Fruto proibido

Egon Schiele na prisão

I.

Em janeiro de 1911, Egon Schiele viu-se em problemas com um de seus mais íntimos amigos, Arthur Roessler, que havia escrito ao pintor um carta censurando seu egocêntrico comportamento; acusando-o, por exemplo, de espionar usa correspondência e espalhar boatos apenas para conseguir maior notoriedade. Em sua carta de resposta, Schiele ignorou todos os apontamentos de Roessler, limitando-se a escrever:

Eu, criança eterna –
Eu sacrifiquei a mim mesmo por outros de quem eu tinha compaixão e que estavam longe demais e que me olharam mas não me viram.
Eu comprei presentes, mandei-lhes olhares e trêmulas súplicas; eu dei-lhes oportunidades para alcançar-me e – não falei.

…uma resposta que, contra as acusações de egoísmo de Roessler, argumentara com ainda mais egocentrismo.

Na verdade, havia aí algo de típico da personalidade de Schiele. Durante sua curta vida, o pintor viveu, de certa forma, fazendo círculos ao redor de si mesmo; celebrando – mesmo que sem palavras – sua própria intimidade. E não apenas Roessler ficara farto disso; mas isto custaria, a Schiele, mais do que ele, a princípio, pôde antecipar.


II.

Egon Schiele nascera em Tulln, sul da Áustria, em 12 de junho de 1890. Era o quarto filho do casal Adolf e Edith, mas apenas o segundo vivo – já que os dois primeiros, de 1880 e 1881, haviam sido natimortos. Elvira, irmã mais velha de Schiele, morreu em 1893, de encefalite. Adolf, o pai, morreu louco quando o pintor tinha 15 anos, e Egon e sua mãe jamais desenvolveriam um relacionamento muito agradável. Quando, em 1918, desenhou sua imagem, sintomaticamente representou uma mulher com aspecto desinteressado, com um distraído olhar dirigido para longe – o que sugere justamente o tipo de acusações que Egon dirigia a ela: era uma mulher estranha, que não o amava, incapaz de fazer qualquer sacrifício por ele. Decerto que seria uma imprudência acreditar cegamente nas palavras de Schiele; mas, de todo modo, era assim que ele via as coisas.

Mas Schiele não estava sozinho em casa: sua irmã Gertrude, ou Gerti, é sua companheira – em mais de um sentido. Além de ela ser um de seus mais freqüentes modelos desde os primeiros tempos, foi também sua parceira nas primeiras descobertas – com quem Egon, aos dezesseis anos, passou uma noite em um quarto de hotel em Trieste, por ele escolhido por haver sido lá a lua de mel de seus pais. Gerti, a esta época com doze anos, também já posava nua para Egon com regularidade. E será precisamente um destes desenhos o meu ponto de partida neste ensaio.


III.

Menina nua de braços cruzados é um desenho de 1910. Gerti, então com quatorze anos, foi seu modelo nesta obra que traz muitas das características que mais tarde se tornariam as marcas da arte de Schiele – especialmente a estranha mistura de fragilidade e sensualidade, pudor e entrega. Os braços cruzados e o olhar distante de Gerti sugerem medo, rejeição, distância – entretanto, é justamente nesta vulnerabilidade que está a força de sua imagem. O olhar de Schiele é sempre o de um predador.

A fascinação por corpos jovens e frágeis jamais abandonaria a mente de Egon – o que, associado ao seu amor por seu falecido pai e à sua nunca harmoniosa relação com sua mãe, compõe até hoje um prato cheio para os adeptos de interpretações psicanalíticas. Durante longo tempo, Gerti foi sua principal modelo – ainda que, muitas vezes, transformada de modo a assumir outros papéis, como a desdenhosa mulher, quase uma caricatura, de A maliciosa, também de 1910, e a elegante dama pintada em Retrato de Gerti Schiele, do ano anterior. Mas Gerti, durante todo esse tempo, não foi a única modelo de Egon: encontramos também outras jovens em muitos de seus desenhos desta época. Não seria difícil consegui-las, já que nesta época era comum que crianças de famílias pobres se prostituíssem nas ruas vienenses – artistas e intelectuais estavam entre seus clientes. Esta conduta poderia até gerar algum escândalo, mas não constituía um crime. Entretanto, sequer era este o caso de Egon: em seu caso, as crianças freqüentavam voluntariamente sua casa, onde entretiam-se observando um artista em pleno ato de criação. Tinham, ademais, a chance de serem elas mesmas as representadas nos muitos desenhos e telas penduradas pelas paredes.

Em dias atuais, Schiele seria potencialmente um acusado de pedofilia; mas isto não aconteceria em uma Viena que encarava com naturalidade o casamento de meninas de quatorze anos. E, a despeito de não existirem até o momento provas de que Schiele tenha dormido com alguma destas meninas, isso estaria diretamente relacionado à sua prisão, em 1912.

IV.

