Dennison Ramalho

Diretor anuncia novos caminhos ao horror brasileiro

Em entrevista à Carcasse, o cineasta Dennison Ramalho falou sobre seu filme mais recente, Amor só de mãe, que causou polêmica em vários festivais pelos quais passou, e também recebeu diversos prêmios no Brasil e no exterior. Filmado num estúdio, em São Paulo, e na praia de Iguape, a um custo de 60 mil reais, o curta-metragem é um dos mais caros já feitos no Brasil. Estrelado por Everaldo Pontes, Vera Barreto Leite e Débora Muniz, o filme é uma (rara) história de horror de matriz brasileira, e teve a colaboração, no roteiro, do pai de santo Pai Alex, do Terreiro de Umbanda do Pavilhão 8 da Casa de Detenção de SP (convidado pelo Dennison durante a produção do documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro, do Paulo Sacramento).

Amor só de mãe


Dennison Ramalho, diretor e roteirista dos curta-metragens Nocturnu (1998) e Amor só de mãe (2002).
Nos créditos finais, o seu filme se apresenta como uma "livre-perversão" da letra de "Coração Materno", de Vicente Celestino, gravada em 1937. Mas a música não toca no filme. Por quê?

Essa é uma longa história. Na música "Coração Materno", uma mulher muito má pede o coração da mãe de um homem como prova de amor, e ele mata "a mãezinha que está ajoelhada na frente do altar". É uma música super melodramática, que eu, por sinal, detesto. Pedi autorização pra quem detinha os direitos da música, e eles liberaram, desde que eu não usasse a música. Isso, pra mim, foi ótimo, pois eu nem pretendia usá-la. Minha idéia era a de contar uma história de terror muito violenta, com muito paganismo, e com elementos brasileiros. Queria que parecesse uma história da Kripta. Meu filme é uma louvação aos quadrinhos brasileiros dos anos 70 que formaram a minha cabeça, e não à música do Vicente Celestino. O cartaz do filme, aliás, foi feito pelo capista da Kripta, Júlio Shimamoto.


Filho (Everaldo Pontes)
Para fazer esse filme, você reuniu um elenco bem curioso. Vamos começar com Everaldo Pontes, ator que interpreta o Filho, e pela Vera Barreto Leite, que interpreta a Mãe.

O elenco do filme reúne três atores de origens bem diferentes. O Everaldo Pontes é figurinha carimbada no cinema brasileiro: foi o São Jerônimo do Júlio Bressane, fez o velho cego no Abril Despedaçado do Walter Salles, foi também o Rabecão de Amarelo Manga, do Cláudio Assis. Nunca pensei em outra pessoa para fazer esse papel. Ele esteve envolvido desde o início. Já a Mãe teve uma história mais complicada: escrevi o papel para a Ilva Niño (a Mina, empregada da Viúva Porcina em Roque Santeiro). Ela topou fazer o filme, cheguei a ir ao Rio de Janeiro para falar com ela e acertar os detalhes. Mas aí, dez dias antes de começarmos a filmar, tivemos que mudar a data, pois vários técnicos estavam trabalhando no Carandiru do Babenco (nosso curta começou três dias depois de o Babenco terminar o filme dele). Com isso, ela aproveitou a deixa para desistir do projeto. Então começou uma procura desesperada: a gente ligou para a Mirian Pires, que não podia; para a Maria Alice Vergueiro, idem; e também para várias atrizes mais jovens. Aí encontramos a Vera Barreto Leite, do Teatro Oficina, uma atriz experiente que trabalhou no 30 Anos essa Noite, do Louis Malle. E foi ótimo, porque o trabalho da Vera foi excelente e supercorajoso: ela apanha mesmo no filme!

E quanto à Formosa (a personagem que pede ao amante o coração da mãe)? Foi difícil encontrar uma atriz disposta a interpretá-la? Afinal, é um papel difícil, pois, além de ser uma grande vilã, ela passa por situações bem extremas de violência e auto-mutilação...

