Eduardo Aguilar

Dúvida, atmosfera e ascese em Lourdes

O curta-metragem Lourdes – Um Conto Gótico de Terror (São Paulo, 2004, 11min.) é definido por seu diretor, Eduardo Aguilar, como "uma promiscuidade com o cinema da dúvida de Fulci, uma homenagem ao cinema atmosférico e religioso de Avati, e uma busca pela ascese 'khouriana'". Realizado em vídeo digital, como resultado de um curso de atuação para cinema ministrado pelo próprio diretor, estréia para o público paulistano no dia 08 de dezembro, às 20h30, no MIS (Museu da Imagem e do Som, na Mostra do Audiovisual Paulista). Em entrevista exclusiva à Carcasse, Aguilar falou sobre este e outros filmes de sua carreira.

Sobre o que é o curta Lourdes?

Trata-se da história de três freiras (a madre-superiora e duas noviças) que recebem, durante a noite, a visita de um jovem padre. A chegada desse homem precipita um processo excitação entre elas. O terror é a surpresa.

E como surgiu a idéia de fazer esse filme?

Foi a partir de uma oficina para atores de cinema que ministrei em 2004, em São Paulo, na Casa Mário de Andrade. A oficina durou dois meses e meio, e deu origem a quatro filmes. Lourdes foi o primeiro a ficar pronto.

A idéia de produzir um curta de horror estava presente desde o começo?

Não. Surgiu naturalmente ao longo do trabalho. O objetivo do curso era discutir a atuação em cinema, e o mote para isso foi a importância do silêncio e do gestual. Ao longo dessa discussão, fizemos vários trabalhos em que compartilhamos o processo criativo e um deles em particular deu origem ao Lourdes. A proposta era a de separar os alunos em grupos e levá-los a desenvolver plots para algumas cenas. Coloquei os alunos em diferentes salas e dei a eles alguns temas gerais para trabalharem: perdão e ciúmes, dor e desespero etc. Mas, curiosamente, entre os temas que sugeri, ninguém escolhia sexo. Então bolei a seguinte estratégia: espalhei o tema sexo em todas as salas. Foi aí que o trabalho começou a deslanchar, e uma das histórias interessantes que surgiram nessa linha foi a das freiras. Aí eu gostei e comecei a incluir um pouco do meu universo, inclusive elementos de terror.


Rodrigo Reis (fotógrafo) e Eduardo Aguilar (diretor)
Além do terror, que outros elementos você acrescentou à história desenvolvida por eles?

A principal delas é algo que está presente na obra de um cineasta com quem trabalhei, Walter Hugo Khouri (Aguilar foi continuísta de Forever, longa realizado em 1988). Era um tema que me interessava, e que para muita gente pode parecer arrogante: a ascese, isto é, a mistura de religião e prazer através da qual você chega a uma espécie de orgasmo da fé, a uma superação de limites. O Marcelo, personagem-chave do cinema de Khouri, estava sempre em busca disso. E o mais curioso foi que as atrizes desenvolveram sozinhas essa questão. Também houve a influência do Pupi Avati, na maneira como trata a sexualidade, e do Lucio Fulci – diretor de Demonia, filme que também se passa num convento, ao qual faço uma homenagem em Lourdes.

Quem foram os alunos que participaram do filme? E a equipe?

Os atores foram Rodrigo Manzelli, Rosy Antunes, Mariana Rubino e Carol Angrisani, que também são os roteiristas, junto comigo. A montagem ficou a cargo do Marco Antonelli, da Cisco Filmes. A fotografia em vídeo digital foi do Rodrigo Rei. Primeiramente, fizemos o filme a cores, mas, na montagem, optamos pelo preto-e-branco, com alguns efeitos de cor.

A locação que vocês usaram é muito interessante. Onde vocês gravaram Lourdes?

Num porão muito louco na casa do Mario de Andrade, onde foi ministrado o curso. É um lugar escuro, com várias peças pequenas. Perfeito como locação para um filme de terror. Mais de 90% da historia foi gravada lá, em uma única noite.


Lourdes
E por que você escolheu a imagem de Nossa Senhora de Lourdes para marcar a aventura das freiras?

