Os godos divididos

Os reinos ostrogótico e visigótico

Caio Júlio César, imperador romano, relatou o modus vivendi das tribos germânicas na obra De Bello Gaellico, referente à conquista das Gálias por volta do século I d.C. De acordo com suas descrições, os bárbaros viviam agrupados em clãs, cada qual com seu chefe, e eram inexistentes os conceitos de propriedade privada da terra e de classe social.

Com o passar dos anos, os bárbaros foram adotando um estilo de vida sedentário e os chefes dos clãs foram obtendo terras maiores para o plantio. Portanto, tinha início um processo de desigualdade social. Os prisioneiros de guerra serviam como escravos; no entanto, estes não sofriam os mesmos maus tratos praticados pelos senhores romanos. Os bárbaros lhes davam, inclusive, o direito de serem proprietários de terras, desde que pagassem, aos seus amos, um tributo em cereais, tecidos e gado.

As tribos resolviam suas pendências em assembléias. A traição e a covardia eram consideradas os crimes de maior gravidade. Traidores eram enforcados em árvores, e os covardes eram jogados nos pântanos.

Diversas tribos germânicas, situadas ao redor do Império Romano, começaram a representar uma série ameaça à estabilidade romana. As invasões bárbaras foram motivadas pelas constantes mudanças destas tribos seminômades, que tinham como principais ocupações a caça e a criação de gado, e pouco privilegiavam a agricultura. Assim, sempre estavam atrás de lugares melhores para o pastoreio. No século V d.C., os invasores aniquilaram o Império Romano e fundaram reinos próprios.

Abaixo, exemplares das ouvivesarias visigótica e ostrogótica

Conforme as disputas entre romanos e germânicos iam tornando-se cada vez mais constantes, o Império Romano adotava uma política defensiva, através da fortificação das fronteiras que se estendiam de Bonn até o Danúbio. Esta política se tornou necessária na medida em que o Império percebeu a impossibilidade de romanizar os povos germânicos.

O Império Romano, que nos áureos tempos tinha submetido povos inteiros a seu domínio e angariado riquezas aparentemente inesgotáveis, começava a esfacelar-se. Os romanos estabeleceram várias fortificações, nas fronteiras com os rios Reno e Danúbio, que posteriormente deram origem a cidades como Colônia, Mogúncia, Estrasburgo e Viena.

Além destas ameaças, as crises externa e interna do Império cresciam assustadoramente. As cidades ocupadas ou fundadas pelos romanos eram majoritariamente centros administrativos ou religiosos que não dispunham de desenvolvimento industrial satisfatório. Estas cidades representavam um custo oneroso e contribuíram para o empobrecimento dos romanos. As pestes que devastavam a Europa nos séculos II e III diminuíam a população romana e as cidades minguavam devido à construção de muralhas para a defesa contra as ameaças dos bárbaros.


O Império também ruiu em razão do pesado sistema burocrático imposto ao povo que, revoltado, facilitou a entrada dos bárbaros. Quando os godos cruzaram o Danúbio e invadiram o Império, no século III, tornou-se impossível combatê-los, pois eles contaram com o apoio da população marginalizada e explorada de Roma: escravos e colonos.

Inicialmente, os bárbaros provocaram transtornos na maneira de viver da população romana, que nutria uma profunda antipatia pelos germânicos e sentia horror ao pensar em assimilar a cultura dos invasores. No entanto, com o passar do tempo, romanos e germanos evidenciaram influências culturais recíprocas. Mas as primeiras investidas dos bárbaros conferiram dificuldades à convivência pacífica entre um modo de viver sofisticado (conforme o Império se julgava) e outro completamente diverso, considerado rude pela população romana.

