Vampiros reais

Versões do vampiro

Começo com o depoimento de A.J., uma paulista com cerca de 30 anos.

Não sei se isso é genético, mas posso dizer que essa "particularidade" está presente na minha vida desde que me entendo por gente e, recentemente, "acordei" para isso (...). Comigo, tudo começou com o meu interesse a respeito do assunto. Eu, na época uma garota sem o menor discernimento, lia um monte de abobrinhas e não sabia no que confiar. Aos poucos, iniciei um projeto de auto-conhecimento extremamente traumático. Voltar-se a si e surpreender-se com a descoberta sempre machuca. Comecei a ter muitos sonhos estranhos e sabia que deveria prosseguir. Consegui manter a cabeça no lugar e perdi um pouco o medo do que estava por vir.

Comecei a conversar com algumas pessoas que eram como eu. Conheci algumas pessoalmente, mas eu ainda tinha medo de perder o controle. Era estranho pensar que, de repente, enxerguei-me como algo comumente desacreditado, apesar de as coisas que aconteciam comigo serem bem diferentes do que é narrado na ficção (...). Minha aceitação demorou bastante, e isso faz muito tempo (...).

Demorou, mas com o tempo aprendi a ser calma e a entender melhor o que é a "fome". Eu acordo, trabalho, volto para casa, durmo, e ela continua sempre lá, escondida dentro de mim, esperando a hora certa de se insurgir. Eu particularmente nunca precisei de muito sangue, minha necessidade é moderada. Aceitar a fome é torná-la menos assustadora. Aos poucos você aprende a controlá-la, como num regime.

Normalmente ela vem acompanhada de enxaquecas e mau humor. Neste caso, ocupo-me de algo que desvie minha atenção, pois assim não dou muita bola para os sintomas. Antigamente, queria viver sem isto, ser uma pessoa "normal". Eu me sentia mal de pensar que estaria me alimentando de alguém, mas hoje eu aceito sangue como quem aceita presentes. Prefiro, é claro, praticar isto com alguém que seja como eu, para que possamos doar um ao outro. Além de ser mais íntimo, é bem mais seguro.

Não gosto de variar doadores. Tenho um parceiro fixo com quem pratico isto. Não posso subestimar as muitas doenças transmissíveis; ainda que ingerir sangue represente o mesmo risco que sexo oral, nunca se sabe quando é que tiraremos a "sorte grande". Quando você toma sangue de alguém, você não está simplesmente bebendo um líquido vermelho e quente. Você está entrando em contato com a energia daquela pessoa e, bem ou mal, ela passa a viver dentro de você. Não quero este tipo de contato com estranhos; sou um tanto territorial.

Infelizmente, não vivemos num mar de rosas. Quando se fica com fome, seus sentidos ficam mais aguçados, barulhos altos irritam, o sol incomoda mais e você invariavelmente enxerga pessoas como frangos assados. Se fico muito tempo sem me valer de meu doador, fico tonta, tenho calafrios e sinto um grande vazio na barriga. A temperatura de meu corpo cai um pouco, minha pele fica mais gelada e fico muito irritada. Mas passa.

Não sei se conseguirei explicar o que acontece comigo quando ingiro sangue. Geralmente eu não necessito de muito para me satisfazer. Alguns mililitros já são suficientes. A sensação é muito reconfortante, um calor na garganta e na barriga, como se ele estivesse sendo absorvido assim que tomado. Sinto um grande bem-estar, acompanhado duma leveza e duma leve vertigem. Nunca me senti enjoada ou com ânsia nessas ocasiões. Muitas pessoas dizem que sangue não pode ser digerido, mas ele pode. Se você tomar muito e não estiver acostumado, vai se sentir mal e pode até vomitar; mas, feito da forma certa, isso não acontece.

(...)

O que sei é que faço isso e não me envergonho. Muitas vezes, esqueço-me destes detalhes do meu cotidiano, mas duma forma ou de outra eles acabam me mandando um recadinho. Não me alimento de sangue há muito tempo, estou numa espécie de abstinência voluntária. Ultimamente, não tenho condições de dar muita atenção a este aspecto de minha vida que anda dormente, esperando um pouquinho de calma para poder voltar a me incomodar. Tenho pontos de vista que podem ser considerados "anormais" pela sociedade, mas não sou nenhuma psicopata. Respeito muito as pessoas ao meu redor, e, da mesma forma, exijo respeito. E assim, cautelosamente, continuo vivendo.

(Publicado em “Laços Sanguíneos: A Atual Subcultura Vampírica”, de José Octavio Stevaux Galvão. In: Cid Vale Ferreira, org., Voivode. Estudos sobre os Vampiros. Jundiaí: Pandemonium, 2002, p. 111-113.)

