Mario Bava

O mestre do horror italiano

Mario Bava nasceu em 31 de julho de 1914, na cidade de San Remo, Itália. Era filho de Eugenio Bava, técnico de efeitos especiais e escultor. Mario cresceu num ambiente em que se respirava cinema. Foi assistente de seu pai, criando créditos de abertura e legenda para filmes estrangeiros. Virou diretor de fotografia em 1939, trabalhando em filmes de diretores como Raoul Walsh e Roberto Rosselini.

Em 1956, enquanto trabalhava em I Vampiri (primeiro filme de horror italiano feito no pós-guerra), recebeu uma batata quente das mãos do diretor: deveria completar, como diretor, em dois dias o trabalho que Riccardo Freda achava que deveria ser feito em seis. Conseguiu, assim como em outras filmagens que assumiu no meio (Hércules; Hercules Unchained), pelo fato de, nas palavras do próprio Bava, "o diretor estar tomando uns pileques".

Impressionado, Fredda chamou Bava (já em 1958) para filmar Caitiki, o Demônio Imortal, com o único intuito de abandonar o set de filmagem e deixar seu amigo mostrar aos produtores seu evidente talento. Deu resultado: o produtor Lionello Santi se impressionou com o que viu e deu carta branca para filmar o que bem entendesse.


A Máscara do Demônio
Era sua estréia oficial como diretor - aos 46 anos. E que estréia! Tendo por base o livro Vij, de Gogol, filmou A Máscara do Demônio, o primeiro grande sucesso do horror italiano, clássico do cinema gótico, catapultando a carreira da britânica Barbara Steele. O título era um reaproveitamento do nome italiano de A Maldição de Frankenstein, chamado na Itália de La Maschera di Frankenstein, estabelecendo a irônica sensibilidade perpetuada nos títulos e atitudes subseqüentes de Bava.

O filme é um apavorante exercício de terror, com uma bruxa que volta do túmulo para matar os descendentes de seus assassinos. Ficou dez anos proibido na Inglaterra, sendo liberado somente em 1969 (junto com O Caçador de Bruxas).

Mesmo tendo dirigido um marco na fotografia em P&B, Bava resolveu experimentar o technicolor, com resultados fenomenais. Hércules no Inferno, uma fantasmagórica descida ao inferno feita com sobras de outras produções da Cinecittá, é um dos melhores pepluns de sua época, com ótima performance de Christopher Lee como Hades, e do parrudo Reg Park como o semideus.

O último filme de Bava em P&B foi La Ragazza che sappere troppo (A menina que sabia demais - alguém falou em Hitchcock?), thriller que criou um novo gênero, o giallo, policial italiano. Nele já aparecem todos os elementos básicos do gênero que iria dominar as telas italianas pelas próximas duas décadas (o assassino de luvas pretas, a história rocambolesca, os personagens ambíguos etc.).

Seus próximos filmes (As Três Máscaras do Terror, de 1963; Drácula no Mundo do Sexo, de 1963; Sei donne per il assasino, de 1964; e O Planeta dos Vampiros, de 1965) são demonstrações de seu talento como diretor e criador de imagens surreais e fantásticas. A irônica visão de mundo de Bava reflete-se nestes filmes, em que normalmente os protagonistas morrem, "qualidade" que assustou seus distribuidores americanos da AIP, que deixaram de distribuí-lo nos EUA por este motivo.


As Três Máscaras do Terror
Black Sabbath (Il tre volti della Paura, lançado no Brasil como As Três faces do Medo e como As Três Máscaras do Terror), é uma assustadora antologia de contos russos, apresentados por Boris Karloff (emprestado pela distribuidora americana AIP). É considerado o último grande papel dele no gênero (já que Targets é um drama), e enlouqueceu os distribuidores americanos, que consideraram o filme "muito assustador" (?) e o remontaram para amenizar seu efeito. O terceiro episódio da versão americana, Il Vurdalak, baseado em Gogol, é especialmente assustador, com Karloff representando (pela primeira e última vez) um vampiro.

La Frusta i il Cuorpo (lançado no Brasil como Drácula no Mundo do Sexo, já nos anos 80) é uma linda história de amor, com subtexto sadomasoquista, entre um fantasma e suas ex-namoradas. As cenas de Christopher Lee dando chicotadas em Dalila di Lazzari (e ela adorando!!!) estão em todas as antologias do tema. O mercado internacional se viu privado de um dos mais aterradores aspectos do filme, afinal, uma das namoradas de Lee tinha um caso com o próprio pai...

