Arquitetura gótica

A representação da realidade espiritual

Na História da Arte, o período conhecido como Gótico diz respeito às manifestações arquitetônicas e plásticas (pintura, escultura, iluminura, dentre outras) do período que vai do século XII até as primeiras décadas do século XVI. Em virtude de sua ousadia e por ser fruto de um período de apogeu da Idade Média, a maioria dos leigos imagina que a Arte Medieval é sinônimo de arquitetura gótica. As artes bizantina e românica são freqüentemente esquecidas, em razão da espetacularidade própria do gótico.

Durante os anos de desenvolvimento do estilo arquitetônico e artístico conhecido atualmente como gótico, a denominação não existia e foi criada pelos renascentistas, que consideravam a Idade Média uma época bárbara. A expressão "arte gótica" era pejorativa, uma alusão aos godos que, dentre as tribos invasoras, eram os mais conhecidos.

Os limites cronológicos da arte bárbara situam-se entre os séculos V e VIII e fazem parte de suas influências a arte germânica da Idade do Bronze, a arte céltica da Idade de La Tène e a arte paleocristã. A partir do Bronze Médio, a arte germânica apresentava características uniformes, percebidas em manifestações artísticas próprias da ornamentação, sobretudo quando aliadas ao uso individual: instrumentos musicais, enfeites femininos, jóias, armas, vasos e sepulturas.

Não havia, entre as tribos germânicas, artesãos especializados; a maior parte destes ofícios era praticada como trabalho doméstico e não recorriam às representações plásticas naturalistas da figura humana. A arquitetura também não era privilegiada pelos invasores, devido ao seminomadismo destes povos. Enquanto a arte romana era inspirada pelo ideal do Estado, a arte bárbara era individualista.

Os visigodos empregavam incrustações policrômicas em metais, sobretudo em produções de caráter ornamental. Arnold Hauser, em seu Historia Social de La Literatura y El Arte (1969, p. 192) estabelece ligações entre a arte dos povos germânicos e a futura arte gótica: conforme o autor, há um "goticismo secreto" comum às duas modalidades artísticas, que consiste na tensão de um jogo abstrato de forças. Os artistas visigodos trabalhavam o metal e a madeira com motivos geométricos. Os desenhos representavam triângulos e círculos trançados.

No entanto, além da influência visigoda citada por Hauser, a arte sofreu as conseqüências de uma série de invasões, sobretudo na França, onde a História está ligada a grandes movimentos migratórios: visigodos, francos, celtas, normandos, árabes, invasões pacíficas dos comerciantes sírios, constituição do império carolíngio, dentre outros. Os povos germânicos já traziam consigo técnicas dos povos nômades da Ásia oriental e central, como os citas, sármatas e hunos.

Muito antes do aparecimento das catedrais góticas, os primeiros templos cristãos, surgidos por volta do ano de 391, concorriam com as religiões pagãs. A arte paleocristã, um misto das artes oriental e greco-romana, surgiu quando os cristãos ainda sofriam perseguições violentas. Os primeiros artistas, acostumados às figuras extremamente reais da arte greco-romana, impressionaram-se com a religiosidade característica da arte oriental. Os ícones, por exemplo, que sempre ocuparam lugar de destaque na arte religiosa, derivam dos retratos funerários egípcios.

A arte da Renascença Carolíngia também legaria algumas influências. Ao contrário do que a classificação sugere, a mesma não representou um recomeço strictu sensum, pois a valorização da arte romana devia estar atrelada ao cristianismo. Carlos Magno preocupou-se com o desenvolvimento da arte sacra a fim de que esta, por meio do luxo, encantasse os povos pagãos. Assim, a época carolíngia presenciou a multiplicação de altares e criptas para o culto de relíquias.

A cultura greco-romana, modelo para as oficinas da corte de Carlos Magno, impulsionou um novo estilo arquitetônico denominado como românico, devido à semelhança com as construções da Roma Antiga. As principais características da arquitetura românica são as abóbadas, os pilares maciços que as sustentam e as paredes espessas com aberturas estreitas usadas como janelas.

A arquitetura gótica espalha-se da Irlanda ao Oriente Próximo


Abadia de Saint-Denis (1140-1281)
O período denominado como gótico na História da Arte originou-se na Île-de-France e estendeu-se por toda a Europa: da Península Ibérica à Escandinávia, passando pela Irlanda, pelas ilhas de Chipre e Rodes até o Oriente Próximo. A arquitetura que veio a ser designada como "gótica" a partir da Renascença apresentou características peculiares em cada país europeu, ao longo de seus quatro séculos de duração.

As influências românicas fizeram-se presentes até mesmo na apropriação de termos usados pelos arquitetos românicos: abóbada, tímpano, arcos, entre outros. No entanto, foram combinadas em uma nova ordem, ou seja, em um proveito inédito do espaço. A catedral de Milão afastava-se da tradição clássica favorecida ao Sul da Europa, sobretudo na Itália.

A abóbada adotada na arquitetura gótica, e que constitui a característica principal deste estilo de construção, é a de nervuras. Esta difere da abóbada de arestas românica por deixar visíveis os arcos que compõem a estrutura. O arco ogival, diferente do arco pleno românico, permitia a construção desse novo tipo de abóbada e também de igrejas mais altas. As ogivas acentuam a impressão de altura e verticalidade.