Foi difícil. Antes de encontrar a Débora Muniz, eu tinha falado com varias atrizes do Teatro Oficina, do Antunes, e também com uma garota que fazia teatro mais intelectualizado, e todas elas ficaram com medo. A coisa estava mais ou menos fechada com uma atriz ótima, a Maura Balogh, que tem umas propostas super radicais de teatro, com elementos de tantra e xamanismo. Mas, na última hora, depois até de alguns ensaios, ela desistiu. O marido implicou com algumas coisas, ela alegou estar constrangida com certas cenas, e todo aquele radicalismo veio abaixo.


Formosa (Débora Muniz)
Foi aí que você acabou encontrando a Débora Muniz?

Eu estava desesperado, simplesmente não sabia como iria encontrar uma outra atriz. Foi quando um amigo meu disse: "Cara, vou te dar o telefone de uma tal de Débora Muniz". Eu fiquei louco, pois eu tinha vários filmes dela. Ela está com 42 anos, e foi a rainha do sexo explícito da Boca do Lixo nos anos 80. Trabalhou com todos os diretores que fizeram sexo explícito em película no Brasil naquela década. Esteve em filmes lendários como Senta no meu que entro na tua, Viciado em C..., Gozo Alucinante, aqueles filmes que o Carlão Reichenbach fotografava. É uma atriz autodidata que vive de espetáculos teatrais populares, como aqueles baseados em textos psicografados e coisas do gênero. Fui encontrá-la no Largo do Arouche, e, quando botei o olho nela, falei: "é a Formosa". Mas cheguei todo cheio de dedos, apesar de saber do seu passado no cinema pornográfico. E fui explicando: "olha, eu tenho esse filme ducaralho, mas tem muitas cenas de sexo, algumas situações violentas, complicadas...". E aí ela falou o seguinte: "Dennison, falando francamente, não tem nada que eu não tenha feito na frente de uma câmera". Aí eu quase chorei. E ela começou, também um pouco constrangida, a falar dos filmes dela. "Eu fiz um filme, não repara no título, que é meio sujo, meio engraçado..." e eu completei: "Senta no meu que eu entro na tua"!. E ela: "Você viu!?". Então eu respondi: "Eu tenho esse filme em casa!". Aí acho que foi ela que quase chorou... Foi sensacional. E ela é uma grande atriz. Seguiu um caminho diferente, muito popular. Foi uma riqueza para a minha vida trabalhar com a Débora, e pretendo trabalhar com ela novamente. A Débora entrou na história na última hora, e foi a melhor coisa que aconteceu no filme.

Um aspecto que chama a atenção de todos os que assistem ao seu filme é o fato de os personagens serem tipicamente brasileiros. Foi mesmo essa a idéia?

Sim. Eu também queria que o filme fosse protagonizado por um casal de meia idade em um lugar que não se reconhecesse traços de tempo, e que eles fossem muito pobres, e que estivessem num lugar ermo, um fim de mundo, mesmo. Mas a inspiração da Formosa também é muito cigana, eu queria que ela fosse uma feiticeira do mal.

O seu filme é um gore bem realizado, e que pode ser considerado radical em qualquer lugar do mundo, principalmente no Brasil, que tem pouquíssima tradição no gênero. Quem se encarregou disso?

Teve um cara que cuidou de tudo, da maquiagem de efeitos e dos efeitos mecânicos, que foi o André Kapel Furman, grande conhecedor de cinema de terror e também de traumatologia, pois eu queria que o filme fosse realista nesse sentido. A gente estudou bastante como iam ser os efeitos e as reações dramatúrgicas a esses efeitos. Também coreografamos a luta (do Filho com a Mãe) juntos, porque ele conhece bem o resultado de cada golpe. Mas, claro, se o realismo é importante, eu não queria me levar a sério demais. Então o André chegava e falava: "esse tipo de golpe tem esse resultado gráfico, mas eu sugiro que você use mais sangue porque essa cena pede", e assim a gente foi elaborando as cenas.

A cena em que o Filho tira o coração da mãe, por exemplo, é fortíssima. Como vocês a fizeram?

