O Fantasma da Ópera

75 anos de uma lenda

Há 75 anos, era lançado um filme que se tornaria um clássico do cinema mundial: O Fantasma da Ópera foi dirigido por Rupert Julian, contando com ninguém menos do que Lon Chaney no papel principal. O filme foi, e ainda é, um sucesso de crítica e de público. Conforme veremos, tal êxito não se deu por acaso...

A Trama

"O novo filme da Universal é provavelmente o maior pesadelo jamais filmado... A maquiagem de Lon Chaney em O Corcunda de Notre Dame era mórbida o suficiente, mas essa é infinitamente pior. Desta vez, seu corpo é normal, mas com uma face horrível criada para surtir um espetacular efeito..." - Variety
O roteiro de O Fantasma da Ópera é baseado no romance do francês Gaston Leroux e foi escrito por Elliott Clawson, com auxílio de James Spearing, Robert Schrock e Bernard McConville.

A história se passa na Casa da Ópera de Paris, recentemente comprada pelos senhores Richard e Moncharmin. Tão logo efetuam a compra, eles são alertados sobre a lenda de um fantasma, que habita o camarim número cinco. A princípio, os novos compradores riem muito sobre tal história; mas, assim que visitam o referido aposento, descobrem que realmente há algo de sinistro por trás de tal boato... Joseph Buquet, o único funcionário do teatro que realmente teria visto o fantasma, os alerta: ele realmente existe - e é um homem que não tem face, nem nariz...

Ao mesmo tempo, começam a surgir problemas com relação à ópera que está sendo apresentada, Fausto. A prima donna da casa, Carlotta, começa a receber cartas ameaçadoras que a obrigam a ceder seu papel principal à uma jovem cantora da casa, Christine Daae.

Ela jura ignorar tais cartas, mas, misteriosamente, cai doente no dia da apresentação. Christine entra então em cena para representar Marguerite e é um sucesso estrondoso de público. Quando retorna a seu camarim, uma voz angelical lhe fala através da parede; ele, seu mestre, fez dela uma estrela, dando-lhe fama e sucesso, mas ela, em troca, está condenada a oferecer a ele - e somente a ele - todo o seu amor...

As Personagens

"Você estará a salvo, enquanto não tocar em minha máscara!"
Mas quem é esse misterioso fantasma que vive na Ópera de Paris?

Mesmo sobre sua identidade há dúvidas. Para alguns, ele é Erik - o sobrevivente de um desastre que atingiu a Casa de Ópera no passado; um louco, músico autodidata, e, segundo se conta, mestre em magia negra. Para outros, ele é um misterioso Persa visto na casa, sobre quem pouco se sabe, exceto que parece conhecer demais sobre os feitos do Fantasma.


O Fantasma é apaixonado por Christine Daae, uma jovem cantora de ópera da Casa de Paris, que sonha em conseguir fama e sucesso. Sendo um exímio conhecedor da Casa de Ópera, onde ele mesmo vive, oferece-lhe a oportunidade de ajudá-la atingir essa meta, destruindo a carreira da prima donna, Carlotta.

Entretanto, para isso, ela precisa obedecer a um pacto: o de amá-lo - e somente a ele. Christine aceita esse trato - "Venha me buscar, Mestre! Estarei sempre pronta!" - mas o faz sem saber que a face de seu amado é horrivelmente desfigurada. Ele, por sua vez, jura que a matará se ela se atrever a tocar em sua máscara - o que ela, inevitavelmente, faz.

Christine tem um noivo, Raoul de Chagny. Este, ao ouvir sobre o trato feito por sua amada com o misterioso Mestre, decide desvendar sua identidade e caçá-lo - mesmo sendo ele o temido Fantasma da Ópera...

Os Bastidores

"Entre os cenários, estão aqueles que representam o interior da famosa Casa de Ópera de Paris... e, segundo se diz, são autênticos em cada um dos detalhes." - Moving Picture World
São muitas as histórias sobre a produção desse filme, e muitas delas falam sobre os inúmeros problemas que cercaram sua realização.

Para começar, havia os problemas entre o diretor Rupert Julian e o ator principal, Lon Chaney. Embora já tivessem trabalhado juntos em outros filmes (entre eles The Beast of Berlin, filme que consagrara Chaney como sendo o pior vilão entre os vilões), a relação entre ambos era problemática, posto que Julian era notório por ser um autocrata diretor que atacava cruelmente todos no set de filmagem - inclusive Chaney, que já era um ator consagrado.

Julian fez com que o roteiro fosse várias vezes reescrito, inclusive durante a filmagem - e correm boatos segundo os quais Chaney é que dirigiu algumas cenas em O Fantasma da Ópera, enquanto Julian ficava pelos bastidores atacando atores e funcionários.

Ao ser finalizado, o filme foi pré-exibido em janeiro de 1925, com um final diferente, no qual o Fantasma jazia sobre o seu órgão. Entretanto, Carl Laemmle, presidente da Universal, não gostou desse final, e convidou Edward Sedgwick, diretor de comédias e filmes de ação, para inserir novas cenas - o que resultou na lendária sequência da perseguição, em que o Fantasma dirige uma carruagem pelas ruas de Paris.

O filme foi então novamente testado em abril de 1925, mas Laemmle ainda não estava satisfeito. Isso fez com que todas as novas cenas fossem cortadas, exceto a da perseguição (que utiliza a réplica da catedral construída para O Corcunda de Notre-Dame). Novas cenas foram filmadas, dessa vez com o comediante Chester Conklin. Laemmle viu o novo filme, decretando (felizmente) que fossem cortadas todas as cenas cômicas e lançou o filme em 6 de setembro de 1925.