Blood and Black Lace (Sei donne per il assasino) é essencial para a compreensão de todo o desenvolvimento do cinema italiano e alemão das próximas décadas. É o primeiro giallo a cores, que tenta reproduzir o feeling dos velhos policiais noir americanos abrindo mão do preto e branco. Isto cria uma fotografia altamente estilizada, com cores escuras, eliminação de vários semitons e ampla utilização de luzes verdes e laranjas. É a completa oposição do padrão neo-realista, e a afirmação do talento do fotógrafo Bava como criador de atmosferas delirantes.

Os krimis (filmes policiais alemães inspirados em Edgar Wallace), que eram sempre em preto e branco antes de Blood..., adotaram a cor graças a essa obra que também foi essencial no desenvolvimento do giallo, dando uma atmosfera irreal para tramas policiais cada vez menos intelegíveis. Foi a criação da identidade européia deste gênero, mais onírico e psicodélico, diferenciando-se das tintas realistas tentadas por seus similares americanos.


Planeta dos Vampiros
E O Planeta dos Vampiros, último filme deste ciclo, é "apenas" o antecessor de Alien, 15 anos antes de Ridley Scott ter esta idéia. Astronautas pousam em uma lua de Júpiter e descobrem estranha forma de vida que começa a se apossar deles. Um dos raros papéis de Norma Bengell no cinema italiano, e um dos mais aterradores (e sarcásticos) finais já imaginados para uma obra do gênero, com o mal triunfante e o bem derrotado.

Depois de filmar comédias (como Dr Goldfoot & the Girl Bombs), spaghetti westerns (Roy Colt & Winchester Jack) e filmes eróticos (Four times that night), Bava voltou ao gênero horror em alto estilo com o inacreditável Mata, baby, Mata), tétrico conto de uma garota morta por atropelamento que provocava suicídios em uma villa italiana do século XIX.

Trata-se de um filme com subtextos edipianos, com deslocações temporais e espacias, que foi aplaudido de pé por Luchino Visconti em sua premiére e teve a honra de ser plagiado por Fellini (em seu episódio de Histórias Extraordinárias, de 1967), Scorcese (A Última tentação de Cristo, 1988) e David Lynch (Twin Peaks, 1991). Este filme foi completado com os atores trabalhando de graça, só por amor ao projeto. É considerado um dos filmes mais assustadores da história do horror (não só italiano), com suas cores suaves (anti-naturais) e seus delicados tons de azul e cinza. É também uma aula de como se trabalhar com pouco dinheiro e muita imaginação, utilizando-se efeitos óticos simples mas efetivos.


Mata, Baby, Mata
Esse filme marca o afastamento de dois anos de Bava do mundo do cinema fantástico, devido a problemas como estresse e o falecimento do pai e mentor em 1966. Voltou com tudo em 1968, quando Dino de Laurentis lhe ofereceu Diabolik, adaptação de uma popular série de quadrinhos das irmãs Giussani. Laurentis lhe deu 3 milhões de dólares, dos quais ele utilizou apenas U$ 400.000. É uma das mais delirantes adaptações de quadrinhos já feitas para o cinema (foi realizada um ano antes de Barbarella), com música psicodélica de Ennio Morricone, sets coloridos e ótimas interpretações de Jon Phillip Law, Melissa Mell e Adolfo Celi. Curiosamente, Bava não gostou de trabalhar com os tubarões do cinema, sentindo-se desconfortável ao ser cobrado pelos executivos das multinacionais.

Foi-lhe oferecida a continuação deste filme, e prontamente recusada. Nos próximos anos, Bava fez - juntamente com Carlo Rambaldi - os efeitos especiais da minissérie Odissea, com Kirk Douglas - também dirigindo um episódio da mesma. Em 1969 fez "trabalhos por encomenda", dirigindo Il Rosso segno della folia, 1969, em Barcelona, e Cinco Bambole e La luna d'agosto, 1970.

