Prazer, violência e morte

O conto "The Lottery" e a psicologia do linchamento

O que mais impressiona no filme The Fury – dirigido por Fritz Lang, sendo seu primeiro trabalho em Hollywood – talvez seja a exemplificação clara e direta, através de imagens de grande impacto, das teses posteriormente apresentadas por Elias Canetti sobre as massas de perseguição. E esse mesmo elogio pode ser feito para algumas obras de literatura, sendo que o conto The Lottery, de Shirley Jackson, nesse sentido é uma obra exemplar. Se, por um lado, Lang mostrou, da maneira mais completa possível, as etapas – psicológicas e físicas – atravessadas por uma massa de linchadores, Shirley Jackson apresentou em seu conto alguns aspectos interessantes que estão na base da mentalidade agressiva e gregária das massas em geral – e não apenas das massas de perseguição. Escritora norte-americana, Jackson foi uma autora que, como Patricia Highsmith, Muriel Spark ou Angela Carter – para citar apenas três exemplos de uma ampla tradição literária feminina que, no pós-Segunda Guerra, operou revoluções moleculares nos gêneros literários estabelecidos com doses de perversidade do desejo variadas –, iniciou sua carreira logo após a Segunda Guerra Mundial – e, como essas duas autoras, opta por apresentar as mesmas ambigüidades e perplexidades estilizadas diante da indústria cultural, dos problemas ideológicos postulados pelo totalitarismo, da degradação da cultura e do meio ambiente etc.

Nascida em 1919, Jackson se graduou na Universidade de Syracuse, casando-se posteriormente com o professor de literatura Stanley Edgar Hyman. Mãe de quatro filhos, compartilhava como podia a vida de dona-de-casa com a de escritora, compondo seus textos durante a noite – momento mais livre de sua rotina. Escreveu novelas – como The Road Through the Wall (1948), Hangsaman (1959) e The Haunting of Hill House (1959), sua obra mais conhecida e que ganhou duas adaptações cinematográficas: a primeira dirigida por Robert Wise e a segunda, por Jan de Bont – e contos, como The Lottery – o mais conhecido –, The Demon Lover e The Witch. Fascinada pelas energias que brotam do irracional – atualizadas, em suas obras, em formas ambíguas e perversas de sobrenatural – costumava afirmar, em tom de brincadeira, que era uma “bruxa aficionada especializada em magia negra em pequena escala”. Entretanto, seu conto The Lottery não é constituído por elementos obviamente fantásticos – bruxas, fantasmas, demônios, aparições etc. A autora optou por uma forma mais alegórica, se aproximando de textos de um autor como Franz Kafka – em especial, Na Colônia Penal. O objeto central do conto de Shirley Jackson é a descrição de uma curiosa e sanguinária tradição de uma pequena vila que, por certos detalhes como os nomes das personagens e referências a fatos culturais como o Halloween, supomos norte-americana. Aí – todos os anos, no dia 27 de junho – celebra-se uma loteria. O que é sorteado nessa loteria não são brindes ou dinheiro, mas a morte: as pessoas sorteadas, que terminam com um papel em branco com uma mancha negra ao centro, são apedrejadas até a morte. No conto, a escolha da vítima para o linchamento se dá em duas fases: na primeira rodada, um representante dentre os representantes de todas as famílias da cidade é escolhido; na segunda fase, o sorteio é realizado entre os membros da família escolhida: marido, esposa e filhos. A narração é tensa e o, mesmo com todas as pistas fornecidas pela autora durante a narrativa, o final é imprevisto pela violência e pela montagem de diálogos entre personagens, cinematograficamente construídos. A autora – seguindo a tradição de grandes contistas norte-americanos, como Edgar Allan Poe, O. Henry, Henry James e H.P. Lovecraft – sabe criar um tipo curioso de suspense literário, uma espécie de gimmick escrito: sem enganar o leitor – falsificando impressões, alterando bruscamente e sem explicações à psicologia de determinada personagem ou forçando conclusões mirabolantes que escondem as deficiências do todo – Shirley Jackson acumula uma série de pequenos detalhes que levarão, inexoravelmente, à conclusão do conto. É como se estivessemos em outro mundo, feito de pequenos deslocamentos do cotidiano que, somados, se transformam em uma realidade turva, diferente, aterrorizante. A composição e criação desses efeitos sutis, entretanto, compõe um retrato, bastante definido, da psicologia de massas de um grupo de linchadores.

