Iluminuras e miniaturas

A arte de desenhar em manuscritos

Durante a Idade Média, os ensinamentos cristãos, propagados em diversos detalhes das catedrais góticas, sobretudo nos vitrais, eram também marcados (literalmente) em folhas de papel. É possível comparar as paredes translúcidas às miniaturas e iluminuras dos manuscritos medievais que, delimitados em um período que se estendeu por volta do ano 500 a 1500, traziam freqüentemente referências às cenas bíblicas, além de temas profanos.

Salvo a transparência, que é uma qualidade própria do vidro, não há como negar o parentesco entre as miniaturas e os vitrais. Enquanto aquela arte, que englobou desde os primeiros conventos até a invenção da imprensa, constitui vitrais opacos, que refletem a luz em lugar de refratá-la, as paredes translúcidas não passavam de miniaturas em vidro. Esta relação era evidenciada pelo fato de que alguns artistas pintavam em vidro e em pergaminho, conforme provam as composições idênticas encontradas em manuscritos e vidraçarias, que inclusive apresentavam as mesmas personagens.


Grandes Crônicas da França. La vision de l'archevêque Turpin. Iluminura. Anterior a 1380. Biblioteca Nacional de Paris.
Aparentemente, os termos "miniatura" e "iluminura" são sinônimos. No entanto, há diferenças entre esses tipos de ilustração. A primeira é considerada uma técnica mais restrita em comparação à segunda e caracteriza-se por ornamentos simples e letras de fantasia, desenhados com tinta vermelha composta de mínio e cinábrio. Já a iluminura apresenta uma maior variedade de cores e não admite sombra, mas gradações de cor.

As influências bizantinas, verificadas nos vitrais, também se faziam presentes na ornamentação dos manuscritos. Tal herança era evidenciada entre os crisógrafos, artistas que empregavam letras de ouro nas ilustrações mais luxuosas. A cor vermelha, amplamente empregada inicialmente nas miniaturas, foi paulatinamente substituída pelo azul claro e tonalidades prateadas e douradas.


Psautier de Saint Louis. Hospitalidade de Abraham. Iluminura do ano de 1256. Paris, Biblioteca Nacional.
No período românico, os livros contendo manuscritos eram geralmente consumidos entre as comunidades religiosas e, no período das catedrais góticas, foram difundidos entre a realeza e a burguesia. Os saltérios, que contêm salmos das escrituras, e os livros de horas, que trazem orações, exemplificavam a bibliofilia cultivada entre estas classes sociais. Havia ainda as Bíblias moralizadas, que continham passagens dos Testamentos, sendo que algumas eram executadas por oficinas de miniaturistas especializadas nesta modalidade artística.

Wilson Martins, em seu A Palavra Escrita: História do Livro, da Imprensa e da Biblioteca distingue duas fases na iluminura: inicialmente, tais desenhos passaram por uma fase gótica, caracterizada por arabescos, animais fantásticos, ausência de perspectiva e personagens alongados; e, posteriormente, um período renascentista.

As encadernações predominantes eram de ourivesaria e couro, que contava com três subdivisões: couro liso, gravado e estampado a frio. A encadernação de ourivessaria, outra influência direta da arte bizantina, era geralmente destinada ao uso litúrgico e enfeitada com marfim, prata, ouro, pedras preciosas, pérolas e esmalte pintado.

A partir do século XIV, as encadernações de livros religiosos eram predominantemente em estilo gótico. Cobertas inteiramente por couro ou veludo e adornadas com motivos de animais fantásticos, anjos e cavaleiros, seus vértices eram protegidos com cantoneiras de metal. O uso do couro e das gravuras douradas e prateadas já era comum entre os árabes.

por
Carla Damasceno
em setembro de 2006

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