The Dark

Ponha a máscara!

Por mais que tentativas sejam feitas e refeitas, os esforços sérios de se delimitar a fronteira entre o punk e os vários "pós-punks" recai, quase sempre, na constatação de que o período é mais conflituoso do que parece. A paulatina fragmentação do punk inglês em cenas incompatíveis e antagônicas foi lamentada por diversas bandas que, já no início da década de 80, sentiam suas platéias receberem novas levas de jovens de gosto cada vez mais dirigido e restrito, à medida que, do caos inicial, surgiam correntes com posturas ideológicas marcantes. Fossem militantes violentos do National Front, fossem pacifistas engajados do anarchopunk ou de qualquer outra vertente, os adeptos de correntes sectárias do punk ganharam terreno rapidamente, tornando as bandas "não-alinhadas" verdadeiros curingas "sem rótulo".

A banda UK Decay, por exemplo, é hoje identificada com o anarchopunk (por suas composições antibelicistas) e com o punk gotique (termo proposto por um entrevistador belga ao escrever sobre seu encontro com Abbo, vocalista da banda), mas opunha-se ferrenhamente à segmentação observada na época. Por sua vez, Bob Short, guitarrista da banda Blood and Roses (inspiradora da expressão positive punk), considerava que o punk se desvirtuara no momento em que passou a ser tratado como mais um subgênero do rock, de modo que algumas de suas características musicais serviram de "fórmula" para sua prorrogação. Tanto o UK Decay quanto o Blood and Roses, mesmo sem seguir qualquer facção do "novo punk" que se formava, serviram de argumentos vivos para a proposição das duas expressões supracitadas (punk gotique e positive punk), o que demonstra o afã classificatório com que a mídia passou a tratar aquilo que não mais podia ser tratado como algo coeso. Como sabemos, as duas expressões foram logo obsoletadas pelo surgimento do conceito "amplo" de rock gótico, igualmente rejeitado pela maioria das bandas que supostamente o comporiam. Voltando ao UK Decay, podemos afirmar que o elemento capaz de diferenciá-los das demais "correntes do punk" e aproximá-los dos demais "curingas" de seu tempo eram suas referências ao universo terrífico literário e cinematográfico (entre as quais se destacam citações a autores como Edgar Allan Poe e Oscar Wilde, que – embora tardiamente – beberam do gótico literário setecentista para compor algumas de suas principais obras).


The Dark
Essas referências literárias, já filtradas e popularizadas pelo cinema, seriam magistralmente parodiadas ou assimiladas por outros nomes do punk e do pós-punk inglês: vide o !Action Pact! com sua hilária "Gothic Party Time"; ou Siouxsie and the Banshees, com "Premature Burial"; ou ainda o Bauhaus, com o hino "Bela Lugosi's Dead", para ficarmos em três exemplos. Esse recorte – chamar de "góticas" as bandas punks e pós-punks que trazem à tona o imaginário terrífico – não deveria, nunca, soar como outra classificação; não deveria sugerir que tais bandas só faziam isso. Muitas das bandas que hoje poderíamos chamar de góticas fizeram parte também de outros "recortes" do pós-punk, como o já citado positive punk, o death rock de matriz americana etc. Outras particularidades estritamente musicais apontadas como definidoras do gótico inicial já eram praticadas por bandas anarchopunks ou pelos grandes nomes da cold wave, o que invalida o argumento. Com isso em mente, dotados do discernimento capaz de enumerar as diferenças entre a "mera referência gótica do punk" e o "rock gótico deliberadamente gótico" posterior, podemos pinçar tranqüilamente outros nomes do punk (ou do pós-punk) que incorreram nos mesmos feitos, adotando (mesmo que temporariamente) posturas sombrias e apocalípticas (vide o Siekiera), aderindo à teatralidade terrífica (vide o primeiro Christian Death) ou simplesmente "brincando de mortos" (a exemplo das bandas que se espelhavam no The Damned). Não se trata de afirmar que apenas "este gótico" seja digno de menção ou respeito, como pretendem alguns radicais, visto que todas as fases do gótico apresentam igualmente fiascos e genialidades, mas há uma espontaneidade latente nessas bandas que – tanto pelo pioneirismo como por seu descomprometimento – tornam-nas únicas.

