Carlos Gananian

Cineasta se destaca com curtas de horror

O cinesta paulista Carlos Gananian, 24 anos, formou-se este ano pelo curso de Cinema da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado, SP) e já é conhecido entre os amantes dos filmes de horror como uma das maiores promessas no gênero em nosso país. Seus curtas-metragens Behemoth (6 min, 35mm, 2002) e Coagula (3 mim, 35mm, 2004) são ótimos exemplos de como é possível produzir imagens de horror com grande rigor estético e sem grandes orçamentos – apenas com boas idéias e boas referências. Citando nomes como Keneth Anger, Mario Bava e Dario Argento entre seus "mestres", Gananian conversou com a Carcasse sobre seus filmes, e falou sobre a participação de um deles – Behemoth – em diversos festivais internacionais.

Vamos começar falando de Behemoth. Como surgiu o projeto desse filme?

Partiu de um exercício de quinto semestre levado especialmente a sério por mim e pela equipe que trabalhou comigo (tanto que boa parte do orçamento foi bancado por nós). Captamos as imagens, originalmente, em Super16mm, e depois fizemos a ampliação ótica para 35mm, além da sonorização em Dolby Digital. Mas a carreira do filme realmente começou a repercutir quando o Dennison (Ramalho) esteve no Festival de Cinema da FAAP em 2003 e começou a divulgá-lo. A história do Behemoth não teria sido a mesma se não fosse essa participação dele.

Um dos aspectos que certamente chamou a atenção de todos os que assistiram ao Behemoth foi o apuro visual. Quem se encarregou disso?

Todos os efeitos dos meus curtas foram realizados pelos loucos da Fixxon FX, uma empresa de efeitos e afins, que fica no bairro da Saúde. Os técnicos de efeitos no set foram Christian Scherf, um argentino radicado no Brasil que é uma pessoa muito tranqüila e profissional, e Roger Mátua, um louco por filmes de terror que adorou ficar no set. A fotografia foi de Gabriel Kalim Mucci, meu colega na FAAP, que conseguiu um resultado estético excelente, principalmente pelo tempo disponível para executar o curta – dois dias nos quais tínhamos muitas mudanças de luz, planos com movimentação complicada de câmera etc. Ele trabalhou comigo no Coagula também, e de novo fez um trabalho excepcional. Já a direção de arte foi de uma trinca de meninas, também estudantes da FAAP: Júlia Portela, Fernanda Marques e Juliana Ribeiro. Elas fizeram um trabalho incrível, muito detalhado e cuidadoso. O filme tem uma textura muito rica, fica claro o trabalho minucioso do departamento de arte. A Júlia e a Fernanda também trabalharam no Coagula, e mais uma vez contribuíram para que o filme ficasse visualmente interessante.

A trilha sonora do filme também é bem interessante, moderna.

A trilha foi realizada por Sérgio Ugeda, da banda paulistana Diagonal, e que é um dos atores do filme (o orador). Foi gravada e mixada no estúdio El Rocha, em Pinheiros, em duas horas, e composta basicamente de guitarra e percussão. A tentativa foi de fazer uma colagem de sons que criasse uma atmosfera de tensão. Há um tema simples tocado na guitarra na primeira parte, durante o sacrifício (que se repete sobre os créditos finais), e, na segunda parte, existem mais efeitos sonoros, além das distorções de guitarra e alguma percussão no ataque do monstro.

E os atores (Sérgio Ugeda e Rafael Rezende), onde você os conseguiu?

Eles eram dois colegas de faculdade que se sujeitaram sem frescuras ao que lhes foi pedido. Ambos tinham alguma experiência prévia em atuação, e gostaram da idéia de fazer um filme de terror. O Sérgio concordou em deixar o cabelo e a barba crescerem por quase quatro meses, e o Rafael topou raspar a cabeça e ficar sob a maquiagem de demônio por um bom tempo, então não tenho do que reclamar dos dois, só a agradecê-los. Não ficaram constrangidos com o fato de a dramaturgia do curta ser bem restrita, quase inexistente, usando-os quase que como objetos de cena. Não tinham ataques de ego ou qualquer coisa do gênero, foram pacientes e compreensivos, além de trabalharem longas horas em condições não muito confortáveis.


Behemoth
O cinema em geral, e o horror em particular, costumam ser repletos de citações. Quais foram as influências (estilísticas e temáticas) de Behemoth?

No aspecto visual, nossa principal referência foi o Mario Bava: cores primárias, vibrantes, e tudo feito em estúdio, dando um ar teatral e uma artificialidade cênica que eu acho interessante. Já em relação ao tema e à sua abordagem, inspiramos-nos em Clive Barker e Keneth Anger, que vêem o terror de uma perspectiva um pouco mais sofisticada.