Em 1971, Mario Bava inventou mais um gênero: o slasher passado num lugar turístico. Banho de Sangue, com treze assassinatos numa estação de férias à beira de um lago. Soa familiar? Sexta-Feira 13, Parte 2 plagia a trama e os assassinatos deste filme - e o próprio assassino, além dos banhos de lago das garotas... - de um modo tão cara-de-pau que chega a ser vergonhoso. O filme foi tratado pela crítica da época (que não entendeu seu humor negro, como sempre) como "apelativo", mas se revelou profético nos anos 80.


A Mansão do Inferno
A associação de Bava com o produtor Alfredo Leone deu origem a duas obras fascinantes, e uma bastardização. Baron Blood, de 1972, é um delicioso filme de horror clássico, com a história de um estudante que faz renascer um ancestral seu, um notório assassino em série, num castelo. O imenso sucesso desta obra resultou numa "carta branca" a Bava... que ele utilizou para fazer sua obra-prima, Lisa & the Devil.

Lisa... é o filme mais pessoal que Mario Bava já dirigiu, e uma das obras mais fascinantes já perpetradas no cinema de horror. Elke Sommer é Lisa, uma turista americana que se perde de sua excursão e, levada pelo próprio diabo (Telly Savallas), vai parar num castelo em que todas as pessoas parecem ter algo a esconder... Com fotografia do experimentalista espanhol Cecilio Paniagua, e sem roteiro facilmente intelegível, o filme é uma alucinação visual de 100 minutos, com estrutura de conto de fadas, diálogos adaptados de "I Diavoli" - de Dostoievski - e momentos de pura poesia visual. Lisa... foi exibido no Festival de Cannes, aplaudido de pé... e não foi vendido a lugar nenhum do mundo, por ser considerado "pouco comercial".

Logo após esta amarga experiência, Bava filmou algo que teria dado uma virada em sua carreira (em 1974)... se tivesse sido lançado em sua época. Cani Arrivati representa o oposto de tudo que ele tinha feito até então. Trata-se de um exasperante drama de ação passado quase todo dentro de um carro em movimento e em tempo real. Visto hoje passa por um antecessor de Cães de Aluguel, com toda crueza desta obra, diálogos com referências à cultura pop e violência explosiva. Era projetado por Bava como uma virada em sua carreira, uma demonstração de estar sintonizado com o trabalho de Sam Peckimpack. Teria sido o único filme totalmente realista de Bava, com fotografia granulada e realista (foi rodado em 16mm) e clima sufocante.

Infelizmente o produtor faliu antes deste filme ser finalizado, e o mesmo só foi lançado nos cinemas em 1997, por intervenção de Luigi Montefiori (ator principal) e Lamberto Bava (filho). Em 1975, o produtor Leone forçou Bava a pintar um bigode em sua Monalisa. Mandou-o filmar um exorcismo (com Alan Alda como um padre) e remontar sua obra-prima, Lisa..., relançado-a com o nome Casa de Exorcismo para recobrar seu investimento. Trata-se de uma bastardização, pois passou como "uma imitação" de O Exorcista (não como uma obra-prima 30 anos à frente de seu tempo) e sujou sua reputação, fazendo-o passar por "aproveitador" e "copiador sem talento" (como os "espertos" críticos da época o tacharam).

Em seus últimos anos de vida, Mario Bava teve dificuldades para achar trabalho. Fez mais um filme, Shock, com direção dividida (e não creditada) com seu filho, Lamberto, a história de uma mulher que pode ou não ser mãe de uma criança possuída pelo diabo. Ainda criou efeitos especiais para "A Mansão do Inferno", de Dario Argento, contribuindo para o clima surreal desta obra-prima do horror moderno. Dirigiu algumas cenas, incluindo o complexo efeito (ótico) do eclipse, antes de sua morte, em 25 de abril de 1980, poucos dias após um check-up que lhe diagnosticou "a saúde de um touro".

A influência de Mario Bava ainda está para ser reconhecida. Seu nome é conhecido entre os fãs de horror, mas quase ignorado fora deste gueto. Não custa nada torcer para a crítica "séria", que desdenha o gênero fantástico e idolatra pentelhos sem talento, redescubra este diretor tão pouco reconhecido, e coloque-o em seu lugar devido no panteão cinematográfico. Antes tarde do que nunca.

por
Carlos Thomaz Albornoz
em setembro de 2006

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