Sessão Dark Side

A nova safra de curtas de horror

O Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo de 2004, em sua edição de 15º aniversário, apresentou uma sessão especialmente direcionada aos aficionados por cinema de horror. No festival anterior, a Kinoforum - organização comandada por Zita Carvalhosa, responsável pelo evento - firmou uma inédita parceria com a distribuidora de vídeo Dark Side, que cobriu o evento através de sua publicação Cine Monstro e ofereceu um prêmio ao melhor curta-metragem de horror brasileiro. O casamento deu tão certo que a Kinoforum decidiu repetir a dose, criando a "Sessão Dark Side", que levou ao público de São Paulo uma programação de 90 minutos voltada ao cinema de medo.

Os oito filmes selecionados, todos da safra 2003-2004, apontam um futuro promissor para o gênero, especialmente a produção vinda da Europa. Todos os curtas do programa mostraram um impecável nível de produção, realizados em 35mm e com acabamento do mais alto padrão profissional. Dos oito filmes da sessão, alguns prontamente tornaram-se favoritos da calorosa platéia que prestigiou as exibições, aplaudidos com entusiasmo como havia acontecido em 2003 com Klaus, o Operador de Empilhadeira, Elevados, …Já Não Pode Caminhar e Amor Só de Mãe, só para citar os mais comentados do Foco Terror do ano passado.

O norueguês Solitária (Solitaire, 2003, 8'), de Thor Bekkavik, parte de uma premissa que lembra muito a cena inicial de A Estrada Perdida, de David Lynch, quando uma mulher que mora sozinha encontra uma caixa de fitas de vídeo contendo gravações dela própria dentro da casa. Um dos xodós do festival, Dispersando o Rebanho (Thinning the Herd, 2004, 10'), produção francesa com roteiro, direção e atuação da top model Rie Rasmussen, surpreende pelas soluções simples e inteligentes, numa história de assassinatos ritualísticos que provoca sobressaltos nas poltronas. A bela dinamarquesa Rasmussen (que atuou em Femme Fatale, de Brian De Palma), peca apenas pela incapacidade dramática, mas o curta merece atenção, especialmente pela inédita opção de uma modelo famosa de enveredar-se pelo terror satanista - com uma mãozinha do cineasta Luc Besson.

A produção belga O Fim do Nosso Amor (La Fin de Notre Amour, 2003, 9'), realizada pela dupla Bruno Forzani e Hélène Cattet, narra - através de uma seqüência de stills - um trágico caso de amor, repleto de automutilações e fragmentos de um romance literalmente destrutivo. A Espanha, que nos últimos anos vem revelando novos talentos para o cinema de gênero, teve dois curtas selecionados. Ecossistema (Ecosistema, 2003, 9'), de Tinieblas González, abusa de efeitos de fotografia para contar uma história do ponto de vista de um pernilongo, uma aranha, um coelho e uma garotinha. O Ciclo (El Ciclo, 2003, 9'), de Victor Garcia, mistura a fantasia mais violenta com momentos de gore extremo, a cargo da empresa espanhola responsável pelos efeitos visuais dos filmes de Guillermo del Toro (A Espinha do Diabo, Hellboy).

Porém, se tivermos que escolher um curta do festival que tem tudo para ser comentado por muito tempo, o voto vai para o português Verei Você em Meus Sonhos (I'll See You in My Dreams, 2004, 20'), de Miguel Angél Vivas. Uma cuidadosa produção fotografada em cinemascope, o curta presta homenagem a todos os cineastas que fizeram filmes de zumbis. Numa pequena aldeia infestada de mortos-vivos, um homem segue sua rotina de caminhar pelo bosque e matar zumbis que teimam em tentar atacá-lo. O curta esbanja humor sem chegar a cair na paródia pura e simples, brincando com clichês do gênero e subvertendo a lógica dos heróis.

Por mais irônico que possa parecer, o filme mais denso do festival é uma animação de bonecos, o perturbador A Separação (The Separation, 2003, 9'), produção do País de Gales com direção de Robert Morgan. Com excepcional fotografia, direção de arte impecável e animação perfeita, o curta acompanha a trágica existência de dois irmãos siameses que não conseguem se recuperar psicologicamente da operação que os separou. Repleto de imagens de um grotesco poético, o filme merece figurar entre as mais sensíveis narrativas sobre freaks.

Confirmando a baixa qualidade do atual cinema americano de horror, o curta estadunidense selecionado para a sessão é uma inofensiva comédia de humor negro. Zeke (Zeke, 2003, 15'), de Dana Buning, tem o clima de farsa de um episódio de uma série qualquer de TV ou uma produção Disney das mais ingênuas. Conta a história de um gato castrado que decide retribuir o tratamento ao seu dono, que faz o possível para defender-se da fúria do bichano. Filme apenas simpático, que nada acrescenta ao gênero.

As sessões Dark Side aconteceram no MIS (Museu de Imagem e do Som), no dia 28 de agosto, numa autêntica "sessão maldita" à meia-noite; no CineSesc da Rua Augusta, no dia 31 de agosto, às 21 horas, e no Espaço Unibanco de Cinema, dia 2 de setembro, às 21 horas. Como sempre, o festival segue em itinerância pelas cidades do Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre, porém sem a sessão específica de curtas de horror.

Parece que o cinéfilo paulistano já pode começar a comemorar a continuidade de seu tão sonhado festival de filmes de gênero. Durante a apresentação de cada Sessão Dark Side, o curador Dennison Ramalho convocava a platéia a voltar na edição 2005 do festival. "Cinema de horror é militância, então vocês têm de comparecer!", concluía o entusiasmado Ramalhão ao microfone, visivelmente orgulhoso em ver o filho começar a crescer e andar com as próprias pernas.


Warning: mysql_connect() [function.mysql-connect]: Can't connect to local MySQL server through socket '/var/run/mysqld/mysqld.sock' (2) in /home/morphine/carcasse.com/revista/phenomena/sessao_dark_side/index.php on line 141
Conexão Inválida