Obviamente, existem diferenças gritantes entre o gótico literário/cinematográfico e as letras dessas bandas, algo que Rob Short (Blood and Roses) e David J. (Bauhaus) deixavam claro desde aquela época. Pois bem, há outra banda entre os "vira-latas" do punk do início da década de 80 que não só poderia transitar como efetivamente transita entre coletâneas góticas com surpreendente dignidade: trata-se do The Dark, cuja canção "The Masque" inseriu-a com destaque em discotecagens góticas desde sua aparição na coletânea Gothic Rock 3 – Back on Black (1998). Ao contrário dos discos precedentes, a terceira compilação dupla da série foi selecionada por Alan Hauser, e não por Mick Mercer (que a introduziu, escreveu as notas sobre cada uma das bandas e prestou-lhe consultoria). No encarte, portanto, fica a advertência do grande crítico inglês em relação a ela: não se trata de uma "banda gótica", mas de algo "ainda melhor"… uma banda punk sombria com letras mais diretas que as das bandas góticas. Até que o grupo chegasse a tal ponto, porém, uma longa trajetória foi percorrida…


"A noite é tudo o que temos"

Formada na cidade inglesa de Islington no fim de 1978, o The Dark era composto por Phil Langham (baixo), John Flannagan (vocal), Billy O'Neil (guitarra) e Jim Kane (bateria). Seu primeiro compacto, My Friends/John Wayne (1979), destacou-se pelo humor inusitado com que tratou o ator americano, quesito que até hoje lhes rende comparações com o The Damned, mas os próximos lançamentos da banda não mais contariam com o vocalista original, substituído pelo próprio baixista. Seus dois próximos compactos voltam a tratar de temas ligados à TV americana e lhes rendem entrevistas nas quais ficam patentes algumas posições da banda, como alguns de seus insultos ao Sex Pistols e sua aversão a toda a trupe de bandas Oi!, além da adoração de integrantes da banda pelo proto-punk americano (Iggy Pop, The New York Dolls etc.).


On the Wires/Shattered Glass (1981)
Enquanto os três primeiros compactos do The Dark foram produzidos por integrantes de outras bandas mais experientes, o quarto representaria uma guinada em sua trajetória. A banda havia perdido seu guitarrista, que viria a ser substituído por Jim Bryson, ex-parceiro de Nick Wade (Nik Fiend) no Demon Preacher (mais tarde rebatizado como The Demons); além disso, a banda dispensara os produtores e gravou por conta própria On the Wires/Shattered Glass (1981), cuja capa traz uma colagem com a sombra do Conde Orlock (o vampiro de Nosferatu – Uma Sinfonia do Horror). Musicalmente, não houve mudanças drásticas, mas, após a gravação desse trabalho, o baterista deixa a banda, sendo logo substituído por Nicholas "Razzle" Dingley, outro ex-integrante do Demon Preacher. Perguntado sobre sua passagem por ambas as bandas, "Razzle" afirmou que o Demon Preacher basicamente seguia os passos de Alice Cooper, enquanto o The Dark primava por um "punk rock rápido e pesado próximo ao metal". Tal definição lembra bastante a expressão usada pela NME para descrever o som e o visual do Specimen, poucos anos depois: "glam-heavy metal-punk vulgar"! Como o termo "gótico" – tão facilitador – fazia falta!