O set de filmagem deveria ser a própria Ópera de Paris, mas foi impossível fechá-la. Por isso, Laemmle contratou Bem Carré (diretor de arte francês), para que lhe provesse consultoria técnica.

Seus esboços da casa de espetáculos e estruturas subterrâneas foram fielmente reproduzidos pelos cenógrafos, agradando a produção ao ponto de fazerem questão de que a cena do baile fosse filmada em duas cores; o que tingiu a fantasia do fantasma - inspirada pela "Morte Rubra" de Edgar Allan Poe - de um impressionante vermelho-sanguíneo.

Construído em 1924, o cenário continua intacto sob as cortinas de proteção do prédio 28 dos Estúdios Universal; o que faz dele o mais antigo set preservado.

Lon Chaney

"Eu queria perguntar-lhe porque ele escolhe estes estranhos, horríveis personagens. Porque ele não se satisfaz em representar papéis dramáticos ou cômicos. 'A única objeção que eu tenho com relação a estes personagens', diz Chaney, 'é que eu não estaria apto a criar empatia. Eu quero sempre criar empatia e, no final, conseguir a redenção. Não haveria razão para representar personagens tão horríveis se no final nós não pudéssemos sentir que este homem tem uma alma e que por isso ele foi salvo da degradação final'" - Entrevista de Louella Parsons (1923)
Lon Chaney é citado como a maior personificação do cinema de horror mudo e muito disso se deve ao fato de que quase a totalidade de sua filmografia é composta por filmes mudos.

Nascido Leonidas F. Chaney, o destino foi a primeira escola de Lon: seus pais eram deficientes, e quase surdos-mudos. Com isso, sua comunicação em casa era praticamente não-verbal, baseada em gestos e expressões. Ainda jovem, sentiu-se atraído pelo teatro, começando a trabalhar como pintor e contra-regra e atuando em pequenos papéis.

Chaney gravou cerca de 70 filmes entre 1913 e 1917, todos em papéis secundários. Graças à sua constituição física, que não lhe dava o aspecto necessário para representar os papéis de galã em filmes românticos, Chaney foi aos poucos gravitando para o lado dos filmes de terror.

Seu primeiro grande sucesso deu-se em 1919, no filme The Miracle Man, no qual ele representava um deficiente físico que, para atingir suas metas, compensava suas desvantagens manipulando as pessoas.

Logo, Chaney - o "homem de mil faces" - tornou-se notório por suas extraordinárias maquiagens e por seu talento em representar tipos marginais. Representou um criminoso aleijado em Satanás, o corcunda Quasímodo em O Corcunda de Notre Dame, o deformado sociopata em O Fantasma da Ópera e um arremessador de facas sem braços em O Monstro do Circo. Infelizmente, muitos de seus filmes foram perdidos - entre eles, o lendário Vampiros da Meia-Noite, de 1927.

Quando Chaney faleceu aos 47 anos, em 1930, devido a um câncer na garganta, havia terminado a filmagem de seu único filme falado, uma refilmagem de A Trindade Maldita - no qual representou nada menos do que cinco personagens, cada um com voz e caracterização próprias. Houvesse ele sobrevivido, teria representado o papel principal na lendária versão falada de Drácula, de 1931, dirigida por Tod Browning - papel então entregue a Béla Lugosi, que insistiu muito para conseguir interpretar o personagem, mesmo havendo representado-o nos palcos.

O Tributo de Lon Chaney

"Ele é chamado de 'astro que vive como um padre', e isso é verdade. Ele provavelmente é o mais mal-vestido entre os atores. Ele nunca vai a festas em Hollywood; mesmo quando há as grandes festas de estréia nos grandes teatros, onde as multidões vão prestar tributo a seus filmes, Chaney sempre fica em casa com sua esposa". - Harry T. Brundidge (1929)
Hoje em dia, os filmes e personagens de Lon Chaney são relembrados tanto por seu talento incontestável como por seu incrível senso de humanismo. Veja-se o caso de O Fantasma da Ópera: por um lado, temos o espetacular talento de Chaney que lhe permitiu em um filme mudo, representar de maneira extraordinária um personagem mascarado durante metade do filme (privando-se do recurso principal na representação destes filmes - a expressão facial). Por outro, temos toda a história cercando o Fantasma - a trágica história de um homem empurrado para o isolamento que, ainda assim, ousa apostar suas últimas fichas em um amor que acaba consolidando de uma maneira inimaginável.


O Fantasma, assim como todos os personagens de Chaney, está para além do bem e do mal; seus atos são, acima de tudo, uma consequência daquilo em que a sociedade o transformou. Entretanto, mais uma vez, Chaney mostra que mesmo a pior das criaturas traz em seu coração um desejo de encontrar a paz com os homens, num sentido puramente expressionista - uma felicidade que se esconde na mais profunda subjetividade, decifrável apenas por aquele que a vive e representa. Como disse o próprio Lon Chaney em 1925: "O que eu queria era relembrar as pessoas que os mais baixos tipos de humanidade podem ter, em seus corações, a capacidade para realizar um supremo auto-sacrifício. Seja o anão, seja o mendigo deformado das ruas, eles podem ter os mais nobres ideais. Eu tenho estado atualmente em contato com essas pessoas, os cães vadios, os piores resíduos de humanidade... um contato que, provavelmente, muitos de vocês que estão lendo isso nunca tiveram. Quando você vê uma criatura deformada ou miserável, você instintivamente foge dela. Seus filhos têm medo dela. Adolescentes podem zombar e insultá-la. Mas o que você conhece sobre ela, verdadeiramente? Pense que ela, como meu Corcunda de Notre Dame, pode estar simplesmente desejando 'entregar sua vida por um amigo'".

por
Henrique Marques Samyn
em setembro de 2006

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