Li esse depoimento em Voivode, uma coletânea de textos sobre vampiros, que reúne desde alguns documentos clássicos sobre o assunto, publicados no século XVIII, até uma análise sobre a voga vampírica entre os jovens de hoje, que nasce como uma ramificação dos movimentos gótico e dark na cultura do rock. Minha intenção inicial era desenvolver um pouco mais os argumentos que apresentei num artigo sobre Voivode, publicado no jornal Folha de S.Paulo, onde sou colaborador. Não imaginava a quantidade e a variedade dos estudos, de enfoque psicanalítico ou quase, que já foram publicados a respeito de vampiros e vampirismo; limito-me, usufruindo de um pouco mais de espaço do que aquele a que estou confinado nas páginas do jornal, a algumas perambulações em torno do assunto.

No depoimento de A.J., algumas coisas me chamaram a atenção. A sua descrição do "vampirismo real" apresenta óbvias semelhanças com as descrições que já conhecemos a respeito de outros tipos de comportamento, de queixa, de sintoma ou de descoberta interior. Várias passagens do texto – "não sei se é genético"... "aos poucos 'acordei' para isso"... "comecei a conversar com pessoas que eram como eu..." etc. – e o final – "não me envergonho do que faço... exijo respeito..." – poderiam, sem maiores adaptações, constar do depoimento de alguém que estivesse narrando o modo como se descobriu homossexual. As cautelas em torno de doenças sexualmente transmissíveis, a importância de evitar promiscuidade, de preferir um só "doador" de sangue, também vão nessa direção. Podemos ver, aliás, em sites especializados em vampirismo real – como o http://www.sanguinarius.org – que o vocabulário do grupo faz diversas menções, quando não os traduz diretamente, aos termos da cultura gay. Fala-se em "sair do caixão", como entre os gays "sair do armário", por exemplo; e embora o vampirismo real não pressuponha nenhuma relação sexual entre parceiros, o conjunto das práticas em que isto ocorre é chamado pela comunidade, num trocadilho irresistível, de "hemossexualidade".

Ao mesmo tempo, a descrição de A.J. se assemelha, em alguns momentos, à queixa de alguém que sofresse com a dependência química. Não apenas a ingestão de sangue lhe assegura momentos de "leveza e bem-estar", como também a abstinência prolongada – a "fome", segundo a terminologia do grupo – traz consigo irritabilidade, tontura, calafrios... Em outros relatos, resumidos no site acima citado, há o risco de que a fome ("the hunger") determine a eclosão da "besta" ("the beast"), que é como a comunidade descreve a propensão ao comportamento descontrolado, violento e mesmo criminoso: a forma, digamos, não-consensual do vampirismo. A semelhança da ingestão de sangue com a de drogas é, certamente, um tópico freqüente na literatura sobre vampiros. Situando-se em algum ponto entre a drogadição, os distúrbios alimentares, a tensão pré-menstrual e a preferência sexual não-ortodoxa, é como se ao comportamento de A.J. não correspondesse um discurso específico, identificável como tipicamente vampiresco. Uma passagem rápida pelos depoimentos registrados no sítio supracitado parece nos indicar a repetição das mesmas sensações, semelhantes a sintomas de uma doença física – hipótese que deveria, sem dúvida, ser levada em conta – mas indicadoras, sobretudo, da ausência de uma linguagem própria: é como se o seu discurso "vampirizasse" a fala de outras "minorias" e a descrição de outras sensações. É verdade que, num trecho do depoimento de A.J., ela declara: "pessoas como eu, não vou mentir, gostam bastante de morder", acrescentando "vai ver que não temos a fase oral muito desenvolvida". Mas em geral é mais prático, afirma, usar bisturis, seringas, artefatos para recolhimento de amostras de sangue. De modo que é apenas nesta curta menção ao "morder", logo reprimida por uma explicação psicanalítica, que algo específico do vampirismo poderia ser imaginado. Prazer despertado pelo pescoço, tipos de veias, sensação de dentes, nada disso parece estar necessariamente envolvido no caso, ou então trata-se de preferências que ainda não encontraram quem descrevesse em detalhe.

O discurso "vampirizado" – via apropriação do vocabulário gay ou da descrição da sintomatologia dos dependentes químicos – não necessariamente nos deve sugerir conclusões acerca da insinceridade, é claro, das pessoas que o proferem. Ao contrário, é um problema para o qual eu gostaria de apontar algumas idéias no final deste texto.

Antes disso, gostaria de indicar, para fins de contraste e aproximação, dois outros momentos do "vampirismo", duas outras "versões" anteriores da existência do vampiro enquanto fenômeno cultural, que precedem a atual voga entre os jovens.

