Specimen

Madrugadas a fio na beleza do veneno

Em 1981 – cerca de quatro meses após Abbo (UK Decay) cunhar jocosamente o conceito de "punk gótico" – Ollie Wisdom, que havia cantado na banda punk The Unwanted, juntou-se a Kevin Mills (baixo) e Jon Klein (guitarra) para formar a banda Specimen, espécie de encarnação glam-punk das personagens "transilvanas" do filme The Rocky Horror Picture Show (1975). Em sua primeira apresentação ao vivo, na cidade de Brixtol, esses ingleses assustaram os incautos convidados de uma festa em homenagem à rainha com seu escrachado apelo homoerótico, mas a banda levou cerca de um ano até deixar o anonimato.

Em 1982, após ter lidado por meses com ânimos dos mais exaltados em sua cidade natal, o Specimen agrega o baterista Jonathan e inaugura em Londres a casa noturna Batcave onde funcionava a The Gargoyle (um clube de strip). Lá, seus integrantes poderiam arquitetar o grande "palco" que jamais haviam tido. Sua abertura contou com uma fila de cerca de duzentas pessoas – formada essencialmente por figuras carimbadas dos inferninhos londrinos, punks e travestis – sendo a atração da noite, obviamente, o próprio Specimen, que antes disso havia conseguido marcar apenas uma apresentação na capital inglesa.


Specimen
Estrategicamente instalado numa área notória por sua oferta de prostitutas e strippers, esse ambiente caracterizava-se por seu conceito de cabaré (acolhedor para quaisquer tipos de excentricidades sexuais e estéticas), mas, efetivamente, diferenciava-se de outros ambientes voltados ao público homossexual e alternativo por sua programação: a seleção musical, por exemplo, ao menos às quartas-feiras, seria uma superdose de glam rock e, além disso, a casa oferecia performances e sessões freqüentes de vídeo com clássicos do horror americano (selecionados, em sua maioria, dos títulos do ciclo de monstros da Universal). Aos poucos, o público da casa ajudou a estabelecer seus hits, forçando os DJs a adicionarem bandas como Killing Joke, PIL, Bauhaus, The Sisters of Mercy, The Cramps e The Virgin Prunes às suas discotecagens. Aos poucos, bandas então idolatradas como Queen, T-Rex, David Bowie, Alice Cooper e Gary Glitter não só conviviam lado a lado com esses novos nomes que apenas despontavam como também cediam espaço a bandas hoje praticamente esquecidas como Patti Palladin, Meat of Youth, The Venomettes e Brillant.

A coletânea Batcave – Young Limbs Numb Hymns (1983)
Os anfitriões do Specimen conheceram então Jonathan Melton ("Johnny Melton", ou, como era conhecido na época, "Johnny Slut"). De freguês deslumbrado da casa, Slut foi convidado – sem saber tocar – a integrar a banda como tecladista ("não se preocupe com o fato de não saber tocar, gostei muito do seu cabelo", Wisdom teria dito a Melton). Funcionando como um "projeto", a casa organizou festas em diversas casas noturnas. Johnny Slut torna-se DJ e, ao lado de Hamish McDonald, espalha as bandas que seriam compiladas em Batcave – Young Limbs Numb Hymns (1983), hoje considerada uma das primeiras "coletâneas góticas". Sua capa, desenhada pelo guitarrista Klein, é uma das maiores referências plásticas de Nik Fiend (vide as capas e o próprio logotipo do Alien Sex Fiend), cuja história se cruzou com a do clube após Ollie Wisdom ter lido uma resenha de sua demo e ter convidado sua banda recém-formada a estreiar ao vivo na Batcave (segundo o próprio Nik, foi tudo um fiasco; ninguém riu, ninguém dançou, ninguém entendeu o que se passava no palco). Também era comum ver integrantes de bandas como Soft Cell, The Cure, Siouxsie and the Banshess, The Birthday Party, Sex Gang Children, Southern Death Cult e do próprio Alien Sex Fiend por lá (muitos deles aproveitavam o tratamento VIP que lhes dispensavam) e a casa então mudou de endereço, tornando-se praticamente um "ponto turístico".

Apesar de tudo, a casa não é lembrada como um porão escuro com "seres sombrios" embriagados pelos cantos ou coisas do tipo. Pelo contrário… quando a casa passou a contar com constantes apresentações ao vivo, bandas como Sex Gang Children, Sexbeat e Flesh for Lulu redobravam os esforços para oferecer "espetáculos", para realmente empolgar o público (que muitas vezes era tão estranho quanto aqueles no palco), o que envolvia teatralidade e, obviamente, humor. Richard North, comentando a nova cena, citava essas bandas junto às bandas do "punk gotique" (UK Decay, Bauhaus etc.) e de nomes como Blood and Roses e Brigandage como representantes de uma nova postura: nascia o conceito de positive punk, que implicaria a idéia de que essas bandas não mais viviam em função de antagonizar algo, mas de retomar a liberdade de estilo das bandas que antecederam a fragmentação do punk em correntes quase dogmáticas.


