O sol e o vampiro

O vampiro mitológico e a luz solar nos últimos 300 anos

Nos livros VI e VII de A República, assume grande papel a Teoria das Idéias que, fundamental na epistemologia platônica, não pode ser dissociada de sua metafísica e ética. Dentro desse contexto, usa-se uma analogia segundo a qual o bem é, no mundo inteligível, em relação à inteligência e ao inteligível, "o mesmo que o Sol no mundo visível em relação à vista e o visível". Seguindo essa linha de pensamento, Aristóteles teceu uma analogia entre a dificuldade da pesquisa da verdade inerente ao ser humano e a natureza notívaga do morcego, pois "assim como os olhos dos morcegos reagem diante da luz do dia, assim também a inteligência que está em nossa alma se comporta diante das coisas que, por sua natureza, são as mais evidentes". Tais premissas tornaram-se a base da equação lógica que desembocou na associação dualista bem-luz-dia/mal-trevas-noite que, na Idade Média, deu asas de morcego ao Diabo e, em tempos mais recentes, condenou os vampiros literários a viver numa noite eterna.

Contudo, o processo de formação e transformação de mitos obedece aos padrões culturais de cada época e lugar, admitindo adições e extirpações de elementos a todo tempo. No século XIX, quando o Espiritismo ganhou impulso nos EUA e na Europa, era comum se dizer que o ectoplasma (substância que compõe o corpo de fantasmas e objetos materializados por médiuns) é sensível à luz forte. As pessoas realmente viam estes espíritos, sobretudo porque muitas vezes eles eram bonecos habilmente suspensos na escuridão. Porém, seja por fraude grosseira, truques de magia, efeito de sugestão ou algum evento miraculoso, o fato é que espíritos e médiuns atuaram o suficiente para atrair a atenção de pesquisadores renomados, como o professor de mecânica W. J. Crawford. Este escreveu sobre a materialização de "alavancas psíquicas" no chamado Círculo Goligher. Segundo Crawford, estas extensões saíam do corpo do médium como um braço mecânico e movimentavam objetos. Sobretudo, quanto menos luz houver, mais intensidade terá o fenômeno:

Cheguei à conclusão de que ela afeta a rigidez das hastes. (...) Não creio que a luz atue sobre as fibras da estrutura tanto quanto sobre a matéria intercalar que serve para enrijecê-la. Essa substância fria e viscosa talvez seja um composto químico complexo, pertencente aos elementos nervosos do corpo, dos quais a luz dissocia as moléculas. Temos razões de sobra para assim crer, visto que a experiência nos demonstra que a luz, cuja extensão de onda é grande, isto é, a luz vermelha, é a menos nociva. Nas sessões, é naturalmente necessário levar em consideração o reflexo, a refração e a absorção da luz empregada.


Katie King
Katie King, um dos espíritos mais famosos da literatura mediúnica, manifestou-se pela primeira vez em 22 de maio de 1872 através da médium Srta. Cook. No início, conseguia apenas assumir formas vagas; mas, com o tempo, Katie aprendeu a moldar um corpo. Com o passar do tempo as forças de Katie King aumentaram gradualmente enquanto a Sra. Cook, que antes permanecia quase sempre acordada, mostrava-se cada vez mais fraca. Por fim, o espírito não mais apareceu sem que a médium entrasse em estado de transe. De acordo com o registro da Sra. Florence Marryat, numa das sessões que ela testemunhou ocorrera o seguinte:

Perguntaram um dia a Katie King porque não podia mostrar-se sob uma luz mais forte. (Ela só permitia aceso um bico de gás e esse mesmo com a chama muito baixa). A pergunta pareceu aborrecê-la enormemente. Respondeu assim: "Já vos tenho declarado muitas vezes que não me é possível suportar a claridade de uma luz intensa. Não sei porque me é impossível; entretanto, se duvidais de minhas palavras, acendei todas as luzes e vereis o que acontecerá. Previno-vos, porém, de que, se me submeterem a essa prova, não mais poderei reaparecer diante de vós. Escolhei". As pessoas presentes se consultaram entre si e decidiram tentar a experiência, a fim de verem o que sucederia. Queríamos tirar definitivamente a limpo a questão de saber se uma iluminação mais forte embaraçaria o fenômeno de materialização. Katie teve aviso de nossa decisão e consentiu na experiência. Soubemos mais tarde que lhe havíamos causado grande sofrimento.
O espírito Katie se colocou de pé junto à parede e abriu os braços em cruz, aguardando a sua dissolução. Acenderam-se os três bicos de gás. (A sala media cerca de dezesseis pés quadrados). Foi extraordinário o efeito produzido sobre Katie King, que apenas por um instante resistiu à claridade. Vimo-la em seguida fundir-se como uma boneca de cera junto de ardentes chamas. Primeiro, apagaram-se os traços fisionômicos, que não mais se distinguiam. Os olhos enterraram-se nas órbitas, o nariz desapareceu, a testa como que entrou pela cabeça. Depois, todos os membros cederam e o corpo inteiro se achatou qual um edifício que se desmorona. Nada mais restava do que a cabeça sobre o tapete e, por fim, um pouco de pano branco que também desapareceu, como se houvessem puxado subitamente. Conservamo-nos alguns momentos com os olhos fitos no lugar onde Katie deixara de ser vista. Terminou assim aquela memorável sessão.


Pessoas que criticavam o espiritismo, apesar de dar um voto de confiança à autenticidade das materializações, chegaram a dizer que todos os espíritos invocados eram vampiros, pois subtraíam sua essência do corpo do médium. Os espíritas professavam a mesma coisa, a exemplo de uma experiência onde Crawford pediu aos "operadores" que extraíssem tanta matéria quanto lhes fosse possível do corpo de um médium imobilizado sobre uma balança, ao que o aparelho registrou a perda temporária de "um pouco mais de 24 quilos". Porém, estes criam que a doação ou empréstimo de material corporal com o consentimento do médium não se tratava de vampirismo.

Provavelmente, Bram Stoker estava ciente das teses que giravam em torno das experiências espíritas (ele conheceu pessoalmente César Lombroso e foi contemporâneo de muitos casos), mas escolheu não atribuir os mesmos ônus de um fantasma incorpóreo a um vampiro cujo corpo se mantém intacto. Bram Stoker imaginou vampiros que levavam vida noturna por hábito, mas que não sofriam nenhuma reação extraordinária devido ao contato com a luz solar. A prova disso está numa passagem do capítulo II, quando o Conde Drácula visita o quarto de Jonathan Harker pela manhã e saúda seu hospede com um enfático "bom dia". As reações do conde contra coisas que realmente lhe causam asco ou dor são sempre violentas. Porém, nesta ocasião ele parecia muito mais incomodado com o espelho de Jonathan do que com a janela usada para livrar-se do objeto, por onde presumivelmente entrava luz solar. No filme de Francis Ford Coppola, Drácula de Bram Stoker (1992), a capacidade de o conde agir durante o dia foi mantida, acrescentando-se apenas que "ao contrário de algumas crenças, o vampiro, como criatura noturna, pode mover-se durante o dia apesar de enfraquecer-se, pois este não é o seu período natural".


Nosferatu
Em Nosferatu - Uma Sinfonia do Horror (1922), de F.W. Murnau, o hoteleiro informa ao agente imobiliário Hutter que "os espíritos malignos são mais poderosos à noite" e, posteriormente, o próprio Conde Orlock ressalta que tem "o dia todo para repousar". Contudo, aqui pela primeira vez, encontraremos um vampiro sendo destruído pelo sol. A sentença do Livro dos Vampiros (obra fictícia citada durante o filme) revela: "Apenas uma mulher pode quebrar o encanto do vampiro. Uma mulher pura, que vai oferecer, de vontade própria, seu sangue ao Nosferatu, e mantê-lo a seu lado até o galo anunciar o amanhecer". Sabendo disso, a esposa da primeira vítima do conde abriu as janelas de seu quarto e ofereceu-se como sacrifício. O vampiro caiu na armadilha, passou a noite deliciando-se com o sangue de Ellen e perdeu a noção de tempo. Foi surpreendido pela aurora e os raios solares que entravam pela janela o reduziram a pó. "Naquele momento, como por um milagre, os enfermos não mais pereceram, e a sombra do vampiro sumiu com o sol da manhã".

