UK Decay

O punk gótico, hóspede inesperado

Em 1978, numa época em que apesar de tudo o punk ainda implicava autenticidade e atitude, um adolescente da cidade inglesa de Luton se descabelava em tentativas frustradas de aprender a tocar guitarra. Montar uma banda era preciso, urgentemente. Seu apelido era Abbo e, antes mesmo de dominar o primeiro riff, deparou-se com jovens que procuravam um baixista. Por mais que só arranhasse a guitarra e nunca tivesse sequer segurado um baixo, Abbo apresentou-se prontamente e, seja como tenha sido, ninguém estranhou sua inaptidão, o que não significa que fosse necessária muita técnica para que aquelas “barreiras ruidosas” fossem erguidas. Para termos um exemplo disso, basta lembrarmos que o primeiro show do Siouxsie and the Banshees foi, coincidentemente, seu primeiro ensaio sério.

A banda logo ruiu, mas Abbo persistiu até integrar a banda The Resistors, composta por gente um pouco mais experiente. Na primeira grande apresentação da banda, o vocalista olhava para a platéia e simplesmente não cantava, o que levou o guitarrista Abbo a assumir o microfone. Dessa forma, em 1979, sem o antigo vocalista e rebatizada como UK Decay, lançam um split single com a banda Pneumania. O trio constituído por Abbo (voz e guitarra), Steve Harle (bateria) e Segovia (baixo) funcionou bem em estúdio, mas Abbo logo percebeu que podia tocar sem o saber, que podia cantar sem o saber, mas que não seria capaz de fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Com isso em mente, convidou Spon (guitarrista da Pneumania) e a formação se completou.

Logo no ano seguinte, já integrados à cena – Abbo editava o zine The Suss e dirigia uma loja de acessórios punks chamada Matrix – lançaram o EP The Black 45 (1980), no qual seu estilo já trazia os traços gerais pelos quais são até hoje lembrados: ritmo às vezes lento em relação às bandas que então levavam o punk a uma agressividade cada vez mais caricata, letras marcadas pela temática terrífica de matriz literária (há canções sobre Dorian Gray, sobre lobisomens, sobre contos de Poe etc.), além de menções a temas macabros (seja com o deboche de “Disco Romance”, seja com a paranóia urbana de “Unexpected Guest”) e pacifistas (vide a antinacionalista “For My Country”).


O UK Decay podia se orgulhar de não se parecer com nenhuma banda que conheciam e, aos poucos, centenas de pessoas passaram a assistir a suas apresentações. Suas prensagens vendiam como água e membros de bandas como Bauhaus, Siouxsie and the Banshees e Sex Gang Children apresentavam-se a eles e conversavam de igual para igual: Peter Murphy, do Bauhaus (cujo compacto Bela Lugosi’s Dead, de 1979, marca o início do rock gótico), convidou-os para uma turnê nacional; integrantes da banda Siouxsie and the Banshess (que consideravam seu trabalho “gótico” desde o Join Hands (1979), do qual “Premature Burial” baseia-se em Poe), eram figuras carimbadas nas platéias de seus shows; Andi Sex Gang, do Sex Gang Children (que morava no edifício “Torres Visigóticas” e tinha por isso os apelidos “lorde visigótico” e “gnomo gótico” e cujos fãs – por derivação – eram chamados de “godos”) apresentou-os aos músicos do The Southern Death Cult e do Blood & Roses como “modelos de conduta” (Abbo já afirmava que aos seus vinte e poucos anos já se sentia o vovô da turma)… Enfim, apesar de cada banda da cena pós-punk de então ser facilmente distinguível das demais, havia uma atmosfera que propiciava a cumplicidade.