Eu queria que a cena da facada no coração sem cortes, isto é, não queria simplesmente um plano detalhe da facada: a Mãe tinha que aparecer levando a facada mesmo. Pra fazer isso, o Kapel fez um negocio supercomplicado: construiu um praticável com um buraco, e a Vera ficava embaixo, só com a cabeça pra fora e com um torso falso de látex, cheio de vísceras, que o ator esfaqueava. Esse praticável era super incômodo, todo mundo ficou preocupado com a Vera, mas ela ficava ali embaixo e ainda implicava com a gente: "Eu quero maconha! Nunca vi uma filmagem tão sem maconha! Aliás, vocês são uns frouxos, porque faz uma semana que a agente está aqui e não vi ninguém comendo ninguém!". Ela é muito ducaralho. E ótima atriz.


Vampiro, em Nocturnu
A crítica brasileira seguidamente demonstra pouco conhecimento a respeito do cinema de horror. Um dos rótulos mais ligados a seu filme foi o de trash. O que você achou disso?

Não admito esse rótulo para nenhum dos meus filmes. Trash, pra mim, é algo sem elaboração, e o meu filme, modéstia à parte, é um dos curtas brasileiros mais elaborados a que assisti nos últimos, sei lá, dez anos. Meu filme é gore, isto é, expõe sangue, carne e vísceras, mas isso não é trash. Meu primeiro filme, Nocturnu (1998) é p&b porque eu queria ver grão, e queria criar um efeito de chiaroscuro, e no colorido é muito mais difícil. Já para o Amor só de Mãe, que é colorido, tivemos um dos melhores fotógrafos do Brasil, o José Roberto Eliezer (de A Dama do Cine Shangai e A Grande Arte), e um story-board elaborado pela Débora Waldman. Isso não pode ser chamado de trash em hipótese alguma.

Há referências cinematográficas evidentes no seu filme, como A Bruxa de Blair nas cenas da floresta e O Exorcista nas seqüências de satanismo. Que outras referências você usou?

Basicamente, Exorcismo Negro (do Mojica), O Massacre da Serra Elétrica (do Tobe Hopper) e El Topo (do Jorodovski), de onde tirei o paganismo latino. Isso fala muito, aliás, a uma memória infantil que eu tenho: uma vez, fui a um sítio de um amigo, no interior de São Paulo, e lá no meio do mato encontrei uma coisa muito estranha: uma bíblia superbonita, amarrada numa fita vermelha e com uma cruz de ossos em cima. Uma coisa tosca e elaborada ao mesmo tempo, que tem muito a ver com os filmes do Jodorovski, especialmente o El Topo.

Apesar do radicalismo dos efeitos e de proposta, do ponto de vista da linguagem cinematográfica propriamente dita, seu filme poderia ser chamado de clássico, não?

Sim, meu filme é mais clássico. Gosto de dizer que ele não tem pretensão, mas alguém poderá dizer que é "pretensioso" por que é bem produzido. Eu quis que ele fosse bem fotografado, mas também quis ser bem simples e bem objetivo com meus movimentos de câmera, e nem quis usar grua. A montagem também é mais clássica, com alguns planos mais longos. Meio Samuel Fuller: simples, direto, sem muita firula.

Houve algumas reações negativas ao seu filme. O que você acha delas?

Teve algumas. Em Portugal, no primeiro festival que ele passou, umas seis pessoas saíram antes de terminar a exibição. E uma garota veio falar que o filme foi muito pra ela. Mas tive mais reações positivas. Ouvi dois cometarios que eu adorei na estréia em SP: sentei atrás de um casal e, conforme a progressão da violência ia aumentando, ela falava assim "Não, não!", e o cara que estava do lado dela falava "Puta, que merda, caralho!", e ela falou "eu odeio o cara que fez esse filme". Teve outro cara que saiu da sessão comentando: "viu, eu falei que esse filmeco aí era uma coisa meio Zé do Caixão". Mas na minha frente as pessoas tem reações legais, e eu acredito em várias delas, e acredito no filme também.

Como você avalia a produção brasileira de horror?

