Pintura gótica

A subordinação dos ornamentos ao gosto da burguesia

Apocalipse, Velho Testamento, a infância de Jesus Cristo, Virgem Maria, a Paixão e o Último Julgamento estão entre os temas da pintura do período que veio a ser designado por gótico. A arte mural daqueles tempos, consideravelmente desvalorizada em função da tendência de integração entre a arquitetura das catedrais e a escultura, veio a se desenvolver mais ao Sul da Europa, principalmente na Itália, o primeiro país a privilegiar os exercícios de perspectiva.

Enquanto na França e em regiões próximas à Península Ibérica a arte pictórica é influenciada pelas miniaturas francesa e inglesa, os artistas italianos já estavam buscando soluções para o problema do espaço entre as construções e a arte mural.


Giotto, detalhe do afresco Les Démons Chassés d'Arezzo. Anterior a 1300. Assise, Igreja Superior de Saint-François.
A pintura da era das catedrais góticas é subdividida em períodos: o primeiro era caracterizado como linear; seguido pelo estilo bizantino da escola de Siena; pelo de influências italianas; depois o internacional; e, por último, de predomínio do borgonhês e do flamengo.

Ao fim do século XII e durante o XIV surgiram nas cidades italianas de Siena e Florença as escolas de pintura mais famosas. A primeira, que teve como fundador Duccio di Buoninsegna, era mais conservadora e fiel às formas bizantinas que, entretanto, foram substituídas por figuras menos solenes.

As pinturas da escola de Siena apresentavam grande devoção pela figura da Virgem Maria, tema recorrente na arte da cidade, da decoração da catedral iniciada por Giovanni Pisano, por volta de 1284, à majestade (Maestà) elaborda por Duccio e seu aluno, Simone Martini. Ainda no século XIV, os irmãos Pietro e Ambrogio Lorenzetti foram os últimos representantes da escola de Siena,
O período posterior, de influências italianas, foi visível na escola de Florença, que pouco privilegiava o misticismo e se mostrava mais preocupada com o realismo das obras. Giovanni Cimabue e Giotto di Bondone (1266-1336) foram os representantes desta fase da pintura gótica.

A obra principal de Giotto di Bondone, Joaquim expulso do Templo, está na Capela dos Scrovegni, em Pádua. Neste trabalho o artista procurou dar uma conotação realista e para tanto evitou os arabescos e a estilização. Após seu falecimento, a escola florentina mostrou-se incapaz em dar continuidade aos avanços iniciados por este artista, que perseguiu incessantemente o realismo. Assim, ao final do século XIV, houve um retorno ao estilo de Siena e as escolas européias de pintura apresentavam estilos quase idênticos.

Em razão desta similaridade, os historiadores denominam esta fase como gótico internacional. As pinturas deste período são caracterizadas pela influência das cores vivas nas iluminuras góticas.

O padrão estético burguês

As cortes européias preferiam a contemplação de uma realidade exótica, contrastante e detalhista. Tal ânsia pela ornamentação foi visível na pintura flamenga, própria dos Países Baixos, durante o século XV. Muitas das obras flamengas já apresentavam linhas que se aproximavam às leis de perspectiva do Renascimento.


Jan van Eyck, O Casal Arnolfini, 1434. Galeria Nacional de Londres.
Jan Van Eyck aperfeiçoou a técnica da pintura a óleo. Como resultado, os trabalhos ganharam detalhes nunca vistos anteriormente. A burguesia era a principal impulsionadora da escola flamenga e por esta razão os pintores voltaram-se para a elaboração de retratos, como O Casal Arnolfini, de 1434.

Curiosamente, há autores que chegam a estabelecer comparações entre certas obras daqueles tempos e o Expressionismo, corrente do século XX que, ao contrário da arte gótica, se influenciou pelas manifestações artísticas de outros continentes, além de ter criticado as tradições, a burguesia, a autoridade, buscando assim a dessacralização de mitos.

Everard M. Upjohn, no segundo volume do livro História Mundial da Arte, que aborda as manifestações artísticas dos etruscos ao fim da Idade Média, vê a obra A Crucificação, de Martin Schongauer, como uma preciosidade em termos de expressionismo genuinamente alemão.

De acordo com o autor, a obra de Schongauer, alheia ao estilo retratista burguês, fornece uma dimensão pessoal ao realismo, em virtude de sua busca pela intensidade. A singularidade do artista também pode ser conferida na gravura A Tentação de Santo Antônio.

Convém salientar que o autor percebe tal semelhança em um sentido amplo. Do mesmo modo, referências heterogêneas como as máscaras dos rituais africanos, a arte pré-colombiana, as esculturas góticas, as pinturas de Hieromymus Bosch, Goya e Van Gogh já foram agrupadas em um mesmo quadro de referências por outros pesquisadores.

Die Brücke (A Ponte), um dos principais grupos expressionistas, apresentou um sincretismo entre as artes africana e indígena, somado à recuperação do gótico medieval. Tal influência também se fez presente em outro grupo expressionista, o Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul). No ano de 1912, o pintor Franz Marc anunciava, no prospecto inaugural do almanaque homônimo: "trata do mais recente movimento pictórico na França, Alemanha e Rússia e mostra os seus sutis fios de ligação com o gótico e os primitivos, com a África e o Grande Oriente (...)".

Para finalizar, há discussões em torno das obras de diversos pintores dos estilos gótico e renascentista, referentes à melhor classificação para as mesmas. Boa parte das obras do quattrocento integra o gótico tardio, mas apenas um seleto grupo de autores, a exemplo de Arnold Hauser e Everard M. Upjohn, menciona esse prolongamento do gótico inspirado no gosto burguês.

Os artistas do "quattrocento" costumam ser divididos em dois grupos: inovadores e conservadores. Os primeiros estavam interessados na perspectiva, na anatomia humana e animal, enquanto que o segundo grupo preocupava-se mais com a composição do quadro.

Natural de Florença, o tradicionalista Sandro Botticelli (1444-1510), autor de pinturas célebres como O Nascimento da Vênus e A Primavera, participou do círculo intelectual da corte de Lourenço de Médice e não levava tão em conta o interesse dos florentinos pelo volume, a menos que pudesse exprimi-lo pelo traço.

por
Carla Damasceno
em setembro de 2006

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