Os olhos

Visão e agonia no cinema de José Mojica Marins
"O olho é a janela do corpo humano, através da qual ele sente à sua maneira e aprecia a beleza do mundo. Graças ao olho, a alma se contenta em permanecer numa prisão corporal; pois sem ele, tal aprisionamento seria torturante" - Leonardo da Vinci (1452-1519).

ver. V.t.d. 1. Conhecer ou perceber pela visão; olhar para; contemplar; 2. Enxergar; distinguir, avistar; 3. Ser espectador ou testemunha de; assistir a; presenciar.
sofrer. V.t.d. 1. Ser atormentado, afligido por; padecer. 2. Tolerar, suportar, agüentar.

No cinema de Zé do Caixão, ver é sofrer. Guiado já há quarenta anos pela estética do cinema de horror explícito, da violência gráfica e dos esguichos de sangue - do qual figura como reconhecido mestre e pioneiro, e não um mero adepto - José Mojica Marins agride a visão da platéia através de suas criações em celulóide. O público prefere ver Mojica como Zé do Caixão, como ele é popularmente identificado - sem preocupação em separar criador e criatura; confusão que se aprofunda quando analisamos sua arte e investigamos sua vida íntima.

Surgido num pesadelo do cineasta em 1963 e imediatamente transposto para o cinema no clássico do horror À Meia-Noite Levarei Sua Alma, o agente funerário iniciou sua saga de crueldades focando seus ataques diretamente aos olhos da platéia. Obcecado pela idéia de dar continuidade ao seu sangue através de um filho perfeito, Zé procura pela mulher ideal e aterroriza os moradores de uma pacata cidade, onde é temido e odiado por todos. Nesta sangrenta trajetória, ele se livra de todos aqueles que atrapalham seus planos. Sua primeira vítima fatal é Lenita, sua esposa, incapaz de engravidar. "Terei a honra de vê-la morrer diante de mim", caçoa Zé do Caixão ao colocar uma aranha venenosa sobre o corpo da moça indefesa. Com este ato, Mojica nos convida a fazer o mesmo: testemunhar as crueldades do vilão através da mais voyeurística das artes - o cinema.

Em outra cena de grande impacto, Zé decide se livrar do médico da cidade, capaz de incriminá-lo através da autópsia numa das vítimas. Ao confrontar o Dr. Rodolfo no consultório, Zé lê o relatório do médico e ameaça: "Como dizem: quem tem olhos, é para ver!". Em seguida, diante do desespero do doutor, o sádico sentencia: "Quero evitar que seus olhos vejam aquilo que não devem ver"; e então vaza as duas vistas do homem desferindo-lhe um golpe com suas unhas compridas. Nunca se vira num filme de horror cena tão grotesca e desconfortável. A câmera, claro, se coloca na posição da vítima, obrigando a platéia a sentir sua agonia.

Zé do Caixão não acredita em Deus e justifica a ausência de fé pelo simples fato de não poder vê-Lo ("Sou um revoltado com os tolos como você, que temem o que não vêem"), mas no final recebe o castigo, aterrorizado pela visão das almas penadas. Para Zé do Caixão, ver é crer; portanto, num universo de violência, ver também é sofrer. Sofrimento este vivido igualmente pelo cineasta durante as filmagens, cuja relação intensa com a obra se reflete em outro aspecto ligado diretamente à visão. Para retratar o estado de fúria que precede cada ataque de Zé do Caixão, Mojica recorreu a uma estratégia de grande impacto visual: os olhos do vilão, detalhados em close, ficam injetados de ódio, detalhe conseguido através de lentes de contato especiais. Desenhadas pela empresa Solótica, estas lentes de vidro causavam terrível irritação nas córneas de Mojica, que após cada tomada era obrigado a correr até a farmácia para removê-las. Alguns anos depois, o filme Drácula, o Perfil do Diabo, da Hammer, usaria o mesmo simbolismo dos olhos injetados para retratar a fúria do vampiro encarnado por Christopher Lee.

Lágrimas de Sangue

Zé do Caixão ressurge em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), filme que retoma a temática da existência através da visão. Logo no início, Zé recupera o poder de enxergar (seus olhos haviam saltado das órbitas no final de À Meia-Noite…), e desta maneira sabemos que ele está pronto para novas malvadezas. Mojica nos sugere ainda que, sem poder ver, o vilão não teria a mesma força; seria imperfeito, fraco. Ao retornar à cidadezinha, Zé jura para si mesmo que irá novamente subjugar o povo caipira que ali vive: "A verdade será aceita, ainda que para isso seja necessário fazer seus olhos verterem lágrimas de sangue!". À sua própria maneira, Zé enxerga aquilo que pessoas inferiores não conseguem ver.