Eu tenho uma formação católica. Lógico que vejo o catolicismo e outras religiões com muitas reservas, mas entre as coisas mais fortes que permaneceram da minha formação católica foi o fato de eu ser devoto de Nossa Senhora de Lourdes. No dia 11 de fevereiro, que é o dia dela, eu vou à Igreja e tudo. Digamos que esse filme foi meu acerto de contas com ela.

Lourdes foi seu primeiro trabalho envolvendo horror?

Sim e não. No meu curta Dias Cinzentos (2002), houve uma relação inconsciente com o cinema de horror, pois usei uma música da trilha de Fantasmas de Marte, do John Carpenter. Aí aquilo ficou na minha cabeça "puxa, preciso dialogar com isso, afinal eu gosto tanto...". E então, no mesmo ano, veio o Interface, um vídeo-clipe de um grupo independente de rap chamado Fator Ético. O filme foi dirigido por mim e pelo Adriano Kakaso, e não sei donde me veio à cabeça que precisava ter algum elemento de horror. A música falava de inclusão digital, essas coisas, sobre como algumas pessoas se isolam na Internet. A partir desse raciocínio de que o internauta é um cara um pouco isolado demais, talvez até meio egoísta, a gente foi criando um vilão, o "Mascarado" – personagem interpretado pelo Dennison Ramalho, e que depois apelidei de Mabuse, numa homenagem ao filme de Fritz Lang. Ele usava uma máscara (concebida pelo André Kapel) que tinha três momentos: primeiro, um rosto sem vida, sem expressão; no segundo momento, tinha um sorrisinho; no final, era meio comida, pois a heroína do clipe (uma garota do hip hop) se deparava com esse vilão, atravessava o computador (num momento de animação), virava um ratinho, se transformava no mouse e comia a mão e parte do rosto dele. O Dennison saiu pela rua tentando assustar as pessoas, mas ninguém se assustava com a máscara.

E o curta Dias Cinzentos, sobre o que é?

Esse curta não tem nada que ver com terror: foi feito a partir de um poema sobre São Paulo, escrito pela minha mulher. Há uma ligação forte com o cinema do Khouri, e também com São Paulo S.A., do Luiz Sérgio Person. Assim como o Lourdes, foi feito em vídeo, num esquema super independente, tipo cinema de guerrilha, mesmo. Lembro que a gente precisava filmar uma cena no túnel de vidro do Terminal Bandeira do Metrô, mas as autorizações estavam embaçando todo o trabalho. Então chegamos lá sem autorização nenhuma e começamos a gravar. Mas tinha uma hora em que a atriz precisava andar pra trás e, concentrada na interpretação, acabou atropelando um cara. Ele foi reclamar com o segurança e a gente teve de ir embora. O mais engraçado é que esta cena acabou nem entrando no filme.

Dias Cinzentos está participando de um concurso neste final de ano. Que concurso é esse?

Estou concorrendo para um prêmio promovido em parceria pela ABD SP e pela rede Cinemark. Serão premiados quatro de dez vídeos que receberão como prêmio o transfer de vídeo para película. Com isso, os filmes poderão ser exibidos na rede Cinemark e em festivais de eventos da bitola 35mm. Os vídeos serão escolhidos de acordo com o voto do público internauta. O link é: http://frameaframe.terra.com.br/index.html


Lourdes
Você também fez um filme em homenagem ao Papai Noel, não foi?

Pois é. Depois de Dias Cinzentos, veio Os Últimos Dias de Papai Noel, essa sim uma proposta mais trash. A idéia surgiu do contato com um amigo, que me contou algo muito curioso: em Perus, aqui em SP, há um ritual de "malhação do Papai Noel". Eu não acreditei: precisava ver isso. Então criamos a história e usamos algumas cenas documentais feitas em Perus.

Agora vamos voltar um pouco no tempo. Como começou sua ligação com o cinema?

