Para além do "Dark"

Os primeiros góticos de São Paulo

No início da década de 80, ao redor do mundo, as atitudes jovens começam a tomar novos rumos. Uma nova geração começa a dar seu grito de liberdade, e movimentos de contestação começam a ganhar espaço entre os jovens. Um deles em especial, o Punk, surgido no seio da juventude européia, defendia um conceito de liberdade que levou os jovens a pensar de uma forma diferente, mais engajada, com resultados sociais mais efetivos, contrastando com os movimentos de contestação que os precederam, tais como os Hippies que colocavam como meta valores como a liberdade sexual, a paz e o amor, porém desapareceram!

A liberdade sexual tornou-se uma realidade localizada na região de origem do movimento Hippie: São Francisco, Califórnia. Por aqui, em terras brasileiras, o que rolava era a repressão política que silenciava estudantes, artistas, intelectuais e revolucionários da época.

Os primeiros punks brasileiros foram os filhos dos operários da região do ABC paulista, e o movimento tornou-se o meio pelo qual reivindicavam seus direitos.
A partir de 1981, uma novidade começa a surgir dentro do movimento Punk.

Os empresários das bandas Punk que, até então, devido a fatalidades diversas, permaneciam na marginalidade, diante de sua necessidade de sobrevivência – entenda-se: vender de seus produtos culturais – deram início à "New Wave", termo que tem origem na expressão francesa "nouvelle vague" e significa "Nova Onda", a qual viria marcar profundamente os destinos dos movimentos pós-punks.


Marcelo Vilela
No Brasil, quem tinha acesso às novidades da New Wave eram os jovens das classes alta e média os quais já tinham tido contato com o Punk e adotaram o estilo. Alguns se vestiam de forma extremamente colorida inspirados na New Wave Californiana. Outros, inspirados na New Wave britânica, optam pelo preto absoluto.

Assim, em cada país de modo diferente, o pós-punk foi acontecendo em cada lugar do mundo. Aqui no Brasil, a coisa cresceu tanto que símbolos, idéias e ícones do movimento passaram a aparecer nas novelas, nas rádios, nas revistas e em mídias alternativas, como fanzines, que circulavam entre os jovens. São Paulo vira a cidade do Rock e várias bandas de diferentes estilos surgem, tendo como pioneira a Gang 90 e as Absurdetes, liderada por Júlio Barroso, que também era jornalista e grande divulgador das tendências pós-punks.

Na metade da década de 80, a coisa começa a se definir. Acontece então a guerra de estilos. Moda torna-se a antítese de estilo. Moda se define como o que é seguido por pessoas que não sabem quem são, pessoas que dependem de revistas de moda para criar uma identidade para elas. Estilo define-se como a atitude de decidir quem você é, perpetuar essa decisão. Ou, dizendo de outro modo: "Ter estilo é ser você mesmo, mas com propósito".

Em 1986, o Brasil definitivamente abre as portas para invasão britânica. Bandas como: The Mission , Siouxsie and The Banshees, The Cure e outras passam a se apresentar por aqui. Surgem nas ruas da região da Grande São Paulo vários grupos diferentes: na periferia, localizam-se os Punks e os adeptos do movimento Heavy Metal. Na região central e na zona sul aparecem os New Wavers e Darks.

A coisa acaba virando uma guerra de regiões, pois os grupos da periferia começam a chamar os grupos da região central e zona sul de "punks de boutique". A revista "Bizz", em poucas linhas, define uma das bandas da invasão britânica como "gótica". A coluna do leitor da revista "Chiclete com Banana" passa a ser veículo de trocas de ofensas entre estes diferentes grupos. As casas noturnas freqüentadas por esses grupos na época eram o Espaço Retrô, o Madame Satã e o Ácido Plástico, que funcionava dentro de uma antiga igreja no Carandiru.

Uma turma de Darks freqüentadora assídua desses lugares é convidada para a inauguração de uma outra casa que ficava na região dos Jardins. A proposta do local era pós-punk e o nome deste novo clube era Treibhaus ("Estufa") - criado por Alex, Gé e Pato. O convite de inauguração foi dado em mãos somente aos Darks mais estilosos da época. Entre eles estavam: Ana Claudia (Nenê), Robson Prado, Marcelo Vilela, Wagner e Andréa Piggy, de Santos.

Esses jovens descolados já haviam discutido entre si sobre as origens do Dark, o qual o jornal Inglês Melody Maker considerava um estilo gótico, e divulgaram isso na nova casa entre os amigos. Eles gostavam de se reunir no banheiro misto da casa, onde passavam muito tempo bebendo drinques alcoólicos, fumando maconha e discutindo tendências e visuais.

A Treibhaus passou a ser um clube freqüentado só por convidados e por um público selecionado cujos membros recebiam uma "carteirinha" de identificação que garantia acesso à casa. Quando vinham turistas sem carteirinha visitar a casa, era-lhes dito que se tratava de uma festa fechada.

Certa noite, Nenê, Robson, Marcelo Vilela e Denise Tavares estavam juntos com outros amigos fazendo o velho ritual do banheiro quando, de repente, uma repórter do polêmico programa Documento Especial da extinta TV Manchete entra no banheiro com luzes, câmeras e microfone na mão perguntado: — o que você é?

