Filhos de Gaut

A mitologia nórdica e os godos

As raízes do termo gótico estabelecem conexões entre a Mitologia Escandinava, a História dos Reinos Bárbaros, da Alemanha e demais países da Europa ocidental e oriental. Inicialmente, gótico era relativo aos godos, uma confederação de tribos germânicas (que reuniam os gotar, ýtas e gutar, dentre outras) unidas pela religião e que, conforme será visto mais adiante, invadiram o Império Romano em seus turbulentos anos de decadência, por volta dos séculos III-IV d.C. É importante ressaltar que não apenas os godos, mas diversas tribos bárbaras, germânicas ou não, contribuíram para o advento da Idade Média. Também merecem destaque os francos, lombardos e suevos (germanos ocidentais); os burgúndios e vândalos que, assim como os godos, eram germanos orientais; além dos celtas e dos hunos (povos não germânicos).

Nos séculos que antecederam à conversão dos pagãos ao Cristianismo, os germânicos formavam povos que tinham se erradicado ao sul da Escandinávia, nas ilhas do Báltico, na Jutlândia e nas planícies da Alemanha do Norte. Por volta dos séculos XV-X a.C., esses povos falavam uma língua comum do tronco indo-europeu, atualmente desconhecida. Apesar de unidos pela mesma língua (ao menos no começo), usos e costumes, os germanos hostilizavam-se mutuamente e assim separaram-se cada vez mais. Esta segmentação resultou no surgimento de grupos étnicos com línguas e costumes diversos.


Mapa latino de Götland: Gothia e Mare Gothicum
Dentre estas tribos germânicas, os godos derivaram do termo gotar, antigo título escandinavo dado a heróis de guerra, que deu nome a uma tribo da ilha de Götaland, localizada na Suécia, e que foi célebre entreposto comercial entre a Escandinávia, a Germânia e a Europa Oriental. Os Gotars, assim como as demais tribos germânicas, viviam sob o domínio de chefes aristocráticos, sustentavam altos ideais de coragem no campo de batalha e eram regidos por leis consuetudinárias, pois acreditavam que estas tinham sido promulgadas pelos deuses.

Apesar de comumente relacionada às crenças dos Vikings, a mitologia escandinava engloba um período muito anterior ao surgimento destes. O início situa-se possivelmente na Idade do Bronze escandinava, que subsistiu por mais de um milhar de anos, desde cerca de 1600 até 450 a.C. Na Idade do Bronze surgiram as primeiras representações de divindades e os vestígios de vários rituais.

Outra confusão evidencia-se na comum associação de Thor, deus do trovão, a Odin. A influência de Thor, considerado filho de Odin e antigamente chamado de Thunor, estabeleceu-se quando o culto a Odin decaiu, especialmente na Escandinávia Ocidental. O culto de Thor floresceu da Idade Viking até a conversão ao Cristianismo.

Os Gotars, em específico, acreditavam descender do deus Gaut, um dos vários nomes de Odin, considerado a figura mais antiga desta Mitologia. Odin era o deus da magia, da poesia e da guerra, particularmente para os germanos do Oeste, para os quais se chamava Wotan. Seu culto estendia-se da Germânia inferior até a Dinamarca e Escandinávia.

Estas referências a Gaut e seus sinônimos aparecem claramente nos Eddas, coleções de tradições que abrangem a Mitologia Escandinava. Davidson, em seu Escandinávia (Lisboa, São Paulo: Editorial Verbo, 1982, p. 11 e p. 13) também considera que a Prosa Edda, escrita por volta do ano 1220, pelo poeta, historiador e político Snourri Sturluson, é a mais fiel quando confrontada com a poesia original descoberta na Islândia, no século XVII. Já Young, em The Prose Edda of Snorri Sturluson (Berkeley: University of California Press, 195, p. 49) apresenta, na tradução da poesia de Snorri Sturluson, Odin como o Pai de Todos, por ser considerado pai de todos os deuses. A Prosa Edda apresenta os diferentes nomes do de Odin:

"Eu sou chamado de Grím E Gangleri, Herjan, Hjálmberi, Thekk, Thridi, Thud, Ud, Helblindi, Hár, Sad, Svipall, Sanngetall, Herteit, Hnikar, Bileyg, Báleyg, Bölverk, Fjölnir, Grímnir, Glapsvid, Fjölsvid, Sídhött, Sídskegg, Sigföd, Hnikud, Allföd, Atríd, Farmatýr, Óski, Ómi, Jafnhár, Biflindi, Göndlir, Hárbard, Svidur, Svidrir, Jálk, Kjalar, Vidur, Thrór, Ygg, Thund, Vak, Skilving, Váfud, Hroptatýr, Gaut (grifo meu), Veratýr."