The Masque/War Zone (1981)
De qualquer forma, um quinto compacto estava por vir. Da formação que lançou My Friends/John Wayne restava apenas o baixista Phil Langham (que assumira os vocais) e o guitarrista Andy Riff, ou seja, a banda tratava-se agora de uma congregação mezzo The Dark mezzo Demon Preacher. Lançado poucos meses após o compacto anterior, The Masque/War Zone (1981) trazia outro vampiro na capa. Dessa vez, Béla "Lugosi" Blasko, com o figurino de Drácula (1931). A respeito do lado A do disco ("The Masque"), o americano Mark Splatter (do sítio Deathrock.com, que organizou uma página em homenagem à banda) conseguiu de alguns músicos que tocaram brevemente no The Dark uma informação tão interessante quanto suspeita: supostamente, ela teria sido escrita pelo guitarrista Bryson para sua banda antiga, permanecendo inédita. Seu título seria – talvez – "Frankenstein", e Nick Wade deveria cantá-la, mas ela não chegou a ser gravada. Infelizmente, quando houve essa sondagem, o vocalista e os dois ex-Demon Preacher já haviam falecido, o que dificultou e muito a comprovação da hipótese ainda incerta. A letra também não traz referências relevantes ao imaginário que cerca o romance de Mary Shelley, mas é possível que aluda a um conto cujo título é iniciado pela mesma construção incomum, devido à mescla de inglês e francês: The Masque of the Red Death, de Edgar Allan Poe, no qual um príncipe se isola e promove bailes de máscara na tentativa de esquecer a "peste rubra" que assola a população camponesa de seu reino. Pode ser apenas um palpite infeliz, mas a letra e o título parecem corroborá-lo. No conto, a própria Morte visita o baile fantasiada como uma vítima da "peste rubra" cheia de feridas, para disseminar-se entre os mascarados – na letra, ouvimos: "você é o que você veste, e você veste as cicatrizes". No conto, os fidalgos sentem a iminência da morte a cada soar do pêndulo do relógio – na letra, ao colocar o ouvido no chão, alguém ouve o chamando dos mortos, que sabem que logo ele irá se juntar a eles. Mais. No conto, o tempo transcorre lentamente, obrigando o príncipe a organizar bailes para espantar o tédio – na letra, ouvimos: "a noite é tudo o que temos, coloque a máscara". No conto, qualquer contato com os mortos marcados pelas chagas é fatal, na letra, ouvimos: "seu medo de morrer é seu medo dos mortos"… Enfim, não se trata de uma convicção, mas de uma mera conjectura.

Lembremo-nos agora da advertência de Mick Mercer, a quem a letra é mais direta que as letras góticas. De fato, a composição reúne principalmente frases assertivas e imperativas, típicas da apostrofação punk e divergentes do lirismo que caracteriza grande parte dos clássicos do rock gótico. O efeito é sublime, sendo amparado por guitarras distorcidas, barulhos de bombas, uma percussão tribal e uma voz grave mas nada "sorumbática" que canta devagar, alongando o tempo das sílabas. A seguir, a banda passa por outras alterações em sua formação e lança seu único álbum, Chemical Warfare, também de 1981, e um disco ao vivo, The Living End Live (1982), registro de sua última apresentação. Dissolvida a banda, seus membros tomam diferentes rumos: o vocalista e baixista Phil Langham, já morto, passou a trabalhar como produtor através do notório selo Anagram (responsável por lançamentos de bandas como !Action Pact!, Theatre of Hate, Skeletal Family, Demented Are Go e Alien Sex Fiend); o guitarrista Jim Bryson tocou em diversas bandas punks, como UK Subs e Wasted Youth, mas faleceu em 2002; já "Razzle" passou a tocar no Hanoi Rocks e, numa viagem aos EUA em 1984, foi atropelado por Vince Neil, ex-vocalista do Motley Crue, que dirigia embriagado.


Quase dez anos depois, há muito relegada à obscuridade, a banda foi redescoberta pelo projeto eletro-gótico Forthcoming Fire, do alemão Josef Maria Klumb (Von Thronstahl), constantemente acusado de militar ativamente nos círculos neonazistas alemães. Ideologias à parte, seu álbum Illumination? (1993) traz a bela "The Mask (Overversion)", que retira a composição de seu hábitat punk e lhe dá uma interessante roupagem eletro-gótica. Além disso, no ano seguinte ao lançamento de Gothic Rock 3, a coletânea Gothic Erotica (1999), uma caixa com seis CDs, dedicou duas faixas ao The Dark: "Soldier Dolls" – com o inesquecível refrão a repetir que "soldados de brinquedo choram sangue" – e "The Pleasure is Pain", consagrando a inclusão póstuma e retroativa da banda no "cânone" do rock gótico. Isso, creio, seria quase tudo, não fosse o selo Captain Oi! ter resolvido lançar toda a discografia da banda num único CD intitulado The Best of the Dark (2002), iniciativa repetida em relação a outras bandas do rico e ainda nebuloso período punk do início dos anos 80.

por
Cid Vale Ferreira
em setembro de 2006

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