O início da parceria entre José Mojica Marins e o roteirista Rubens Francisco Lucchetti, a partir de 1968, daria formas mais definidas às idéias do diretor, e a temática dos olhos ganharia força ainda maior. O episódio O Fabricante de Bonecas, que abre o filme O Estranho Mundo de Zé do Caixão, não consegue esconder algumas referências à novela O Homem da areia, de E.T.A. Hoffmann, autor que exerceria grande influência na obra de Lucchetti. Nesta história clássica, Coppelius é um homem malvado que castiga crianças que não querem dormir, jogando poeira em seus olhos até fazê-los sangrar e saltar das órbitas, para então levá-los como alimento para criaturas com bicos de coruja. No decorrer do conto, Sandmann se encontra com um alquimista que acabara de criar um autômato e precisa de dois olhos humanos para concluir sua obra. No conto de horror roteirizado por Lucchetti, um velho fabricante de bonecas faz sucesso graças à aparência realista dos olhos que usa em suas criações, e no final descobrimos o motivo de tal fascínio. Adaptada às telas por Mojica, a história preserva um realismo impressionante, pois o diretor usou olhos de porco nas filmagens. "Coisa maravilhosa, superior a todas as outras criadas por Deus!", segundo Leonardo da Vinci, o maior artista da Renascença, os olhos não podem ser copiados, pois não convencem quando emulados pelo homem. Mojica parece concordar com isso.

Olho por Olho

Cidadão sem qualquer convicção política, Mojica sempre foi incapaz de colocar mensagens partidárias em suas obras, ainda que a Censura insistisse em enxergar ataques diretos ou indiretos à Ditadura Militar a cada frase de Zé do Caixão. Se passou então a proibir aquilo que não deveria ser mostrado; cenas realizadas da única maneira que o cineasta era capaz de compreender: simples e direta, sem simbolismo, sem ocultar nada aos olhos do público. Na obra-prima Ritual dos Sádicos (1970), vetado para exibição pública por mais de vinte anos, quatro viciados são submetidos a experiências com LSD e induzidos a viagens alucinógenas diante da visão de uma imagem de Zé do Caixão. As cenas perturbadoras que habitam suas mentes traduzem em imagens a indescritível inquietação criada pelo personagem no inconsciente coletivo.

No mesmo ano, Mojica encarnou o faquir Alikhan em O Profeta da Fome, de Maurice Capovilla, filme no qual vive sua mais elogiada atuação. Enquanto o violeiro cego Adauto Santos canta "Olho por Olho" - numa adaptação para o sertão nordestino do conto de fadas Os Dois Andarilhos, registrada pelos Irmãos Grimm - o faquir padece de fome e troca, com o companheiro de viagem, seu olho esquerdo por um pedaço de pão. Numa dessas coincidências que acompanhariam Mojica por toda sua carreira, Olho por Olho é também o nome da novela da Rede Manchete no qual ele viveria por alguns capítulos um certo Lúcio Fera, em 1988.

A perda da visão se tornaria um tema freqüente na obra do cineasta, ainda que num plano secundário. Em Quando os Deuses Adormecem (1972), o profeta da paz Finis Hominis surge no momento exato para evitar que uma cigana perfure os olhos de sua rival, numa disputa pelo amor de um homem. Também há uma mulher sem olhos no filme Perversão (1979), sobre um homem poderoso que se diverte brutalizando suas parceiras sexuais. Na cena final de Exorcismo Negro (1974), o diretor exprimiu através de fotogramas o pensamento clássico de Leonardo da Vinci ("o olho é a janela da alma…"), ao usar o simbolismo da imagem de Zé do Caixão na retina do olho da menina, mostrando que o demônio se apossou de sua alma.

Cada vez mais obcecado pelo tema do olho humano, Mojica passou a elaborar enredos mais complexos, com situações mais aflitivas. No final dos anos 60, realizou um filme para a TV chamado Os Olhos, sobre um homem que deseja se comunicar com o mundo dos mortos, e para isso rouba olhos de cadáveres e espalha sobre o corpo de um defunto (novamente, o diretor tratou de comprar centenas de olhos de porco num frigorífico…). O enredo do inédito O Devorador de Olhos conta a história de um homem atacado por uma misteriosa doença africana, cujo tratamento exige que ele passe a se alimentar de olhos humanos.

