Cid Vale Ferreira
Bodas de Mofo
Encostei a testa no espelho, e, apesar do sangue coagulado em meu nariz, eu me perguntava: será mesmo que conheço os riscos do Asco?
É, esperei-o... e quando cansei, forjei seu parto. Decidi confeccionar sua semente em um ovo. Furando a casca, vazei a clara. Em seu lugar, junto à gema, meu sêmen e pedaços de minhas unhas. Como embrião, uma larva de figo. Derreti uma vela marrom na banheira. Com a cera, fixei o ovo e lacrei o pequeno furo, cobrindo-o com os pingos escuros...
Por dias, eu o chocava com o calor de minha urina... A banheira encardiu, minha pele suja coçou... e nada floresceu. Descalço, pisei o ovo com força e abri o chuveiro... procurei a larva no ralo, só achei as unhas.
Encostei a testa no espelho: meu rosto é um ninho de olhares tortos; sou o abutre dos meus sorrisos apodrecidos, que recuaram.
Com as mãos espalmadas, tapo os ouvidos. Cerro os olhos e caminho rápido pelo quarto turvo, desfocado pelo filtro cinzento dos cílios...
Deixo-me tombar na cama... eu até estaria confortável se meu umbigo não coçasse tanto... se não estivesse em carne viva.
Procuro esparadrapo para um curativo, encontro fita isolante e um rolo de gaze.
Cubro a ferida com a gaze. Fecho os olhos. Vou desenrolando... uma volta completa na barriga. Vou envolvendo o tronco... Com a fita, faço o mesmo, por cima das bandagens...
Desde o pulso até o ombro, enrolo os braços. Corro ao espelho. Nas minhas juntas, o branco da gaze, no resto, o negro opaco da fita. Deslizo as pontas dos dedos pelo ombro. Franzindo a testa, lembro-me dos velhos toques: Suor...
À minha frente, não há mais espelho. Restam os estilhaços espalhados pelo chão. E os cortes pela minha testa...
Os olhos, vítreos. A voz corcunda se espreguiça:
Você conhece o risco do Asco, não é?