Comecei a trabalhar em cinema em 1982, com o Antônio Meliande, na Boca do Lixo, em São Paulo. O filme era um musical chamado Amado Batista – Sol Vermelho, estrelado pelo próprio Amado Batista. Na época, Meliande estava fundando, com o Carlão Reichenbach, o Luiz Castilini, o Jean Garret e outros uma empresa chamada EMBRAPI (Empresa Brasileira de Produtores Independentes), que deveria reunir os melhores profissionais da Boca em torno de projetos tocados por eles mesmos. Como eles tinham os contatos (o sistema da Boca funcionava em parceria com exibidores, que adiantavam uma parte do orçamento do filme), pensaram que o caminho estava aberto, mas na verdade não estava, ainda mais porque eles pegaram bem a virada para as produções de sexo-explícito. Acabei me afastando um pouco do cinema, mas voltei a trabalhar como assistente do Carlão em filmes como Anjos do Arrabalde (1986) e outros. Depois trabalhei com o Khouri, em Forever, o que também me deu a oportunidade participar da produção obscura de terror no final dos anos 80. Depois me afastei novamente do cinema, e voltei nos últimos anos, trabalhando com o Carlão e tocando os meus projetos, principalmente cursos de cinema.



Lourdes
Que filme de terror foi esse em que você trabalhou?

O filme Forever, do Khouri, teve co-produção com uns italianos. No ano seguinte (1989), eles voltaram ao Brasil para fazer um filme de terror: The Guest, dirigido pelo Carlos Pazzini Hansen, e contrataram boa parte da equipe. Era uma parceria com a produtora do Aníbal Massaini, falada em inglês e feita diretamente para o mercado externo. Não sei exatamente porque o filme nunca foi lançado no Brasil, mas esses italianos tinham histórias, no mínimo, suspeitas. Parece que começaram nos EUA, mas aí um dos produtores se envolveu numa briga de trânsito, foi preso. Eles gastaram uma grana com isso e foram para o México. Aí lá também não deu muito certo. Eu sei que nisso eles comeram uns 30% da grana, e chegaram aqui com umas coisas meio mequetrefes. Um dia, havia uma cena em que eles precisavam explodir uma cruz, mas colocaram explosivo demais, e um ator se machucou. Um técnico brasileiro teve de resolver o problema

Qual era a história desse filme?

A história era a de um emissário do Diabo que tem de buscar um livro num convento de freiras enclausuradas da Bahia. Para entrar lá, ele vem com o disfarce de um enviado do Vaticano, mas entra em confronto com a madre-superiora, interpretada pela Stella Stevens. O elenco tinha atores estrangeiros e também brasileiros, como a Norma Blum e o Dionísio Azevedo.


Lourdes
Apesar de o filme não ter sido lançado aqui, deve ter sido uma experiência interessante...

Ah, sim. Sobretudo porque conheci melhor a Stella Stevens, uma pessoa maravilhosa. Nunca esqueço de uma vez em que o diretor pegou no pé do Dionísio, que não conseguia guardar uma fala muito longa (em inglês), e foi ela que interveio a favor do colega. Outra coisa legal foi ter sido colega de quarto do Jairo Ferreira, que era fotógrafo de cena. Foi emocionante, pois, como crítico, ele tinha feito a minha cabeça – comecei a me aproximar de cinema ao ler os textos dele. Lembro que tínhamos assistido ao filme Terror na Ópera, do Dario Argento, uns anos antes, e queríamos saber o que os italianos achavam, mas eles não curtiam muito. Era meio naquele clima "agora aquele traidor está filmando nos EUA" etc. Mas o que mais me interessou nesse filme foram os efeitos: o filme tinha um monstrinho, que era o bebê-diabo, num clima meio Nasce um Monstro do Larry Cohen.

Os seus próximos projetos incluem algo ligado ao horror?

Um deles sim. Estou desenvolvendo, atualmente, dois projetos. O primeiro é um longa, e se chama Matem os Lobos no Rebanho, um policial urbano com influências de Peckinpah, de Antonio Carlos Fontoura (diretor de Rainha Diaba) e dos filmes de Roberto e Reginaldo Farias. É um filme sobre fracasso, delação e movimentos sociais emergentes, mas principalmente, sobre como é difícil fazer escolhas. Já o curta Cicatrizes é fortemente influenciado pelo cinema de horror do Khouri (O Anjo da Noite, de 1974, e as Filhas do Fogo, de 1978) e pelo moderno cinema de horror japonês (em especial o feito por Kyioshi Kurosawa e Hideo Nakata). Tanto Khouri quanto os japoneses foram muito felizes em tornar a atmosfera de horror mais importante do que a própria história, e é isso que eu pretendo buscar.

por
Laura Cánepa
em setembro de 2006

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