O Olho do Portal do Inferno

Na obra de José Mojica Marins, a arte que não é vista, não existe. Talvez por isso, sua literatura favorita são as histórias em quadrinhos, onde os desenhos sobrepujam o texto. Mesmo quando gravou uma marcha carnavalesca, em 1969, não sossegou enquanto não a colocou num filme, para que fosse "vista". Esta necessidade do artista "aparecer" sempre se fez presente em sua personalidade. Em 1963, Mojica participou do programa de TV Clube do Lar, apresentado por Walter Forster, onde fez sua primeira aparição pública como Zé do Caixão, antes mesmo da estréia do filme. Indagado pelo apresentador sobre a estranha indumentária de seu personagem, que mais parecia um vampiro, e não um agente funerário, Mojica se justificou dizendo: "Quem não aparece, desaparece!" - jargão adotado como mantra pelos publicitários; classe com a qual o cineasta guarda certas semelhanças.

As "agressões visuais" do cinema de horror praticado por Mojica anteciparam alguns filmes considerados clássicos do gênero. A produção britânica As Sete Máscaras da Morte (1973) é um bom exemplo. Nesta comédia de humor negro, Vincent Price interpreta um vingativo ator de teatro que elimina, um a um, todos os críticos que o ridicularizaram. O ataque final, sua derradeira agressão, acontece quando ele ameaça cravar nos olhos de um crítico teatral - e, por conseqüência, em todos aqueles que vêem sua obra com maus olhos - duas facas pontiagudas. A cena é mostrada - como não poderia deixar de ser - pela visão da câmera subjetiva, que coloca o espectador na posição aflitiva da vítima. Dario Argento, mestre do giallo, também exercita seu sadismo fílmico em Terror na Ópera (1987), no qual um maníaco rapta uma diva da ópera e a obriga a manter os olhos abertos diante de suas crueldades - numa óbvia referência à relação do artista e seu público, sendo que o primeiro "seqüestra" a atenção do segundo para "forçá-lo" às suas agressões. De certa maneira, a cena recria a "tortura áudio-visual" à qual é submetido Alex (Malcolm McDowell) em Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick, mas este se destaca dos demais filmes ao propor profundas reflexões sobre a necessidade do livre-arbítrio, muito mais que um simples estudo sobre as conseqüências da violência no indivíduo.

Ainda que a obra de Mojica esconda muitas outras referências ao poder da visão, nenhuma de suas ficções consegue ser tão angustiante quanto aquilo que o artista vive em seu dia-a-dia. Vítima de dores insuportáveis nos olhos desde o final de 1985, Mojica já realizou operações nas córneas em 1991 ("Cineasta Tira o Diabo do Olho!", anunciou o Notícias Populares da época) e 1999, que fracassaram em aliviar sua angústia. Sua obsessão levou-o a dirigir, em 1996, o vídeo didático Resolução das Complicações de Ceratomileusis (ou Confusão na Oftalmologia, como ele próprio prefere chamar) para o Dr. Ednei Graciano do Nascimento, de quem foi paciente durante doze anos. Claro que Mojica não perdeu a oportunidade de convidar o doutor para entrar como investidor em seu próximo projeto cinematográfico, a autobiografia Alucinação Macabra, planejada em 1993 e jamais concluída. Afinal, Mojica é o único cineasta capaz de ter seu oftalmologista particular como produtor!

O Dr. Ednei também seria o produtor de O Olho do Portal do Inferno (1990-1991), longa-metragem sobre um sábio que tenta entrar no olho de um religioso, pois deseja encontrar Deus, mas acidentalmente penetra no olho de Zé do Caixão e encontra o Diabo. Sofrendo perda da visão causada por uma catarata que ele se recusa a tratar (por pura falta de tempo!), Mojica reflete em sua obra o poder da imagem, tendo criado Zé do Caixão como protetor das crianças, atormentado pela imagem de Boris Karloff pisoteanto um menino em A Torre de Londres (1939). Não tivesse visto, talvez não criasse. Não podemos crer que seja casual a preferência de Mojica pelo filme O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polanski, o qual considera a suprema obra-prima do cinema de horror. Na cena final, ao descobrir que seu bebê tem a cara do pai, Rosemary grita, em desespero: "Os olhos… o que você fizeram com os olhos dele?".


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