Os relatos sobre aparição de vampiros em regiões da Sérvia, da Polônia e da Hungria, que se tornaram comuns na primeira metade do século XVIII, estão longe de apresentar pontos em comum com a imagem de sedução sexual e de elegância aristocrática que associamos à legenda atualmente. Estão muito mais relacionados com alimentação do que com sexo, com fome do que com sedução, com pobreza do que com sangue azul. Camponeses mortos subitamente voltam à casa de seus familiares, na hora do almoço por exemplo; atacam crianças ou adultos; seus cadáveres, uma vez exumados, mostram impressionantes sinais de vitalidade. Uma velhota ressequida e magra é encontrada gorda e corada em seu túmulo; os vampiros tendiam a comer as próprias vestes e a terra que os cobria, sendo uma das estratégias para combatê-los enterrar as pessoas com uma pedra na boca, funcionando como um tampão. No limite, o vampiro se perverteria em canibal. Sua terapia, como sabemos, é a exumação e destruição do cadáver, num segundo rito fúnebre.


Casal fotografado por Danielle Bedics
O século XIX é que sexualiza, por assim dizer, o vampiro – passo ao largo, aqui, das conhecidas relações entre romantismo e morte, assim como do bastante explorado paralelo entre a condição parasitária do vampiro e sua extração oligárquica. As leituras e interpretações dos clássicos da literatura sobre vampiros, como Drácula, de Bram Stoker, aliás me levaram a encarar com crescente modéstia esta comunicação. Há verdadeiros prodígios de engenhosidade crítica nos estudos que li a respeito, em geral inspirados pela escola dos "estudos culturais" americana. De Foucault a Marx, passando por Freud e pela teoria feminista, há possibilidades de ver em Drácula uma denúncia do imperialismo britânico e sua defesa, uma sutil apologia do homossexualismo masculino e uma reacionária repressão do mesmo; observo tudo isso sem ironia, porque de fato são extremamente convincentes a maior parte dos trabalhos que li.

Julguei possível, mas não neste curto espaço, avançar uma interpretação alternativa do romance: basta-me indicar que, na visita do protagonista Jonathan Harker ao castelo de Drácula, na primeira e melhor parte do livro, é da aventura de um rapaz casadoiro, de um profissional recém-chegado à vida adulta, que se trata. Não estando diretamente colocada a condição do adolescente no final do século XIX, chamo a atenção para o fato de que Harker é um jovem que se inicia nos mistérios da vida profissional e que está adiando, para o casamento, a consecução de seus desejos sexuais. Poderíamos dizer que, na figura do conde, Harker não enxerga nada mais do que a si próprio – atribuindo a outro os desejos dessa "besta" que irá desvirginar, numa noite de sangue, sua noiva. É essa situação "pré-adulta" do personagem que explica, a meu ver, a conhecida cena em que Harker, cortando-se enquanto se barbeia em presença do conde, só vê a si próprio no reflexo do espelho . É como se ficasse indicado que só ele estava no castelo; que Drácula apenas era projeção de seu desejo – como o será, mais tarde, com relação a todos os outros "homens de bem" reunidos em torno do especialista Van Helsing. Minha impressão, lendo o romance, é que sempre que estes manifestam inclinação pelas jovens personagens femininas do romance, é como se fosse dada a senha para um novo ataque de Drácula... Se aqui o paradigma é do desejo masculino recalcado (e, note-se, horrível, nojento, rastejante, pois o conde nada tinha de galã no romance de Stoker) não é de estranhar que ao longo do século XX, à medida que o sexo vai deixando de ser tabu, Drácula se torna mais e mais atraente e simpático, cabendo a seus adversários, mais e mais, o papel de vilões perversos do drama: estaqueadores de mulheres, fetichistas da transfusão de sangue, puritanos deslocados, cabe aos caça-vampiros o papel de inimigos do sexo romântico e dos agora lícitos frenesis da carne exposta.

Passamos resumidamente, assim, de um paradigma em que o vampiro vinha a ser como que a encarnação da fome, para outro, em que estava em jogo o desejo sexual; de um paradigma em que a forma da narrativa do caso vampiresco era a lenda/o relatório policial, no século XVIII, para outro, em que a forma é a ficção – romanesca ou cinematográfica.

