Morte

Sob o sorriso da meiga ceifadora

Na cultura ocidental, quando se fala em morte, de imediato as pessoas costumam se persignar, isso quando não procuram um pedaço de madeira para dar três batidinhas. Quando se imagina como ela pode ser, caso pudesse ser personificada, a primeira imagem que vem à cabeça é a figura do século XII descrita nos poemas de Hélinand de Froidmont: uma caveira vestindo um hábito negro, equipada com uma foice enorme de ponta encurvada.

Nos paises norte-europeus, o termo morte é masculino, o que determinou a virilidade da maioria de suas representações: no filme A Morte Cansada, de Fritz Lang, a morte é representada por um homem macabro, vivido pelo ator Berhardt Goetsky. A mesma representação foi usada em diversos outros filmes, como, por exemplo, O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman. Já na cultura oriental, a Morte é uma figura orgânica que representa a transformação e a mudança.

Entre as inúmeras concepções e personificações da Morte, uma tornou-se influente entre as massas através do conto Olavinho fecha-os-olhos de Hans Christian Andersen, em que a Morte é um elegante, nobre e justo cavaleiro militar. Foi supostamente baseado nesse conto que certo dia o escritor e roteirista Neil Gaiman, criador da saga em quadrinhos Sandman, juntamente com Mike Dringenberg, resolveu criar uma nova identidade para a Morte. A dupla decidiu que a Morte seria uma garota alegre, bonita, de estilo "punk/gótico", de bem com a vida e muito sábia.

A saga Sandman, pela DC Vertigo, narra a história de Morpheus (Sandman), o "perpétuo" que rege o Sonhar, uma espécie de cidade dos sonhos e das ilusões. A família dos perpétuos é composta por sete imortais anteriores à criação do universo. São todos irmãos: Morpheus, Destino, Delírio, Destruição, Desejo, Desespero e Morte.


A "nova personagem" de Gaiman, deveria possuir um amuleto, assim como todos os demais perpétuos. Este amuleto seria tão importante quanto ela própria, e o símbolo escolhido pelo autor veio a ser a cruz Ansata, popularmente conhecida como Ankh: a chave da vida, símbolo que representa a vida eterna para os Egípcios. Neil Gaiman, desde criança, fora influenciado e fascinado pela cultura egípcia, motivo pelo qual ele talvez tenha associado sua nova personagem à iconografia egípcia.

Nos quadrinhos

A primeira aparição original da Morte na saga Sandman aconteceu em 1989, na edição n° 8 intitulada O Som de Suas Asas. Feita pelo então parceiro de Gaiman, Dave McKean, a capa trazia uma ilustração magnífica da Morte, que fora baseada em um rabisco feito por Dringenberg. Na ilustração, ela possuía asas, feição suave, aparência tranqüila e o amuleto Anhk à mostra.

Um ano depois, em outubro de 1990, a Morte teve uma pequena aparição na mini-série Os Livros da Magia. Seu sucesso e sua identificação com o publico foi tão grande que mais tarde outra mini-série a traria, só que, desta vez, ela seria sua protagonista. Em 1993, Morte – O Custo da Vida superou as expectativas. A história contada em três edições, fala sobre um garoto que tenta cometer suicídio devido a uma crise adolescente existencial. Assim sendo, a Morte, apresentada primeiramente como a mortal Didi, revela a Sexton o grande sentido da vida.


Morte, por Luciana "Sara Liu" Abrão
Foi nesta série que o desenhista Chris Bachalo imortalizou a figura da Morte, como a conhecemos hoje, tornando-a referência básica para todos os artistas de Sandman.

Após algum tempo, o amor do público de Neil Gaiman pela personagem foi tomando uma proporção gigantesca, viabilizando a segunda mini-série da personagem. Em 1996, Morte – O Grande Momento da Vida, também em três edições, explora a narração pelo lado maduro, contando a dramática história de um casal de lésbicas, que enfrentam um grave problema, envolvendo uma criança e acordos com a Morte.

Como na primeira mini-série, a aceitação não foi diferente. A simpatia pela personagem cresceu ainda mais. Logo, a Morte se tornou a personagem favorita de Gaiman, para a maioria dos fãs do autor. Tendo sempre participação ativa na saga que lhe deu origem, que veio a ser encerada no ano de 1996. No ano de 2003, foi lançado, o mangá Morte – A Festa escrito e desenhado por Jill Thompson, até aqui o trabalho mais recente envolvendo a personagem.

Neil Gaiman foi muito feliz em transpor um mito "duro" para uma realidade cotidiana de forma madura, simples e natural. O mais interessante, além de a personagem ser o oposto da imagem estereotipada por quase todas as culturas, é o fato de ela ser uma figura otimista e versátil. Ela age de acordo com o momento, faz as coisas certas, de tal maneira que todos os envolvidos ficam bem consigo. Conseguiu trazer para o nosso dia-a-dia corrido e ausente de sonhos, na forma de quadrinhos, a mensagem que expressa o valor da vida, o quanto ela pode ser natural e simples.

Enfim, uma forma diferente de entender e aceitar a Morte: como um fenômeno natural. Afinal, quem é que não quer se encontrar com "ela", desse jeito, no grande momento da vida?

por
Luciana "Sara Liu" Abrão
em setembro de 2006

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