Inicialmente, parte dos godos rumou ao sul da Europa e desembarcou no litoral alemão, estabelecendo-se posteriormente nas redondezas do Mar Negro. As origens dos povos germânicos suscitam muitas discussões. Alguns estudiosos alemães acreditam que os germanos tiveram origem no tronco indo-europeu e teriam habitado a Rússia Oriental. Outro grupo de especialistas no assunto alega que ocupavam as regiões escandinavas e bálticas e que, na Idade do Bronze, teriam recebido a contribuição de outros povos e adotado a língua indo-européia.

Emigrando para o sudeste, os godos fundaram um Império na Rússia Meridional. Posteriormente, os ataques dos hunos os dividiram entre os concentrados na Ucrânia, conhecidos como ostrogodos ou "Godos do Leste", e os que buscavam proteção na Transilvânia, os visigodos ou "Godos do Oeste". Os godos do Leste foram assim nomeados por terem dominado a região oriental da Europa, em um período em que eram governados pelo rei Ostrogotha (daí o surgimento da tribo ostrogodos). Os godos do Oeste foram chamados de visigodos.

As investidas dos hunos no Ocidente (particularmente nas regiões ocupadas pelos godos) tiveram repercussões tão graves que estes decidiram abandonar as planícies da Rússia Meridional, rumo ao Império Romano. O ataque destes povos asiáticos provocou o esfacelamento dos godos, fato causador da primeira fase de migração dos povos germânicos.

A partir do ano de 332, os visigodos já eram considerados federados. Os godos do Oeste fugiram das ameaças dos hunos e se dividiram em dois grupos: um, sob a chefia de Atanarico (adversário dos romanos), e outro bastante numeroso, que pediu asilo ao Império Romano. Devido à crise que já se mostrava evidente no Império e ao contingente populacional de godos que chegavam ao Império e não obtinham moradia e alimentação satisfatórias, as revoltas contra os romanos não tardaram em eclodir.

Os visigodos primeiramente dirigiram-se à Itália, depois à Gália e à Espanha. As invasões e as disputas de poder entre romanos e visigodos não tinham fim. Neste período o Império Romano do Ocidente estava reduzido à Itália, enquanto os godos do Oeste despontavam poderosos na Europa Ocidental.
Teudis, soberano visigótico que reinou de 531 a 548, estabeleceu a sede de seu governo em Barcelona. Mario Curtis Giordani, em seu História dos Reinos Bárbaros, menciona que, segundo alguns historiadores, a designação de Catalunha estaria ligada à existência desse elemento gótico que teria dado à região o nome de Gotholonia.


O grande problema deste período foi de ordem religiosa. O reino visigótico favorecia o arianismo, uma heresia cristã que teve como autor o sacerdote Ário (da Igreja de Alexandria) e partia de uma base racionalista para explicar os mistérios da Santíssima Trindade. O arianismo negava a unidade e consubstancialidade de Suas três pessoas e, por conseqüência, a divindade de Jesus Cristo.

A oposição entre o arianismo e o catolicismo foi um traço comum a quase todos os Reinos Bárbaros. Esta divergência ocasionou sérios problemas nos campos político e social, e as conseqüências foram sentidas através da personalidade das leis. Tratava-se de uma dualidade de regime jurídico no interior de cada uma das novas unidades políticas que chegou a revelar-se inicialmente como um empecilho à fusão entre a população romana e os germanos.

Com relação aos ostrogodos, sua rápida conquista tem explicação na capacidade bélica dos hunos e na própria estrutura econômico-social dos vencidos, formada por uma aristocracia guerreira que, vale salientar, abrangia uma minoria diante da massa da população dominada e vivia às custas do trabalho desta. Assim, uma parte dos guerreiros ostrogodos foi escravizada e integrou os exércitos inimigos na qualidade de mercenários. O outro grupo, menos numeroso em comparação ao primeiro, dirigiu-se para o Ocidente, em direção ao Danúbio.