Nada do que encontramos nas telas de Schiele era estranho à sociedade na qual vivia. A nudez das meninas poderia ser facilmente comprada – até mais do que elas. Suas mais eróticas telas não eram sequer comparáveis à quantidade de pornografia que circulava na cidade. Qual foi, então, a causa de sua prisão?
Schiele não foi preso por um delito, mas por excesso de honestidade.

Desde 1910, um de seus mais constantes projetos era sair de Viena. Lá, sentia-se perseguido; não mais suportava o clima de permanente competição e sabotagem entre os artistas. Foi então que Schiele começou uma série de idas e vindas por cidades rurais da Áustria.

A primeira destas jornadas fora para Krumau, junto a alguns dos Neukünstler da época – o excêntrico ator e pintor Erwin Osen, representado em uma série de obras de Schiele, e sua parceira, a exótica dançarina Moa. Chamaram tanta atenção que Schiele resolveu sair da cidade pelo mesmo motivo pelo qual havia deixado Viena. Quando retornou à cidade, em 1911, levou consigo Wally Neuzil, uma jovem modelo de dezessete anos que havia sido amante de Klimt e que agora era modelo – e também amante – de Schiele. Entretanto, novamente viram-se obrigados a abandonar a cidade.

O problema de Schiele e Wally era simplesmente sua existência. Para a conservadora Krumau, era um escândalo o fato de aquele exótico e arrogante pintor ousar viver abertamente com sua modelo; mais ainda porque aquele casal, que sequer havia contraído o matrimônio, nunca estava presente na igreja para a missa dominical.

Após sua segunda expulsão de Krumau, Schiele encontrara uma nova casa, em uma cidadezinha próxima a Viena, de nome Neulengbach. Além de isolada nas fronteiras da cidade, a casa ainda tinha vista para um castelo. Parecia, certamente, um lugar perfeito para que enfim Schiele e Wally vivessem em paz.


V.

Neulengbach pareceu, a princípio, uma cidade agradável para Schiele. Dedicou-se a experimentar novas técnicas, descobriu novos temas. Ali, começou a impregnar suas telas do simbolismo que, mais tarde, marcaria algumas de suas mais conhecidas obras; ali, descobriu o tema das pequenas cidades. O pintor sentia-se, enfim, em paz.

Schiele não demorou a retomar sua rotina normal de trabalho. Wally era uma perfeita modelo para suas obras eróticas; ademais, ajudava-o levando obras e mensagens. Schiele pôde também voltar a trabalhar o tema dos jovens nus em ampla escala, já que sua casa não tardou a ficar, novamente, cheia de crianças. Elas encontravam sua porta sempre aberta; além de as paredes estarem sempre cobertas de quadros, ali podiam brincar livremente.

Entretanto, tudo isso compunha um estranho retrato diante dos olhos dos habitantes de Neulengbach. E aqui o fato de Schiele viver abertamente com Wally, sem com ela haver se casado, começou a mesclar-se com as telas e as crianças. Para os camponeses, aquela arte parecia emergir de pecados maiores do que a desencaminhada vida dos dois amantes. Dizia-se que Schiele levava as crianças para a floresta e as despia, com o único fim de incitar sua curiosidade de uma forma nem um pouco aconselhável. E a polícia não demorou a ser convocada.


VI.

Schiele foi preso sob suspeitas de seduzir uma criança e de exibir, em sua casa, o que foi classificado como "pornografia". Durante vinte e um dias, enquanto as investigações eram realizadas, ficou encarcerado, sem a permissão de enviar ou receber cartas. Entretanto, as acusações mostraram-se falsas quando Schiele não foi condenado por nenhuma delas: a de sedução foi logo retirada, e a de porte de material pornográfico, para a qual a pena era de até seis meses de trabalho pesado, custou-lhe apenas três dias na prisão. Durante este período de encarceramento, Schiele criou uma série de desenhos nos quais apresentava sua própria visão acerca da experiência, acompanhados por declarações como "prender um artista é um crime, é assassinar a vida em seu nascimento!" e "pela arte e por aqueles que amo tudo suportarei de bom grado!".

O problema de Schiele não foi violar a lei, mas romper o silêncio. Para as próprias crianças, nada nas telas de Schiele era ofensivo. Segundo Heinrich Benesch – que acompanhou todo o "caso Neulengbach" – era comum que as crianças, no atelier de Schiele, rissem e brincassem com os desenhos; além de, é claro, muitas desejarem ser seus modelos. No entanto, para os adultos, Schiele havia passado dos limites – havia falado demais.

Um primeiro passo em direção a isso já havia sido dado pela forma de vida do pintor; pela forma como ele e Wally ousavam expor-se publicamente. As "pornográficas" telas com as crianças eram, neste caso, apenas o agravante de um crime que, desde o início, já estava sendo cometido – crime este que era o mero fato de Schiele estar na cidade. Se ali fosse estar desta forma, deveria esconder Wally, ou esconder-se. Deveria pintar em segredo, ou não mais pintar. Deveria agir como um puritano, ou não agir.

por
Henrique Marques Samyn
em setembro de 2006

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