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Como um verbete de dicionário, reuni sob o termo "gótico" todas as concepções artísticas errôneas que tinham chegado até mim, quer de indefinido, de imoderado, de artificial, de improvisado, de enfeitado, ou de supérfluo. Com a mesma cultura que a de um povo que chama tudo que provém do estrangeiro de "bárbaro", tudo o que não se encaixava no meu sistema era "gótico". - Johann Wolfgang von Goethe, Da arquitetura alemã. Rumo ao sul A palavra Gotar, antigo título escandinavo dado a heróis de guerra, deu nome a uma tribo da ilha Götaland, na Suécia. Segundo lendas da Era do Bronze, os Gotars descendem do deus Gaut, um ancestral mítico, que se enforcou numa árvore por nove noites, descobrindo as runas (mistérios) do mundo nos domínios da morte. Tido como um dos vários nomes de Odin, algumas teorias defendem que Gaut significa "aquele de Götaland", mas algumas publicações como o Edda-dictionary o contextualizam na mitologia nórdica, traduzindo-no como "eleito a ser sacrificado". Parte desta tribo belicosa rumou ao sul e desembarcou no litoral alemão, estabelecendo-se posteriormente nas redondezas do Mar Negro como uma confederação de tribos germânicas, os Godos (que reuniam as tribos Gotar, Ýtas e Gutar, entre outras), unidos pela religião. Entretanto, as investidas dos Hunos os dividem entre os que se concentram na Ucrânia (Ostrogodos - "Godos do Leste") e os que buscam proteção nas montanhas da Transilvânia (Visigodos - "Godos do Oeste"). Em 375, os Hunos subjugam os guerreiros Ostrogodos, que, escravizados, engrossam os exércitos inimigos como mercenários. Visigodos | |
![]() Pedra ritualística em homenagem a Gaut, em Lärbro, Götaland | Por sua vez, os visigodos continuam a penetrar no continente, sofrendo profundos choques culturais conforme se deslocam. Ao migrarem para o Oeste, enviam embaixadores à Romênia esperançosos de se anexar ao Império Romano. Propunham, caso obtivessem razoável porção de terra, converter-se ao cristianismo e se submeter às ordens do Imperador Valens, que prontamente os aceitou. Entretanto, receberam terras estratégicas, que os transformariam num escudo vivo contra a invasão de outros povos.
Conforme previsto pelo acordo, o bispo visigodo Ulfilas inventa um alfabeto próprio com base nos caracteres gregos e latinos, fazendo com que o gótico se torne a primeira língua germânica possível de ser lida e escrita. A Bíblia é imediatamente traduzida, mas o cristianismo pregado aos visigodos incute no Arianismo, uma heresia cristã do século IV que racionalizava alguns aspectos do Novo Testamento ao negar, por exemplo, a natureza divina de Jesus. Convertidos, cerca de duzentos mil visigodos cruzam o Danúbio e se deparam com preços e impostos opressores. Rapidamente endividada, a maior parte dos bárbaros se vê obrigada a comprar em mercados insalubres, onde mal podem pagar pela carne dos cães que morriam adoecidos... Cadavera Vero Innumera Agravando a situação, os refugiados não obtém nenhuma autonomia política e passam a atrair preconceito por suas singularidades religiosas e lingüísticas. Os mercadores passam a exigir os filhos dos endividados como pagamento, destinando as crianças à escravidão. O general romano Lupicinius convida Fritigern, um líder visigodo, para que tentem encontrar uma solução ao impasse. Era uma cilada. Fritigern escapa ileso e incita seu povo a reagir. Famintos e desmoralizados, os Visigodos vislumbram uma chance de recuperar sua dignidade e, em 378, preferindo morrer em combate a sucumbir à fome, matam Lupicinius e todo seu exército. Roma envia reforços, mas os bárbaros invadem, saqueiam e incendeiam a cidade de Adrianópolis (matando o Imperador Valens), numa das piores derrotas da história do Império. Theodosius, que assume o leste europeu após a morte de Valens, articula acordos com os Visigodos e lhes concede privilégios fiscais que asseguram uma convivência mutuamente proveitosa. Ambos os lados estreitavam laços de lealdade, mas os sucessores de Theodosius sinalizam mudanças e cancelam as isenções que viabilizavam a paz. Surpreendidos, os Visigodos elegem Alarico seu novo rei, na urgência de assegurar a solidez de seu recém conquistado reino. Treinado pelas tropas romanas, Alarico escolhe a Itália como local de implantação de seu reino. Preperando-se, seu exército começa a pilhar cidades gregas pelo caminho, conseguindo mantimentos e escravos. Humilhados, os romanos são tomados por um forte racismo anti-germânico e massacram famílias inocentes de Ostrogodos que lutavam em seus próprios exércitos. Foi o suficiente para que - após décadas de separação - os mercenários enfurecidos se unissem aos Visigodos que, fortalecidos, derrubam várias outras cidades. A ousadia maior data de 410, ano em que invadiram, pilharam e depredaram nada menos que Roma, a opulenta capital. Esta apunhalada no orgulho romano foi apenas uma das diversas amostras da vulnerabilidade em que se encontrava seu extenso e frágil