Durante o século XII, apesar de ainda predominar a arquitetura românica, surgiram as primeiras modificações arquitetônicas deste período. A abadia de Saint-Denis (São Dionísio), localizada na França e construída por volta de 1140-1281, é considerada o marco da construção gótica e possuidora de elementos que servirão como referência na classificação das demais construções deste estilo.

A arquitetura gótica não almejou a obscuridade. O uso da luz e a relação entre estrutura e aparência são únicos nesta arquitetura: se, na igreja românica, a luz contrasta com a substância táctil, sombria e pesada das paredes, na parede gótica a luz é filtrada através dela, permeando-a, absorvendo-a, transfigurando-a. A verticalidade é outra propriedade do estilo gótico, que propicia sensações de ausência gravitacional.


Visão interna da rosácea de Saint-Denis
Na fachada da abadia de Saint-Denis, os portais laterais eram continuados por torres. Acima dos frisos que emolduram o portal central há uma grande janela e, acima desta, outra chamada rosácea (grande janela circular enfeitada por vitrais), outro elemento característico destas construções. A cabeceira de Saint-Denis contava com pilares em sua construção, que consistem em suportes de apoio dispostos em espaços regulares. Com o novo recurso não eram mais necessárias as grossas paredes para sustentar a estrutura, o que garantiu maior leveza às construções.

A nave central era merecedora de grande atenção entre os planejadores destas construções, pois quanto maior a altura desta, mais intensa seria a luz interior que, combinada aos vitrais conferia iluminação uniforme a todo o ambiente. Os idealizadores das catedrais entendiam a luz como elemento místico. Desejosos em propiciar caráter divino às construções, os mestres-de-obras não tardaram em buscar incessantemente a substituição das paredes por vitrais.

As particularidades arquitetônicas do estilo gótico em cada país são evidenciadas nas classificações dos historiadores, que costumam dividir o gótico em três ciclos: inicial, quando se configurou o estilo; central, de expansão das formas góticas; e o final, dominado pelo gosto burguês.
Dentro desta classificação há ainda uma série de subdivisões em cada país, a fim de assinalar a evolução da arquitetura gótica: na França, arte gótica primitiva, clássica, radiante (rayonnant) e flamejante (flamboyant); na Inglaterra, o gótico primitivo (early English), ornamentado (decorated style) e perpendicular (perpendicular style); na Espanha: gótico primitivo e estilo isabelino.

Na França, a Catedral de Notre-Dame apresenta elementos característicos da primeira fase da arquitetura gótica. Foi construída por três corpos verticais separados por maciços contrafortes, sendo que há torres acima dos contrafortes laterais.

A tradição gótica ao Oeste e Sul da França não é tão notabilizada pelas influências da Ilê de France, mas sim orientais. No Oeste foi empregada a cúpula nervurada, importada da Espanha árabe, onde cobria os mirabs das mesquitas. A Catedral de Angers foi assim coberta em 1150.

A evolução dos rendilhados determina algumas etapas deste estilo, como o perpendicular e o flamejante. A arquitetura inicial apresentava janelas subdividas em duas lancetas, com estruturas geométricas simples acima das mesmas (rosácea ou trifólio). Mais adiante a estrutura atinge maior complexidade e os traços afinam-se. Ao final, a tendência é a substituição da simplicidade das formas geométricas por curvas que lembram chamas (daí a classificação: gótico flamejante).


Catedral de Colonia, Alemanha, iniciada em 1248.
A igreja de San Juan de los Reyes foi resultado da definição de um estilo tipicamente espanhol: o isabelino. São marcantes os adornos, que remetem à união de características árabes com a importação de elementos arquitetônicos nórdicos.

Já a Capela do King's College ilustra a sofisticação adquirida na construção das abóbadas de nervuras, apresentando abóbadas em leque, típicas do estilo perpendicular inglês do século XIV.

As últimas construções de estilo gótico (dentro do período cronológico estabelecido na História da Arte, pois adiante será abordado o revival neogótico dos séculos XVIII e XIX) datam aproximadamente dos séculos XIV, XV e início do XVI. Neste ciclo final estão incluídos, além das construções religiosas, os palácios urbanos.

A arquitetura civil gótica reflete a sociedade da época, quando a construção mais significativa era o palácio ou residência senhorial, que podia adquirir funções de fortaleza. Os castelos evoluíram bastante durante o período gótico, pois sua finalidade defensiva foi perdendo importância. Tais castelos caracterizavam-se pela presença de fossos em seu redor, muros sólidos e torres que propiciavam a vigília: tudo para garantir o resguardo de seus moradores.

Utensílios religiosos, como retábulos (peças com motivos religiosos de pintura, escultura ou ourivesaria, colocadas atrás do altar), cálices, cruzes, custódias e relicários, faziam parte do culto das relíquias, largamente apreciado durante a Idade Média. Os vitrais, paredes translúcidas compostas de vidros coloridos, além de decorarem majestosamente as igrejas, contribuíam com o ensinamento dos fiéis, através da representação de cenas bíblicas. A Sainte-Chapelle, obra prima do gótico radiante, ilustra a interdependência entre arte, ideologia e espiritualidade, conceitos que, somados, definem a arquitetura gótica.

por
Carla Damasceno
em setembro de 2006

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