Partindo daí, a maioria dos filmes, séries e quadrinhos adotaram a idéia de Murnau de que a exposição ao sol provoca efeitos que vão desde queimaduras graves, combustão espontânea e até explosão. Com o avanço nas técnicas de efeitos especiais o cinema os faria degradar de forma progressiva, como em A Hora do Espanto, onde o vampiro teve a infeliz idéia de pintar os vidros das janelas de sua casa de preto. Certo dia, impedido de repousar em seu caixão "das 6 manhã às 6 da tarde", terminou por morrer lenta e dolorosamente atingido pelos raios de sol que entravam pelas janelas quebradas uma a uma, seguindo-se então etapas que mostram seu derretimento da pele aos ossos. Alguns torturam vampiros cativos, como na descrição da contista e poetisa Ione França, em O Domador de Almas:

Este mesmo Assassino de Si Mesmo, ridículo, impunemente, obriga os olhos foragidos dos Vampiros Mais Solicitados do Mundo a conhecer o medo. Ele, o Assassino, amarra os Vampiros junto à porta principal da sua casa; a porta está fechada, mas tem frestas, ou melhor, rombos tão grandes que por elas o Sol, por qualquer descuido, poderá entrar. Vampiro não gosta de Sol, e o Sol sabe disso.

A ficção atribuiu ao processo de transformação uma espécie de Nictalopia (anomalia dos olhos, nos quais a visão, muito fraca durante o dia, aumenta notavelmente com o declínio da luz). Nos filmes Garotos Perdidos e A Hora do Espanto II, os semi-vampiros Michael e Charlie usam óculos escuros porque a luz solar incomoda seus olhos. Partindo do mesmo princípio, no ano de 1998 a empresa Bausch & Lomb lançou uma campanha publicitária para a venda de óculos escuros na qual, abaixo da foto de um casal de modelos que interpretam vampiros alegres por poderem ver o sol, lemos a chamada: "Proteção contra a Luminosidade: Autênticos óculos Ray-Ban. Superior proteção anti-reflexo. Perfeitos para quem adora o sol. E para quem quer se proteger dele". Nas séries Maldição Eterna, Buffy: A Caça Vampiros e Angel, vez por outra os "vampiros do bem" Nick Kinight, Angel e Spike precisam sair correndo embrulhados em colchas ou capotes que soltam alguma fumaça, algo já visto no filme Quando Chega a Escuridão. Em filmes como Blade os vilões simplesmente utilizam protetor solar. Assim, com a passagem do tempo, os vampiros inflamáveis começaram a buscar meios alternativos para sair ao sol e foram se reaproximando furtivamente da concepção de Bram Stoker.


Como em muitos casos os acessórios aderem à imagem que a mídia faz dos vampiros mesmo em ocasiões onde eles normalmente perderiam a utilidade ou função primordial, aqui e ali encontramos hematófagos passeando a noite com seus óculos escuros. O personagem apaixonado de Caetano Veloso, em "Vampiros", declara "eu uso óculos escuros / para as minhas lágrimas esconder" e, no conto de Ione França, os olhos dos Vampiros Mais Solicitados do Mundo "usam óculos escuros, que são um bom disfarce para as olheiras das noites não dormidas". O vampiro pós-moderno de João Penca e seus Miquinhos Amestrados, em "Suga-Suga", "vai à praia de bermuda e chinelo". E assim o rio desagua neste grande mar onde tudo se perde: modernidade, modismo, vida, morte. O novo modelo de vampiro se torna cada vez mais humano, compartilhando alegrias e problemas comuns. Ele não é mais um ser especial. Tornou-se indistinto da multidão.

por
Shirlei Massapust
em setembro de 2006

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