Na cultura do vampirismo atual, parece estar em jogo um terceiro paradigma, em que a lenda e ficção foram substituídas, na melhor das hipóteses, pela prática dos "role playing games"; mais provavelmente, caberia dizer que a ficção cede lugar a uma espécie de auto-ficcionalização, ou de encenação prática, no mundo real: a pessoa se acredita vampira e leva uma vida condizente com isso. A que novo impulso isso estaria respondendo? Não posso mais do que sugerir uma rápida hipótese. Em vez de fome ou desejo sexual, penso que se trata agora de uma necessidade de reconhecimento. É como se nos dias de hoje, fosse o próprio Harker o personagem incapaz de ter reflexo no espelho; precisa de um papel, precisa tornar-se um Drácula, por exemplo, para encontrar sua identidade. Nesse caso, qualquer identidade parece servir: fico pensando se determinadas perversões, hoje celebradas à luz do dia, não se tornaram antes estratégias de identidade e diferenciação, estratégias de visibilidade e de convívio em grupo, mais do que respostas à particularidade do desenvolvimento sexual de cada um. Uma espécie de "pseudo-perversão" inócua seria a marca da sexualidade não mais reprimida, não mais secreta, da nossa situação pós-moderna. De alguma forma, trata-se de escavar mais fundo, em busca de segredos mais sombrios que os do desejo sexual, do homoerotismo ou do sadomasoquismo...


Vampirista moderna em Londres
No caso do vampirismo real, termino com uma sugestão ainda um pouco mais arriscada – porque se trata de transpassar o umbral da teoria psicanalítica propriamente dita – inspirando-me nas idéias de Nicolas Abraham e Maria Torok a respeito da "incorporação" do objeto perdido numa "cripta intrapsíquica". Incapaz de passar pelo processo de luto, porque seu amor pelo objeto perdido era inconfessável, o sujeito "engole" e "preserva", intacto e vivo, o ser amado numa cripta:

A incorporação resulta daquelas perdas que por alguma razão não podem ser reconhecidas como tais. Nesses casos especiais a impossibilidade de introjeção é tão profunda que mesmo nossa recusa a vivenciar o processo de luto está proibida de receber uma linguagem, de modo que estamos impedidos de oferecer qualquer indicação de que estamos inconsoláveis. Sem a válvula de escape de algo que comunicasse nossa recusa de viver o luto, somos reduzidos a uma negação radical da perda, fingindo que não havia absolutamente nada a perder. As palavras que não podem ser pronunciadas, as cenas que não podem ser rememoradas, as lágrimas que não podem ser derramadas – tudo terá de ser engolido juntamente com o trauma que levou à perda. Engolido e preservado. O luto inexprimível erige uma tumba secreta dentro do sujeito. Reconstituído a partir das memórias de palavras, cenas, e afetos, o correlativo objetal da perda é enterrado vivo na cripta como uma pessoa perfeitamente desenvolvida, completa, com sua própria topografia. (...) Um mundo inteiro de fantasia inconsciente é criado, levando sua existência separada e escondida. Algumas vezes, nas altas horas da noite (...) o fantasma da cripta volta para assombrar o guarda do cemitério, transmitindo-lhe estranhos e incompreensíveis sinais, fazendo-o desempenhar atos bizarros, ou sujeitando-o a sensações inesperadas.

("Mourning or Melancholia", in The Shell and the Kernel. Editado e traduzido por Nicolas Rand. Chicago e Londres: The University of Chicago Press, 1994, vol. 1, p. 130.)

É como se o vampirismo real se encarregasse, por seu turno, de explicitar sem grande surpresa as entrelinhas desse texto de Abraham e Torok. O vampiro – que era uma metáfora mais ou menos implícita (encriptada?) nesse artigo – vem à tona nos relatos como de A.J. e nos sites de vampirismo real. Minha sugestão é que isso se torna possível no caso de "vampiros reais" como A.J. porque aquela cripta, onde deveria estar preservado o objeto perdido, estava na verdade vazia. A vontade de ser vampiro é de preenchê-la, é de tornar-se a si mesmo um cadáver incorruptível, ou de criar um outro para consumo próprio... O objeto que se perdeu não é ninguém menos do que o próprio sujeito: e por isso A.J. dirá que, ao fim de um processo traumático de auto-conhecimento, "voltou-se para si mesma"... mas no sangue de outra pessoa é que se encontra alguém que "passa a viver dentro de você". Torna-se vampiro real, talvez, quem se defronta, ao abrir a cripta, não com o objeto perdido, mas com sua própria inexistência.

A "morte do sujeito" e as questões da "identidade" são, claro, temas bastante recorrentes nas discussões sobre o pós-moderno. Seria temerário prosseguir. Muitos dos riscos que assumi ao escrever este texto estarão, a esta altura, bastante claros para o leitor. Acrescento mais um, talvez o maior deles: o de encarar como "caso", a ser bem ou mal analisado, um comportamento que não necessariamente se coloca como problema ou como queixa para os que o adotam; e, para psicanalistas ou curiosos como eu, talvez também valha a antiga regra, de só aparecer quando convidado.


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Conexão Inválida