Os godos também idolatravam Zio (Ziu), deus da guerra que recebia sacrifícios e era conhecido em épocas remotas como o senhor da vida e da morte. Outro nome para Zio é Irmim, palavra que significa conde.


Fíbula em forma de águia
Os Eddas escritos por Sturluson não são as únicas fontes de conhecimento dos mitos escandinavos. A fim de melhor entendê-los, é importante lembrar as principais fontes para o estudo da mitologia nórdica. Estas histórias chegaram ao mundo contemporâneo através de escritores cristãos e os únicos escritos deixados por pagãos são encontrados em pequenas inscrições rúnicas sobre madeira, osso, pedra ou metal em linguagem codificada, o que torna sua interpretação extremamente difícil - particularmente quando se trata de feitiços, maldições ou alusões a seres míticos.

O primeiro escritor a recolher e a registrar as lendas escandinavas foi o dinamarquês Saxo Grammaticus, historiador eclesiástico do século XII. Apesar de Grammaticus apresentar um relato indignado com o conteúdo destas lendas, muitas foram preservadas devido à meticulosidade de sua escrita. O segundo escritor dos Eddas, o já mencionado Snorri Sturluson, redigiu sua prosa Edda com o objetivo de produzir um manual para uso dos poetas, a fim de propiciar a estes o uso correto das alusões aos mitos.

A maior parte dos poemas mitológicos originais encontra-se em um manuscrito chamado Codex Regius, conhecido como o Antigo ou Edda Poetica. Pesquisas arqueológicas na ilha báltica de Götaland, fonte inesgotável sobre o simbolismo religioso desses povos em razão de sua rica coleção de pedras monumentais pagãs, também fornecem contribuições ao conhecimento da mitologia nórdica.

O culto ao deus Gaut, também conhecido como Wodan ou Odin, era caracterizado por oferendas, na forma de sacrifícios de seres humanos, conforme várias tradições pagãs da Antigüidade. Há histórias sobre reis que fizeram pactos com o deus oferecendo-lhe os inimigos mortos nas batalhas. Os rituais sacrificiais eram predominantemente manifestados através de enforcamentos. As vítimas eram, ao mesmo tempo, trespassadas por uma lança e dependuradas nas árvores. Quase sempre, os cativos de guerra tinham este destino.

Nas lendas escandinavas, Odin era sempre descrito com dois lobos, águias e dois corvos ao seu lado. Dizia-se que os corvos, denominados pensamento e memória, o mantinham informado sobre os acontecimentos da humanidade. Os fiéis de Odin consideravam o olhar do corvo como um sinal de bom agouro. Diversas lendas mencionam amuletos mágicos, que asseguravam vitória nas batalhas, com imagens de corvos.

Quanto ao simbolismo das águias, curiosamente foram encontrados, por todo o mundo germânico, broches figurando o pássaro. As cenas gravadas nas pedras de Götalândia também fazem menção as Valquírias, tidas como mensageiras de Odin e encarregadas de escoltar para o Valhala os guerreiros mortos. De acordo com as lendas, estes eram acolhidos com chifres que continham hidromel.

Os fiéis de Odin (Gaut) demonstravam uma atração especial por enfrentar a morte e um prazer violento quando se submetiam a ela por exigência divina. Exemplo deste comportamento encontrou-se no homem de Tollund, Dinamarca, cuja face tranqüila reflete resignação perante a morte.

Os sacrifícios deviam ser baseados na mitologia, pois, de acordo com as lendas, Odin se enforcou durante nove dias e nove noites na Árvore do Mundo (Yggdrasil), além de ser trespassado por uma lança. Entretanto, mesmo amarrado conseguiu traçar as runas mágicas que transmitiam aos homens os conhecimentos secretos. Devido a este contato com as runas (derivadas de uma antiga palavra, norrers, que significa segredo), Odin também é considerado o padroeiro dos adivinhos e só tinham acesso a elas os iniciados no culto divino.

De acordo com os mitos escandinavos os deuses reuniam-se à sombra de Yggdrasil para discutir resoluções adequadas aos problemas dos humanos. Portanto, não é por mero acaso que os chefes dos povos germânicos tinham suas assembléias ao pé de uma árvore.

por
Carla Damasceno
em setembro de 2006

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