Victor Hugo Borges

Artesão de pesadelos

Mesclar humor e morbidez em obras de bom gosto é um desafio que exige delicadeza e talento. Poucos ilustradores (como Edward Gorey) são capazes de produzir histórias e imagens que atraem a simpatia tanto de crianças inocentes quanto dos adultos mais excêntricos. Esta estética foi magistralmente capturada por Tim Burtom no cinema e sua referência imediata é O Estranho Mundo de Jack.

Com semelhante competência, o santista Victor Hugo Borges funde o onírico e o traumático através de diversas modalidades de arte. Suas telas revelam personagens moldadas pelo substrato de pesadelos que, ao invés de perturbarem, atiçam a curiosidade e nos inspiram sorrisos sardônicos.

Recentemente, junto a Cláudio Nascimento, sua criatividade plástica ganhou vida num dos melhores curta-metragens de animação de 2001: Des Fantastik Sucric, que vem sendo devidamente premiado. O filme pode ser descrito de várias formas; alguns diriam que é a releitura de uma piada sobre um circo procurando novos talentos, mas outros poderiam esmiuçar diversos outros detalhes significativos, como a aplicação de paisagens caligarianas às ambientações circences e a riquíssima (e exaustiva) confecção de diferentes imagens plásticas para cada quadro, recurso incomum na animação nacional.

Abaixo, reproduzimos uma entrevista sobre a trajetória, as idéias e planos futuros deste nome que com certeza não passará em branco.


Victor Hugo
Pergunta básica: como começou seu envolvimento com a arte em geral, quando você começou a pintar e a animar?
Bem, como a maioria das pessoas que se envolvem com arte, comecei bem cedo pois tinha certa aptidão para o desenho. Ainda na pré-escola descobri que sabia desenhar e, como era uma criança extremamente tímida, o desenho era minha única forma expressão. O interesse específico, tipo preciso fazer isso o resto da minha vida... veio mais ou menos no segundo grau, quando me envolvia em todos os projetos da escola que tinham alguma coisa de arte, eu era como o diretor de arte da escola. O mais legal é que eu fugia das aulas de matemática para desenhar e pintar cartazes, banners e dar idéias pros coordenadores. A pintura surgiu quase que como um exorcismo... Comecei a pintar, para mim mesmo, nas paredes e portas do meu quarto, esquema rebeldia, sabe? Fazia anjos, freiras, cadáveres e tudo de mais clichê que alguem pudesse fazer com 14 anos. Nessa época já desenvolvia meu estilo, mas só no desenho. Dominava pouco as tintas.

A animação e o vídeo vieram mais ou menos nessa mesma época, quando ganhei minha primeira câmera. Em uma semana, produzi 4 curtas de animação, inclusive o crássico Sábado 14 (uma nova leitura de Sexta-Feira 13 em claymation), tosquíssimo é claro, mas tenho um puta orgulho desse vídeo. Outros dessa época: A execução do Carneirinho, Godzilla vs. King Kong, Bananas de Pijama visitam o velho-oeste e Apodrecendo. A profissionalização veio perto do fim da faculdade em 99, quando lançamos Klaustro. Comprei meu primeiro teclado um ano depois da câmera, nunca estudei, não sou um bom performer e nunca toco músicas dos outros (ficar tirando música é um porre). Comecei a produzir, programar e arranjar há uns três anos. Meu lance em música é trilha sonora, estou tentando me especializar.


Sete Cabeças
Seu estilo mescla algumas características contrastantes, como inocência e sarcasmo, humor e morbidez. Comparações com a estética de Tim Burton ou Edward Gorey devem ser constantes, não?

Sim, e com toda razão. Adoro literatura infantil e pra mim Gorey foi um dos melhores ilustradores de todos os tempos. Quanto ao Tim Burton, sem comentários. O impacto que Os Fantasmas se Divertem teve no meu trabalho foi definitivo. Desde pequeno, fui obcecado pelo cinema de terror e, ao contrário do que geralmente acontece quando se gosta do estilo, eu tinha um pavor mortal, cheguei a vomitar de medo! Ir ao cinema e ficar de costas para a tela era uma coisa normal para mim. Ao mesmo tempo, eu não conseguia deixar de assisti-los, tamanho era o meu dilema. Burton me ajudou com isso. Comecei a enxergar humor e beleza na monstruosidade depois que saí da sessão de Os Fantasmas se Divertem.

A questão do medo ainda é recorrente no meu trabalho. Se não fosse todo o pavor que senti na minha infância e pré-adolescencia, com certeza não teria minha visão atual sobre o assunto.

Você trabalha com inúmeras técnicas, qual delas você considera a mais representativa do seu trabalho?

Bom... Difícil dizer, mesmo porque eu uso de tudo... Mas acho que minhas preferências estão na tinta acrílica, lapis dermatográfico, giz pastel e aquarela, usados tudo junto como técnica mista numa superfície de madeira ou cartão previamente pintados com spray preto fosco. Não me prendo num determinado material, uso o que for melhor para cada situação.

Na escultura, uso cimento celular, revestido com massa plástica, massa epoxi e cera, tento conseguir uma textura meio podre, imagino minhas esculturas como crianças fossilizadas por algum vulcão como em Pompéia, como se tivessem sido pegas em algum flagrante, ou numa situação bizarramente normal. Aquela abertura do Nosferatu, o Vampiro da Noite do Herzog me dá arrepios até hoje.