Johnny Slut
Além disso, sem querer, ao inserir referências do horror cinematográfico, do glam rock e da libertinagem dos cabarés naquele momento "pós-punk", a casa forneceu terreno propício para que o punk gótico descesse dos palcos e impregnasse o público: o próprio DJ residente da casa, Hamish McDonald, chamava os "novos punks" de góticos.

Algumas TVs fizeram matérias sobre a casa, vide o vídeo intitulado Who is the Monster That Works in the Batcave; o Specimen lançou seu primeiro compacto ("Returning") e apresentou-se em Nova York, mais precisamente no CBGB's. No mesmo ano, sai o primeiro "sete polegadas" da banda: The Beauty of Poisin (1983), no qual seu potencial fica tão evidente quanto suas limitações. Como "ato" ao vivo, como uma "piada de cabaré" (para usar uma expressão de um freqüentador da Batcave), a banda provou-se excepcional. O visual de Ollie, à Frank-N-Further, a presença de Johnny Slut (cujas fotos são verdadeiros emblemas do estilo gótico da época), a atitude libidinosa da banda, enfim, tudo funcionava muito bem naquele lugar, mas nem o selo da banda apostou neles, privilegiando outras bandas ao escalar quem se apresentaria em rádios ou na TV. Fora da "caverna", a banda parecia perder metade de seu espetáculo: o público fiel da casa. É aí que notamos que a banda errou… Várias outras bandas cometeram autodeclarados "erros": o Bauhaus, por exemplo, lamentou-se amargamente de ter gravado "Bela Lugosi's Dead" com toda aquela seriedade, sendo seu intuito meramente brincar com o trocadilho – afinal seria "'o morto de Bela Lugosi' (Drácula) ou 'Bela Lugosi está morto'?" – e com o efeito da frase "Bela Lugosi está morto, desmorto…". Tal não é o caso do Specimen, que sempre deixou evidente sua veia humorística, apesar de seguir – com atmosferas e resultados completamente diversos – a mesma fórmula básica do Bauhaus (receita pós-punk performática temperada com referências ao glam, ao horror cinematográfico em preto-e-branco e à sexualidade "desviante"). Entretanto, o que os condenou foi certa esperança desmedida em relação à fama. Ollie, como líder da banda, ficou famoso por, supostamente, exagerar no egocentrismo e na antipatia… certo de que estava prestes a estourar.


Filipeta da Batcave
Com o declínio do público, a Batcave fecha por volta de 1984 e, ao lançar o compacto "Sharp Teeth" (1985), o Specimen percebe que sequer consegue boas colocações na parada dos independentes. Obviamente, por mais que já houvesse uma demanda irracional pelo gótico na Inglaterra, na Alemanha e, em menor medida, nos EUA, era óbvio que a popularização do subgênero urgia o aparecimento de um ícone mais palatável, menos "constrangedor" e, preferencialmente, heterossexual. É aí que entra Andrew Eldritch e seu The Sisters of Mercy, que os próprios DJs da Batcave ajudaram – e muito – a divulgar. Ao sobrepor-se às bandas contemporâneas, The Sisters of Mercy fez com que o gótico não mais se limitasse ao punk ou ao pós-punk, exigindo um afrouxamento do conceito. Daí, de "punk gotique", passou a falar-se em "gothic rock", um conceito mais amplo que – segundo Mick Mercer, marca a transição do "rock Gótico" ao "Rock gótico". Sutil? Nem tanto. O fato de ter surgido alguém como Eldritch, com todas as insígnias góticas (vide os cabelos desfiados no clipe de "Walk Away", seu vocal considerado na época uma "cópia da voz de Peter Murphy", as guitarras de Wayne Hussey etc.), desfilando poucos anos depois com uma mulher como Patricia Morrison foi o suficiente para tornar obsoleto – no olhar da mídia – o arquétipo do gótico como o "punk apolítico, extravagante no visual como os anarcos e ligado umbilicalmente às noitadas libertinas". Não havia mais espaço para as bandas que se abrigavam sob a égide de Bowie, Bolan etc.

Batcave
Deixando a Inglaterra sem os outros membros, Ollie continuou a gravar como Specimen nos EUA, mas canções como "Indestructable" – dessa segunda fase – são simplesmente intragáveis. Kevin Mills passou a tocar baixo com o Flesh for Lulu e com Siouxsie & The Banshees; Johnny Slut integrou dezenas de bandas e hoje trabalha como DJ no projeto Atomizer (que veio recentemente ao Brasil). Quanto a Ollie Wisdom, é praticamente impossível obter qualquer informação sobre ele. Ao menos até janeiro de 2006, quando a banda se reunirá nos EUA para uma série de apresentações comemorativas.

Após todo esse balanço, sabemos que hoje é comum ouvirmos falar em "gótico Batcave", expressão usada para designar tanto as bandas que se apresentaram naquela casa legendária quanto para caracterizar as bandas por elas influenciadas. Selos como o americano Cleopatra relançaram coletâneas da banda, coletâneas góticas resgataram faixas como "Kiss Kiss Bang Bang", "Hex" e "Syria" do oblívio e impediram que a banda – cujas apresentações eram abertas por bandas do calibre do Einstürzende Neubauten e Christian Death – se tornasse uma mera nota de rodapé na história do gótico.

por
Cid Vale Ferreira
em setembro de 2006

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