhos: por aqui tem que ter qualidade acima de novidade ou originalidade. Por isso a cena atual em geral é uma desolação.


Agora que você está longe do Brasil, como fica a parte produtiva entre você e o Alexandre?

Muito diferente. Antes ensaiávamos juntos em casa, eu mostrava para o Alexandre algo que eu fiz, aí ele dava uma idéia da linha do vocal. Às vezes a música saía inteira espontaneamente. Tipo "Mournfulness": eu fiz a base, aí depois desenvolvemos a idéia, ele fez a letra, eu fiz o refrão. Alexandre é extremamente criativo, foi ele que surgiu com o riff de "Industrial Revolution", aí depois eu fiz o arranjo total. Já em "Spirit Dance", apareci com o instrumental todo pronto, ele colocou as letras, eu fiz os refrões. "Love Lies Bleeding" fiz toda. Ele gostou da linha do vocal e da letra que fiz, tivemos a idéia da guitarrinha distorcida no final. Hoje em dia temos as outras músicas que não gravamos no estúdio, mas que estão prontas, só faltam algumas letras. O bom de fazermos as coisas antes sozinhos e depois mostrarmos um para outro, dá mais liberdade de criação, apesar de que, ao invés da diversão que tínhamos anteriormente, hoje existe mais tristeza da distância e vontade de exorcizar os fantasmas escondidos no armário.


Novos shows devem estar fora do plano do CoM, por uma questão geográfica...

Shows provavelmente só no inverno daqui, por volta de fevereiro, quando o Alexandre vier para a gravação. No Brasil, infelizmente, não sei quando, mas se após uns anos o público gostar da gente o suficiente, existem meios! Nada é impossível, sem falar que seria maravilhoso poder voltar para o Brasil e reencontrar os amigos.


Quando teremos material novo do CoM?

A gravação do álbum sairá por volta de março de 99, mas a distribuição não sei ainda como vai ser, considerando que depois da gravação é que vamos fazer o contrato com os selos e distribuidoras. Estamos fazendo tudo para nosso prazer, não estamos em desespero atrás de gravadoras, longe disso, as coisas acontecem naturalmente. Um clipe vai sair, independente também, as pessoas saberão quando as coisas acontecerem. Alias é por isso que essa entrevista é tão intimista. Ninguém vai achar o que estou falando por aqui na homepage da banda, por exemplo, porque é uma coisa muito boba sair escrevendo "estamos procurando gravadoras". Todas elas já estão cheias disso, aliás, eu nem dou a mínima, prefiro entrar apenas em contato com distribuidoras.


Obrigado pela entrevista. Finalizando, diga o que desejar aos leitores do Sépia Zine.

Fábio, obrigada pela chance de falar um pouco a respeito do outro lado da banda. A música é uma forma de nos expressarmos, mas explicar os meios que nos levaram a ser o que somos também é válido. Talvez muitas pessoas se interessem ou passem a nos odiar sabendo da nossa atitude, mas nossa música é o que é, não vai mudar mesmo que haja comparações, e sempre haverá. Para os leitores, não adianta tentar entender de forma racional a mensagem passada nas letras e instrumental. São apenas nossas experiências e cada pessoa tem a sua própria, cada um vai "abraçar a árvore onde o passado estava escrito". Tudo é válido quando nos respeitamos, por isso não se deixem levar pelas aparências ou rótulos, seja antes de tudo você mesmo. Talvez tudo seja em vão, mas e daí? Continuem sobrevivendo, as coisas tendem a mudar. Obrigada a todos que apreciam o nosso trabalho.


Página oficial do Chants of Maledicta.

à Entrevistas.