Você se considera ligado a alguma tradição ou corrente artística?

Isso é complicado... A maioria das pessoas me encaixa no expressionismo, por motivos óbvios, mas eu não sei. É difícil se rotular ou assumir uma postura. Para mim, o expressionismo é o ismo que mais me agrada, de longe, assim como a arte alemã em geral me fascina muito. Penso que todo o lance já passou, soa falso dizer que pertenço a uma corrente que nasceu a tanto tempo em circunstâncias tão próprias. É lógico que a contemporanenidade dos temas expressionistas confunde as pessoas nesse sentido, mas pessoalmente é dessa forma que vejo as coisas. E, cá pra nós... Adoro ser chamado de expressionista!

Na verdade sou meio traumatizado com o termo artista. Moro numa província que pensa que é metrópole e aqui tem bastante desse bicho sitado entre aspas. Ninguém vende, ninguém tem dinheiro, ninguém conhece porra nenhuma e todos arrotam caviar. Prefiro ser chamado de ilustrador, video-maker, animador, artesão, o diabo... mas artista é o caralho!

Qual seu relacionamento com as instituições de cultura e galerias em geral?

Voltando um pouco pro tema anteror, prefiro expor no Madame Satã do que numa galeria não direcionada daqui. Prefiro que ninguém veja meus trabalhos do que ter que escutar um monte de velhos pseudo-aristocratas falando as maiores besteiras e se estapeando por canapés baratos ao som de algum saxofonista tosco. Aos poucos, quero conseguir uns contatos legais em São Paulo e expor em lugares alternativos, enfim, ir me infiltrando onde poderei vender melhor.

Meu objetivo não é só vender os trabalhos, e sim estabelecer meus conceitos visuais. Fazer com que as pessoas conheçam minhas idéias e as relacionem com meus vídeos. Só fica um pouco difícil se dedicar a organizar exposições e produzir ao mesmo tempo.


Des Fantastik Sucric
Como foi realizado o curta de animação Des Fantastik Sucric? Como está sendo a recepção dele?

Começamos o projeto há quase 2 anos (fiz o filme com um colega de faculdade chamado Cláudio Nascimento). Fizemos um roteiro pensando no Festival do minuto, o design, as pinturas pros cenários. Fizemos tambem testes de animação e íamos começar a filmar com uma câmera Super VHS. Houve problemas com câmera e com um figura que faria a pós-produção. Não daria tempo de terminarmos tudo para o Festival do minuto. Decidimos adiar a produção até que tivéssemos estrutura física para fazer o filme sem depender de ninguém. No fim do ano passado, começamos a montar um computador pra lidar com vídeo e, no começo desse ano, compramos uma camera digital e os programas necessários para realizar o curta. Em cerca de dois meses, demos os retoques finais na pré-produção, captamos e finalizamos o ...Sucric. O filme ficou com 2 minutos, esquecemos o Festival do Minuto...

Há uns dois meses, conseguimos um patrocínio da Secretaria de Cultura de São Vicente (onde lecionamos animação) para transferir o original em vídeo para película 35mm. A recepção em geral está sendo muito boa. Já entramos em diversos festivais e ganhamos uma menção honrosa no Festival de Vitória. A vida útil de um filme (em festivais) é de mais ou menos um ano e meio e ...Sucric está circulando há menos de 6 meses. Espero ter mais boas novas sobre ele.

Em quais projetos você está envolvido atualmente? Há algum aguardando patrocínio?

Estamos com dois projetos aguardando liberação de patrocínio. Sofítria e Duo-Verso. Ambos são animações. Porém, muito diferentes em seus aspectos interiores. Há outros projetos em mente, como um documentário sobre a loucura e um vídeo-zine de arte obscura e marginal (produção a cargo de Mayra Lucas R. Borges).

O que você poderia nos adiantar sobre eles?

Sofítria é uma história sobrenatural (baseada numa idéia original da Mayra) que pretendo filmar em stop-motion. Era só um conto, mas achamos o argumento tão legal que resolvemos roteirizar. É sobre um velho bonequeiro que perdeu sua pequena filha num acidente e passou toda sua velhice tentando reproduzí-la numa boneca perfeita. A partir daí, fantasmas de crianças passam a aparecer na sua casa e, estranhamente, esses fantasmas sempre são idênticos às suas criações... Duo-verso é uma idéia do Cláudio Nascimento. Trata-se de uma viagem surreal sobre unidade e dualidade, também em stop-motion. Napoleones Est é um documentário que aborda os apectos relativos da loucura em estética de vídeo-clipe. Inferia (nome provisório, aceito sugestões), vídeo-zine maldito de edição bimestral que contará, em todas edições, com vídeo-arte, performances, enquetes, entrevistas, ensaios e musicais. Com um acabamento profissional, os zines serão temáticos - o primeiro tema será o Suicídio.

Alguma banda já o procurou para produzir seus vídeo-clipes?

O vídeo-zine citado contará, além de matérias temáticas, com vídeo-clipes já produzidos (legalmente cedidos) e inéditos (produção própria), bem como registros ao vivo. A primeira banda contactada foi o Aghast View. Há tambem o interesse (da minha parte) das bandas Elegia e Sleepless participarem. É um projeto ambicioso. Sem fins lucrativos, que infelizmente necessita de patrocínio para sobreviver. Por mim eu bancava, porém...