Aqui no Brasil, onde o horror é um gênero pouco realizado, às vezes algumas pessoas religiosas se ofendem com certas imagens. No caso de vocês, que parecem fazer referência a Cristo, houve algum problema nesse sentido?

Não. Algumas pessoas perguntaram da Pietá, que é uma imagem que dá pra reconhecer claramente, mas ninguém me pareceu ofendido. Pelo menos não expressaram qualquer ofensa diretamente comigo. Mas interpretações das imagens houve várias – e fiquei contente com essa pluralidade de significados.

E como está o circuito dos festivais?

O filme vai passar no Fantastisk Film Festival na Suécia no dia 20 de setembro. No site tem toda a programação. Tem também o Horror Fiesta, na Polônia , para o qual tudo indica que fomos selecionados. Além desses, há o Screamfest LA , um festival em Los Angeles com vários convidados legais. Neste eu tenho maior possibilidade de ir, até pelos contatos que podem ser feitos. O que vier agora é lucro. Um exercício de faculdade (com o qual ainda me frustro a cada vez que assisto) passando nesses festivais é ainda um pouco difícil de assimilar.


Coagula
Coagula, seu segundo filme de terror, também foi um exercício de faculdade?

Sim, do sexto semestre. E, da mesma forma que o anterior, foi captado em Super16mm e finalizado em 35mm com som Dolby. Mas tivemos apenas cinco dias para a produção, incluindo montagem de cenário, o que nos deixou com pouco tempo de filmagem.

Onde vocês filmaram o Coagula?

Em um galpão no Jaçanã, aqui em São Paulo, para as externas do homicida mascarado levando sua vítima para a sala na cadeira de rodas, e nos estúdios da FAAP, para as internas da "operação". Aquela sala de azulejos negros foi feita pelo departamento de arte e pelos cenógrafos do filme, na FAAP, e precisou de uma produção complicada pra conseguir ser realizada no tempo que tínhamos. Usamos quase uma tonelada de azulejos!


Coagula
E de onde veio a idéia da máscara usada pelo assassino?

A máscara foi inspirada na estética do Grand Guignol. Eu queria que ela fosse estranha, mas ao mesmo tempo bela. A idéia era a de que o assassino ficasse parecendo um gentil boneco de cera, vestido impecavelmente, sem qualquer expressão na face.

Os efeitos gore ficaram a cargo da Fixxon?

Sim. Uma bexiga cheia de ar inflava e desinflava embaixo da barriga que ia ser cortada, simulando a respiração da atriz. Ficou legal, mas acho que devíamos ter filmado a cena com menos luz, para "vender" melhor o efeito para a platéia. Mesmo assim, por ser mostrada em cortes rápidos, acho que a ilusão funciona.

Neste filme, a influência parece ser mais dos slashers italianos.

Sim, em especial o belo O Pássaro Sangrento de Michele Soavi, no aspecto da fotografia. Mas também usamos o teatro de horrores francês Grand Guignol na direção de arte e os slashers americanos do começo dos anos 80 para os efeitos gore.

A trilha sonora é também do Sérgio Ugeda?

Sim. Mas na filmagem usamos uma trilha provisória, que ajudou o Sérgio a perceber o tom predominante das cenas, sem eu ter que tentar explicar. A comunicação com os departamentos do filme torna-se mais rápida com exemplos concretos e práticos (por exemplo, em vez de falar com o fotógrafo como deve ser enquadrado tal plano, eu simplesmente desenho os storyboards). O curioso é que a trilha que o Sérgio acabou compondo para o filme é apenas num piano, e soa bem mais séria do que a música que usei para a versão temporária, a qual dava um ar meio irônico para o filme. Ele superou as minhas expectativas de maneira surpreendente, e estou muito satisfeito com o resultado final da música.

E para quando está previsto o lançamento oficial do filme?

O Coagula já está pronto, mas vou lançá-lo no festival de curtas da FAAP em 2005, pra depois seguir pro Festival Universitáio, da UFF (no Rio), e daí por diante, como um filme de 2005. Com isso, dou mais "vida útil" ao Behemoth, que ainda está rodando festivais.

Embora seus filmes sejam "narrativos", você não faz questão de contar histórias com começo, meio e fim. A impressão é de que você escolhe um recorte bem específico da história para contar. É isso?

