Gunther von Hagens

O escultor da carne humana

Neste mundo contemporâneo, as mudanças no fazer artístico cada vez confundem ou instigam mais, com releituras e outras tantas criações radicais. A fusão dos dois conceitos parece ser a intensão do alemão Gunther von Hagens. Formado em medicina pela Universidade de Heildelberg, na antiga Alemanha Oriental, ele logo percebeu o caminho paralelo entre a arte e o seu trabalho.

A deterioração é um processo iminente e, já que alguns espécimes encolhem consideravelmente quando expostos às circunstâncias atmosféricas, o homem, desde a Antiguidade, desenvolveu uma série de métodos que visam preservar os tecidos orgânicos.

Desde 1977, Hagens desenvolve um desses métodos, a "plastinação", que, com requintes técnicos surpreendentes, buscar preservar o tecido de maneira perfeita, quase causando a ilusão de vida. Usa-se o vácuo para borrifar um polímero reativo, como a silicone de borracha ou o poliéster, em um material biológico. A classe do polímero usado determina as propriedades (flexíveis ou rígidas), ópticas (transparentes ou opacas) e mecânicas. O resultado final torna os exemplares secos, inodores, duráveis indefinidamente. Mais ainda. Retêm o seu relevo original e a identidade celular. Para isto, o processo requer quatro passos: Fixação, Desidratação, Impregnação Forçada e "Cura".


Gunther von Hagens
Obviamente, foi apenas uma questão de tempo até que a técnica abarcasse projetos artísticos. Não que usar corpos humanos para fazer arte também tenha sido uma grande novidade, pois não foi. Basta checar os livros de história da arte. Mas Gunther von Hagens vai ao extremo na criação de sua obra. Cenários de rara beleza são conseguidos através de corpos humanos e até de fetos e crianças.

Body Worlds - Saudade de uma arte das antigas


Macabro, apelativo ou arte? Inaugurada no Japão em 1996, a exposição Body Worlds chegou a Londres causando um enorme barulho, protesto, controvérsias e o que todo artista gosta, muita atenção.

Cadáveres e pedaços de corpos são expostos como se fossem modelos mal-construídos. Mas os detalhes que remetem aos seres humanos continuam evidentes: unhas, dentes, sobrancelhas. Órgãos espalhados criando um universo próprio e intrigante.

Apesar dos corpos estarem sem pele, a humanidade não perdeu suas características. Você ainda seria capaz de imaginá-los numa vida normal. A arte do mestre escultor e da plastinação apresenta o seu vigor de maneira impressionante.

São 26 cadáveres e 180 pedaços de corpos os destaques da polêmica exibição. Segundo von Hagens, a idéia é ser didático, ensinar as pessoas a enxergarem como um corpo humano funciona. Mas ele também admite a idéia de um valor artístico para os trabalhos lá expostos. Aí é que começa a história toda... Ao mesmo tempo em que é inegável o valor apelativo deste tipo de trabalho, o desejo mórbido é ativado: seria por conta de algum valor artístico ou apenas um lado animal trabalhando de maneira mais evidente?


Body Worlds apresenta, por exemplo, um cadáver montado em um cavalo e segurando um cérebro com a mão esticada. Um mulher como se nadasse no ar e cortada ao meio. E a obra mais polêmica, uma mulher, grávida de oito meses, dissecada, com o feto aparecendo em seu útero.

A organização dos cadáveres desta maneira foi resultado de uma pesquisa para evidenciar o trabalho completo do corpo humano, como os ossos se juntam e como os músculos aparentam em determinadas posições. Também há uma coleção de fetos, para mostrar como age o desenvolvimento. Com esta temática, os críticos ingleses caíram em cima. Segundo alguns deles, a exposição não passa de um show de horrores vitoriano.

Von Hagens responde: "É óbvio que o problema de se negar a morte é um problema da pseudo-intelligentsia artística". Eu iria até mais longe. É um problema moral ultrapassado e infantil, um lado irracional e protecionista que não admite beleza no corpo humano após o término da vida, um problema reacionário e quase religioso. Trabalhar com a carne humana inerte é impactante, desperta questões estéticas e filosóficas. Típicas de um estilo saudosista de ser fazer arte, onde estes dois pontos, estético e filosófico, tinham mais valor do que um mero conceito rabiscado ao lado de uma instalação.

O artista vai ao limite. Trabalha com concepções quase renascentistas para esmiuçar a perfeição. Faz também uma clara apologia à criação humana feita em seu próprio cerne. Em um tempo onde estamos rodeados de tecnologias, avanços da cibernéticas e construções artísticas cibervirtuais, Gunther von Hagens cria sua arte fundamentanda na ciência de realismo exacerbado.

por
Danilo Corci
em setembro de 2006

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