O Brasil produz poucos filmes de uma maneira geral, mas, no que se refere ao horror, a produção é quase nula. Há quantos anos não é lançado um longa-metragem de terror brasileiro? Um dos motivos para isso é o preço: é muito caro fazer qualquer tipo de cinema no Brasil, e o cinema brasileiro ainda depende muito de apoio institucional. E existe o fato de não ser um gênero absolutamente popular, é difícil encontrar justificativa cultural para o projeto que vai para apoio institucional, não se dá muito importância a esse folclore de horror brasileiro, e a nossa literatura também não tem um equivalente ao Poe, ao E.T.A. Hoffmann, ao Maupassant, ao Lovecraft. Eles tinham de onde iniciar a cinematografia, e no Brasil a gente parte muito do zero. Por exemplo, para fazer um longa, estou em busca de uma historia legal que tenha raízes folclóricas ou literárias no Brasil, mas não estou encontrando. Os quadrinhos de horror brasileiros eram muito legais, mas muito ingênuos, não sustentam um longa-metragem. Além disso, é muito imprevisível como um filme de terror responderia comercialmente no Brasil, ainda mais com o próprio preconceito das pessoas com relação ao cinema brasileiro em geral, que está começando a mudar agora com o Carandiru e com o Cidade de Deus.

Mas você acha que existe preconceito quanto ao gênero horror no Brasil?

Sim, e paga-se um preço muito alto por trabalhar com esse gênero, que é tido como vulgar, agressivo, gratuito e barato. São filmes de confrontação, que não querem ser agradáveis, e sim mas causar angústia, outras emoções. E a classe acadêmica tem uma grande responsabilidade nesse tipo de reação, pois ela está intrinsecamente ligada ao fazer cinema no Brasil. Tem os caras tipo a Maria Dora Mourão (que é montadora), a Marília Franco, o Ismail Xavier, que tiveram a cabeça muito feita pelo Cinema Novo e pela Nouvelle Vague, e que defendem uma matriz intelectualizada para a nossa cinematografia. Eles e acham que é terrível e vulgar ver um filme brasileiro fantástico ou de entretenimento, ou meramente sensorial.

E onde encontrar aliados?

Aqui no Brasil é estranho, porque muita gente topa fazer um filme de horror pelo exótico da coisa, pois não é um projeto como outro qualquer. É até um chamariz para cúmplices. Mas é difícil, pois os filmes muito violentos às vezes são rejeitados até pelos festivais de terror. Agora o Amor só de Mãe está indo participar de um festival no Canadá (o Fantasia) que é o maior festival de cinema de horror do mundo, mas não é em qualquer festival que um filme desses é aceito.

O que falta para o gênero engrenar aqui no Brasil?

Essa discussão simplesmente não existe no Brasil. Carece-se de uma conversa entre quem quer fazer cinema de horror com quem faz horror em outras mídias. Por exemplo: cadê o nosso Stephen King, o nosso Clive Barker, o nosso Poe, o nosso Lovecraft? Essas matrizes não se cruzam por aqui. De onde vão surgir novas histórias que vão gerar novos filmes? Às vezes a necessidade de se criar um roteiro original prejudica uma história com maior densidade e maior textura por não ter surgido a partir de um cruzamento de duas disciplinas. O Iluminado e O Exorcista são ótimos filmes por que vieram de ótimos livros. E a gente não tem isso, uma coisa com cara própria, que tenha vindo daqui mesmo. A idéia da "antropofagia", de absorver matrizes importadas, já não é mais suficiente. Vejo pessoas tentando escrever histórias como O Vampiro da Vila Madalena, O Fantasma do Copan, mas não é mais disso que a gente precisa, e sim da busca de uma mitologia própria. O papel antropofágico, sintético, já foi cumprido pelo Zé do Caixão, que é um autodidata e foi buscar a referência em filmes antigos, como O Fantasma da Ópera estrelado pelo Lon Chaney.

Se no Brasil as produções de horror são raras, no resto do mundo, o gênero continua com grande fôlego. O que você tem achado das produções mais recentes?

Do cinema americano de terror recente, não vi nada de que eu tenha gostado, exceto A Bruxa de Blair, de que gostei muito, e de O Chamado, cuja versão original, japonesa (Ringu), também é muito boa. Os japoneses, aliás, estão mandando muito bem: o Takeshi Miike, que dirigiu A Entrevista e Ichi de Killer, é um gênio.

por
Laura Cánepa
em setembro de 2006

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