Nos dois filmes, como eram exercícios, preferi pegar "cenas" para filmar. Primeiro, porque elas são mais apropriadas para treinar as ferramentas do cineasta, criando tensão através da linguagem cinematográfica, com o uso apenas de imagem e som. A fotografia, a arte, a edição de imagem e som são os instrumentos do diretor para construir mundos, criar atmosferas - ingredientes essenciais dos filmes de terror, na minha opinião. Nestas "cenas", que são aquelas memoráveis nos filmes do gênero, as de morte, tornar um ato tão hediondo em algo quase poético, de beleza estranha, é algo muito difícil. A natureza previsível do cinema de gênero em grande parte de suas histórias (é óbvio que existem muitas exceções, que acabam virando os arquétipos seguidos por legiões de imitadores) não me atrai tanto, por isso a resistência em contar uma história mais formal em sua estrutura narrativa. No entanto, as possibilidades de criação de imagens icônicas, além da já citada construção de atmosfera, são extremamente interessantes. Além do que, acho que o cineasta deve filmar aquilo que entende, e como assisto predominantemente a filmes de terror, decidi que quero trabalhar só com isso. Tenho afeição pelo terror, seja no cinema, na literatura, ou em outras formas de expressão, então pretendo continuar nesse gênero maldito por um bom tempo...

Nos seus dois filmes, você não teve nenhum constrangimento ao mostrar cenas cruéis e sangrentas. Como você contextualiza isso no cinema brasileiro?

Acho que as cenas de violência são quase que inerentes ao gênero – pelo menos meus filmes de terror preferidos são bastante são gráficos, não como mera exploração da crueldade, mas no contexto da história e do tom do filme. Em Behemoth e Coagula, a violência existe numa esfera tão estilizada, num contexto de fantasia e fora da realidade, que não tem cabimento ser ponto de discórdia ou discussão acalorada sobre violência no cinema nacional. É bem diferente de um filme que mostra garotos de dez, doze anos de idade em favelas dando tiros uns nos outros. Bem diferente.

Você acredita que está surgindo uma onda de curtas de horror no Brasil?

Não acho que seja uma onda, já que os focos foram isolados uns dos outros. Não fiquei sabendo do filme do Dennison (Amor só de Mãe, mas já tinha visto o primeiro filme dele, Nocturnu) enquanto fazia o meu. Também não sabia do curta do Luciano Maciel (Conrad, 2002) da FAAP, durante a pré-produção do meu filme. Me achava um idiota tentando fazer meu filme, e explicando pra possíveis membros da equipe o tipo de filme que queria fazer. Imagino que o Dennison e o Luciano tenham se sentido assim também. Depois assisti ao curta Menina do Algodão, do Kleber Mendonça Filho e do Daniel Bandeira na Mostra do ano passado, e fiquei impressionado. Agora parece que a coisa mudou um pouco de figura, houve exposição considerável, e o pessoal (especialmente da área), viu que os filmes são bem feitos, o que tirou um pouco do estigma trash que parece estar impregnado ao cinema de horror aqui no Brasil. "Filme nacional? Filme nacional e de terror?". Sim, senhor. Mas não acho que tenha sido uma onda programada ou consciente.


Carlos Gananian
No caso de esses diretores começarem a fazer longas de horror, você acredita que há chance de serem bem sucedidos comercialmente?

Comercialmente, o êxito dos filmes de horror made in Brazil depende de sua qualidade, porque público existe. Um garoto de 15 anos que sai da escola e vai para o shopping à tarde com os amigos, se visse no Cinemark um filme de terror nacional ou Deus é Brasileiro, aposto que viria o filme de terror. Posso estar errado. Acho que não. Se o novo longa do Mojica sair, e se fizer sucesso, acho que aí o negócio vai pra frente. O Dennison também merece seu longa o quanto antes, acho que ele está mais do que preparado pra realizar um puta filme.

E quais são seus projetos a partir de agora?

Estou engatinhando no roteiro de um primeiro longa. Mas é complicado, demora, e só vai ficar pronto daqui a, sei lá, um ano, um ano e meio. Ele tem elementos que reúnem Aniversário Macabro (Wes Craven, 1973) e O Massacre da Serra Elétrica (Tobe Hopper, 1972) com Lovecraft. É mais ou menos como achar o portal do inferno numa casa no meio do mato... E a casa tem dono. No mais, estou preparando um curta novo, que é bem mais complicado (e longo) que os outros, e esperando por novos festivais lá fora. O curta começará a ser filmado no fim do ano/começo do ano que vem, se tudo continuar no ritmo em que está. A equipe está quase formada, precisamos agora fechar estúdio e/ou locação, além de equipamentos. Chama-se Akai, e é um filme de vampiros pseudo-naturalista/realista no estilo de Martin, do George A. Romero, Habit, do Larry Fessenden e Nadja, de Michael Almereyda.