Abbo
Obviamente, cada uma dessas bandas passou a influenciar as outras e, após lançar vários compactos, o UK Decay dava em Bruxelas uma entrevista sobre sua turnê continental. O entrevistador, detendo as informações contidas nas respostas, escreveu uma matéria na revista Sounds de fevereiro de 1981 em que citava a burlesca fixação macabra de Abbo e afirmava que a banda, junto ao Bauhaus, apontava a uma nova direção, que ele alcunhou de punk gotique. Vários anos depois, numa entrevista a Mick Mercer, Abbo confirmava que ele havia mesmo levantado o termo. Havia certa pressão nas perguntas para que ele desse um nome ao que já não era mais “punk, não era dance, ou alternativo, ou new pop, ou mod”. Sua resposta foi algo como: “estamos interessados em todo esse lance gótico” e a seguir brincou sobre as bandas lançarem discos em forma de gárgulas, tocar em igrejas e coisas do tipo. Ele só não esperava que a piada fosse levada a sério. Dois meses depois, numa entrevista à revista americana Flipside, aparentemente intimidado pela repercussão de sua própria definição, disparou: “agora nossas letras são meio que baseadas em sexo e morte, no místico… gótico é como o chamamos na Inglaterra”.

O Joy Division fez a atmosfera romântica do pós-punk ser chamada de gótica, o Bauhaus lançou o hino que levaria o gótico hollywoodiano ao rock, integrantes do Siouxsie and the Banshees foram os primeiros a afirmar que faziam canções góticas… depois, Abbo sugeriria – quase sem querer – um nome àquela cena. Depois, foi só os amigos de Andi Sex Gang chamarem seus fãs de “godos” e o Specimen abrir a Batcave em Londres de olho no novo público, que o nascimento do conceito do gótico enquanto subgênero do rock estava assegurado.

O baixista Eddie Branch passou a integrar o grupo quando Segovia abandonou a banda, que lançou ainda vários compactos, o álbum For Madmen Only (1981), o EP Rising From the Dread (1982) e a K7 ao vivo A Night for Celebration (1982), um registro do último show da banda que pendurava os coturnos já cansada de tocar entre quatro e cinco vezes por semana, tendo quase sempre de aturar as hordas de skinheads do National Front que paulatinamente invadiam seus eventos dispostos a agredi-los e destruir seu equipamento. Também houve problemas com o guitarrista Spon, que, expulso, formaria o In Excelsis junto a músicos oriundos da banda Ritual.


Em 1983, demonizado por parte de seus antigos fãs após ter dissolvido uma das maiores bandas alternativas da época – cujas apresentações lendárias eram abertas por bandas como The Sisters of Mercy, Southern Death Cult, Play Dead e The Dark – Abbo decidiu moderar a quantidade de shows e passou alguns meses amadurecendo uma nova musicalidade que relegava um pouco a estampa anarquista/terrífica para agregar elementos da música negra dos EUA. Sem um nome definido, o trio que havia tocado no UK Decay, ou seja, toda a banda com exceção de Spon, contou com um guitarrista chamado Patrick para lançar duas canções em verdadeiros monumentos daquele tempo: as coletâneas Batcave – Young Limbs Numb Hymns (1983), na qual figuraram como Meat of Youth, e na coletânea The Whip (1983), na qual utilizam o nome Slavedrive. Em ambas os títulos das suas faixas coincidem com os nomes das bandas.


Após essas experiências, Patrick é substituído pelo guitarrista Albie DeLuca, ex-Gene Loves Jezebel, e, agora estável, a formação é batizada de Furyo. A nova banda dura pouco, e Abbo passa a se concentrar em sua carreira de produtor, enquanto o baixista Eddie passa a tocar na banda de Peter Murphy e faz turnês com os americanos do Kommunity FK.

Graças ao trabalho de críticos como o inglês Mick Mercer (que incluiu a excelente "Testament" na coletânea Gothic Rock), o legado do UK Decay aos poucos voltou a ser valorizado. Apesar de ser uma peça fundamental à compreensão do início do punk gótico, dizer que a banda o "criou" seria um erro. O fato de eles terem sugerido o termo que conceituou algo que acontecia há cerca de três anos não os torna “arquitetos intencionais” daquela fantasmagoria na qual o punk flertava com as sombras. Que foram pioneiros não há dúvida, mas eles não estavam sós no processo, nem o planejaram. Para alguns, o UK Decay foi um “veterano do anarchopunk”, por sua militância política; para outros, seu estilo os tornou “antepassados do positive punk”. Isso, é claro, além de terem batizado a cena que, após tantos anos, volta a olhar às suas origens.


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