Eu, Marcelo Vilela, respondo: — Punk Gótico!
A entrevistadora então pergunta: — Que estilo é o Gótico?
Ao que respondo: — É um estilo vindo do punk que caracteriza tendências New Romantic no modo de se vestir e niilista no modo de pensar.
A entrevistadora pergunta a Nenê: — O que você pretende ser sendo uma punk gótica?
E, no auge de sua adolescência, ela responde: — Eu só quero a vida eterna!
A entrevistadora se dirige ao Robson: — Vocês já tiveram problemas por andarem vestidos assim?
E ele responde: — Sim até já apanhei por causa do meu visual!
A câmera fecha no Wagner que usa a camisa do grupo Alien Sex Fiend que, na época, era uma das novas tendências e no Ronaldo da banda cover do The Mission. Então, abre em Denise que, performaticamente, define o punk gótico como "obscuro, poético, inteligente... é o pós-moderno"!

O programa vai ao ar uma semana depois. A rede Manchete mostra três gangues: punks, góticos e carecas do subúrbio. Os carecas xingam todos "no ar" tanto os góticos como os punks. Um deles começa a dizer que somos riquinhos drogados que temos um cordão umbilical com a sociedade. A partir daí ficamos muito mal falados, parecia que toda Sampa viu a matéria e passamos a ser vistos como a família real e perseguidos por carecas. Até tivemos de "dar um tempo" de sair, evitar passeios pela cidade.

Pois na noite que a matéria foi ao ar estávamos na Treibhaus, e a casa ficara cercada por carecas à nossa espera. Telefonemas anônimos para minha família diziam que eu fazia parte de uma seita de magia negra, pois a matéria dizia que éramos freqüentadores de cemitérios e adorávamos o obscuro. Minha família ficou maluca e, como se não bastasse, um fanático religioso ficou em frente à minha casa durante um mês inteirinho.


Treibhaus
Góticos e Punks se davam bem e estavam acostumados a freqüentar os mesmos lugares. Nessa época, um de nossos amigos punks, o Barata, é expulso de sua casa pela família que não aceitava que ele usasse aquele visual muito chocante. Ele pede para dormir na minha casa, mas como eu costumava hospedar uma porção de góticos que vinham de Santos, o "asilo" foi negado por minha mãe, que alegou que eu já havia arrumado problemas demais.

Então eu disse a ele que não poderia deixá-lo dormir em casa desta vez. Dias depois ele é encontrado morto, empalado. Isso, também, vai ao ar no mesmo programa, só que na parte da matéria que falava dos Punks. A mãe do Barata aparece chorando com um cadeado em uma corrente que ele usava no pescoço, como a do Sid Vicious, o baixista da banda Sex Pistols.

Foi horrível, pois, na realidade o que queríamos era dar nosso grito de liberdade, já que pagávamos nossas contas e poderíamos nos vestir como queríamos. Era isso que fazíamos: usávamos visual 24 horas por dia fosse na escola, na rua, de dia ou de noite. Estávamos sempre como realmente éramos. A repressão havia acabado há pouco tempo, mas a cabeça do brasileiro ainda estava reprimida. Nessa época rolava o movimento Diretas Já. A Treibhaus passou a abrir as portas ao público geral, e a nossa turma pára de se encontrar e sair.

No ano seguinte, 1991, a casa fecha, mas o Documento Especial repete a exibição da reportagem por mais vezes. Eu ganho o apelido de "Marcelo New Romantic" pelas declarações registradas na matéria. Logo, a Globo leva ao ar uma novela que traz uma caricatura de um gótico totalmente cafona, chamado Reginaldo, vivido pelo ator Eri Jonhson. A partir de então a coisa passa a ser vista como uma manifestação jovem idiota e sem propósito e não mais como uma manifestação de liberdade jovem e revolucionária.

Mesmo estando no Brasil fazíamos parte de uma era inovadora. Éramos corajosos por sermos nós mesmos. Éramos inteligentes também, pois estávamos ligados a culturas estrangeiras inovadoras, enquanto o personagem da novela era esdrúxulo e decadente. Nunca fomos em cemitérios para ler poesia mórbida, isso nós aprendíamos na escola. Quando íamos aos cemitérios, íamos em turma para nos divertir sem que ninguém ficasse nos recriminando por nosso estilo autêntico. Só queríamos ser nós mesmos, apenas adolescentes. Politicamente, não mudamos nada, mas revolucionamos a musica e a moda, bem como os cortes de cabelos até os dias de hoje.

Só voltei à cena gótica anos depois. Eu nem sabia o quanto fomos importantes para as novas gerações de góticos que hoje têm toda liberdade do mundo. Por isso, meu conselho é que usem muito visual, curtam muita música boa e se divirtam muito, pois no Brasil de hoje, onde a pobreza e as injustiças assolam, é só isso o que nos resta!!! Viva e não tenha medo, pois a pose é a medida de toda a nossa pretensão. Livre-se dos gestos ensaiados, felicidade é coisa que não dá pra se premeditar. Calma, não há nada a conseguir, nem vitória nem derrota, nem troféu pra exibir. Deixe o teu visual aparecer, e não dissimule nada. Sem pensar com se defender, deixe a ignorância para trás, pois a vida é bem mais simples do que aquilo que a gente faz dela.

No meio das ruas escuras da cidade, a lua apareceu! A lua os góticos e eu!

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