Império. Após o traumático saque, os visigodos absorveram outras tribos e culturas, fixando um reino católico que se estendia do norte da Itália ao noroeste da Espanha. Os Ostrogodos conquistaram sua independência em 454, através das conquistas de Teodorico-o-Grande. Quando o Império ruiu, em 476, o rei Visigodo Odoacro reivindicou a Itália e seu reino continuou se expandindo até ser finalmente desmantelado na conquista da Península Ibérica pelos Mouros, em 711. Idade das Trevas Em 395, Constantino muda a capital de Roma para Constantinopla - o marco que separa a Antigüidade da Idade Média. A lenta queda do Império Romano engendra profundas transformações, o modo de vida germânico se mescla ao dos derrotados, mas suas culturas são tão diferentes que a herança greco-romana é prontamente descartada, permanecendo praticamente esquecida por mais de três séculos. Superstições passam a influenciar as leis e as relações sociais refletem os diversos tipos de pactos dos germânicos. Fatiado em vários reinos pelos invasores, o continente europeu tem suas rotas comerciais estranguladas pelas fronteiras. Como o dinheiro não circula, a propriedade agrícola volta a ser a base da produção, obrigando a população urbana a se espalhar pelo campo. As cidades minguam e a sociedade medieval se reorganiza ao redor dos latifundiários, iniciando o que seria conhecido como Senhorialismo. Limitando sua soberania apenas às suas terras, os reis estabelecem relações de lealdade com os senhores feudais. Ao ceder terras e títulos de nobreza, os reis obtêm o apoio militar destes proprietários-patriarcas que, por sua vez, exercem cada vez mais poder em seus territórios. As conseqüências da ruralização sobre a cultura foram devastadoras. O baixo povoamento das áreas rurais inviabiliza a educação e a Europa mergulha num analfabetismo quase absoluto. Na arte, há o predomínio das tradições bárbaras, cuja produção é, devido ao caráter nômade das tribos, estritamente ornamental, limitando-se geralmente a pequenos objetos como pingentes, brincos, pulseiras e colares. No século VII, o único foco de preservação e transmissão da cultura clássica era a Igreja. As escolas para a formação do clero - as únicas instituições educacionais da época - eram muito procuradas pelas famílias aristocráticas. Assim, os descendentes dos bárbaros são progressivamente convertidos ao catolicismo e a Igreja passa a desempenhar um papel crucial na sociedade, influenciando até mesmo as decisões do Estado. "Gótico" (Relativo aos Godos)
Destrua o ídolo. Purifique os templos com água benta. Espalhe relíquias por lá e deixe que eles se tornem templos do verdadeiro Deus. Assim, as pessoas não terão a necessidade de mudar seus locais de celebração. Deixe-os continuar a peregrinar para onde eles sacrificavam seu gado aos demônios, pois no dia do santo ao qual a Igreja for dedicada, eles matarão seus animais não mais como um sacrifício, mas como uma refeição social em honra à Aquele que agora veneram. - Instruções do Papa Gregório VIII, século XII. Assistir as construções e monumentos greco-romanos serem destruídos por estrangeiros traumatizou a tal ponto o imaginário italiano que a consciência da Queda do Império foi transmitida através das gerações com requintes de amargura. Mais tarde, no Renascimento do século XVI, a palavra godo se torna uma generalização que resume a idéia do "inculto que desrespeita a arte clássica". É nesta época e contexto que surge um novo conceito de "arte gótica". Inicialmente usada como "arte própria dos godos", a expressão se torna uma classificação cunhada para depreciar o valor da arte cristã produzida entre o séc. XII e XVI, época em que a Igreja adotara a estratégia de absorver as estéticas pré-cristãs dos locais onde se instalaria, incluindo até mesmo arabescos e referências pagãs em sua arquitetura. Assim como os godos (cristãos hereges) invadiram Roma (cristãos católicos), esta arquitetura cristã "impura" - com suas ogivas, gárgulas, vitrais e filigranas - predominou sobre a arquitetura românica, que seguia à risca os padrões clássicos. Desta forma, mesmo tendo gerado manifestações multiformes nestes quase quatro séculos de duração, estes estilos divergiram tanto da "norma" italiana que renascentistas como Giorgio Vasari e Raffaello Sanzio, com a intenção de conferir-lhes uma aura de vulgaridade, agruparam-nos todos sob um termo pejorativo e xenófobo: "gótico". O que eles não sabiam é que, ao batizar assim tudo o que se opunha ao clássico, eles haviam outorgado uma coesão ao caos obscurantista medieval que, de outra forma (sendo encarado de maneira fragmentária), dificilmente teria o peso que adquiriu como oposição ao equilíbrio estético clássico. Isto logo viria a ser comprovado. Assim como os artistas italianos repudiaram a Idade Média com um Renascimento Clássico no século XVI, a aristocracia inglesa repudiou o Iluminismo com um Renascimento Gótico no século XVIII... |
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