Teodorico, o mais conhecido dentre os soberanos ostrogodos, maravilhou-se com a História da Civilização Greco-Romana desde cedo e foi o único rei bárbaro que assimilou o conceito romano de Capital. Ravena foi escolhida como capital do novo reino. O novo imperador compreendia que a estabilidade de seu domínio na Península Itálica dependia essencialmente da colaboração por parte da numerosa população ítalo-romana. Assim, manteve a estrutura administrativa imperial e investiu nas cidades italianas, onde construiu igrejas e restaurou monumentos.

Sob o domínio ostrogótico, a estrutura político administrativa da antiga civilização greco-romana foi preservada: incluía o Senado e as Magistraturas (apesar de o Senado romano ter-se reduzido ao simples papel de Conselho Municipal de Roma). A ressalva, no entanto, mostrava-se referente ao serviço militar, que era um privilégio exclusivo dos godos.

A religiosidade também foi outro fator que contribuiu para a separação entre romanos e ostrogóticos. Apesar de tolerante para com as crenças alheias, Teodorico professava o arianismo. Mas a convivência pacífica entre católicos e arianos não perdurou por muito tempo. Em 519, o Império Romano do Oriente, sob o reinado do imperador Justiniano (seguidor do Catolicismo Ortodoxo), restabeleceu a paz com a Igreja de Roma e reatou as relações entre os romanos do Ocidente, que estavam rompidas há tempos. Assim, teve início a perseguição aos arianos. Teodorico, enraivecido, acabou por assinar um edito segundo o qual os arianos deviam apossar-se das igrejas católicas.

O líder ostrogótico planejava ampliar as fronteiras de seu reino e sonhava com uma espécie de confederação patriarcal de povos germânicos liderados por ele. Após a morte de Teodorico, a Península Itálica atravessou um período conturbado de disputas. Os ostrogodos perderam a batalha para os bizantinos, que tomaram o poder e anexaram a Itália ao Império Romano do Oriente, em 555.

Dois séculos antes, o combate ao paganismo já se configurava. Em 391 as cerimônias pagãs foram proibidas na cidade de Roma. No ano seguinte, um edito promulgado em Constantinopla foi ainda mais enfático, ao proibir as práticas religiosas, públicas ou privadas, de caráter pagão.

Os santuários pagãos que não eram destruídos serviam para uso público ou eram transformados em igrejas cristãs. Inicialmente, houve uma reação de contestação do povo, indignado com as adaptações em seus templos. Contudo, a população foi abandonando aos poucos estas práticas e integrando-se aos quadros da Igreja.

Com o fim do Império do Ocidente, a Igreja aparecia como o único elemento estável que assegurava a continuação da civilização. Os cristãos, antigamente perseguidos, agora desfrutavam de uma ótima reputação, motivada pelo conteúdo das mensagens evangélicas. A Igreja, que tinha resistido bravamente à invasão dos bárbaros, tratava de concentrar-se na conversão destes, que podiam ser divididos entre os já convertidos (sob a égide do arianismo) e os pagãos.

A queda do arianismo foi motivada pela hostilidade dos romanos para com os monges, pela pouca importância que o clero ariano conferia ao celibato, o baixo nível cultural deste clero aos olhos dos romanos e a divisão das igrejas arianas por nacionalidade (que beneficiavam-se do favoritismo político dos monarcas). Em geral, a conversão nos reinos bárbaros teve início com a aristocracia, ao contrário do sucedido anteriormente com o Império Romano, que presenciou a conquista do cristianismo, primeiramente, através da população humilde.

Táticas especiais foram utilizadas na conversão dos bárbaros. Os templos pagãos foram adaptados e transformados em igrejas, e os ídolos ali adorados deram lugar a relíquias próprias da Igreja. As festividades pagãs foram adaptadas às comemorações cristãs. Aos poucos a Igreja passou a exercer influência sobre o Estado e se tornou responsável pela contratação de artistas, construtores, carpinteiros, vitralistas, pintores e escultores.

por
Carla Damasceno
em setembro de 2006

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