Antes de prosseguirmos na análise do conto The Lottery, vale a pena apresentarmos, resumidamente, algumas características do conceito de massa de perseguição, conforme formulado por Elias Canetti em seu tratado Massa e Poder. Para Canetti

A massa de perseguição se constitui tendo como finalidade conseguir uma meta rapidamente. Esta é conhecida e está assinalada com precisão; além disso, encontra-se próxima. Sai para matar e sabe a quem quer matar. Com uma decisão incomparável, avança até sua meta; é impossível privá-la desta. Basta fornecer tal meta, basta comunicar quem deve morrer, para que a massa se forme. A concentração para matar é de natureza particular e não há nenhuma que a supere em intensidade. Cada qual quer participar dela, cada qual golpeia. Para poder acertar seu golpe cada qual abre caminho até as proximidades imediatas da vítima. Se não pode golpear, quer ver como golpeiam os demais. Todos os braços saem como de uma e da mesma criatura… Razão importante do rápido crescimento da massa de perseguição é a ausência de perigo na empresa. Não há perigo porque a superioridade do lado da massa é total. A vítima nada pode fazer. Foge ou perece… O assassinato permitido substitui todos os assassinatos que uma pessoa teve de abster-se a cometer e cuja execução pode acarretar uma dura punição. Um assassinato sem risco, permitido, recomendado e compartilhado com muitos outros implica uma sensação irresistível para a grande maioria dos homens. Sobre isso cabe dizer que a ameaça da morte que pende sobre todos os homens e que sob diferentes disfarces está sempre ativa, mesmo que nos confrontemos com ela, faz necessária uma derivação da morte sobre os outros.

No conto de Shirley Jackson, todos os aspectos levantados posteriormente por Canetti surgem transfigurados pela estruturação alegórica do conto. O primeiro desses aspectos diretamente relacionado às características da massa de perseguição levantadas por Elias Canetti é a apresentação, dentro do conto, das personagens. A ordem, a apresentação e a estrutura psicológica dessas personagens, dentro de The Lottery, possui um significado é uma função específicos: dentro da alegoria montada, a autora delimitava a atuação e a importância de cada membro da sociedade no crime coletivo. Assim, os homens ocupam o posto mais importante na hierarquia do linchamento em The Lottery: são os homens que representam as famílias e conduzem a cerimônia. Mas são as crianças que executam, com esmero, os primeiros preparativos para a execução do linchamento, como escreve a autora:

As crianças foram as primeiras a chegar, logicamente. As aulas haviam terminado há pouco tempo, para o verão, e o sentimento de liberdade gerava inquietude na maioria delas; costumavam se reunir em silêncio durante um momento, antes de se atracarem en jogos turbulentos, e mesmo assim falavam das aulas e do professor, dos livros e das reprimendas. Bobby Martin já havia enchido os bolsos de pedras, e logo seguiram seu exemplo os demais, escolhendo as mais lisas e redondas… As meninas se mantinham afastadas, falando entre si, observando os meninos por cima do ombro, e os bem pequenos brincavam no pó ou estavam de mãos dadas a seus irmãos e irmãs maiores.

A autora, como é possível perceber, notou a aproximação entre um agressivo bando de linchadores e uma alegre massa festiva, dentro de uma atmosfera que se pode contemplar no caso dos torcedores de futebol. Canetti também percebeu essa tendência presente nas massas de perseguição, que terminam por se converter em massas festivas:

O arrependimento de malfeitores ou infiéis às vésperas da morte, que os eclesiásticos buscam por todos os meios devido à pretextada intenção de salvar as almas, têm também este sentido: de converter a massa de perseguição em uma futura massa festiva. Cada qual deverá ver confirmada sua boa intenção e crer na recompensa, que lhe espera nesta.


Capa da edição da Lion Books, 1950.
Cabem, neste ponto, algumas reflexões sobre a forma de morte oferecida ao sorteado como prêmio pela comunidade: o apedrejamento. Canetti, ainda em Massa e Poder, afirma que o apedrejamento ocupa uma posição de relevo na constituição psicológica das massas de perseguição: é possível atingir o inimigo objetivo – aquele que, por algum motivo obscuro e árbitrário, será morto por uma coletividade constituída com esse fim – com objetos que, por serem atirados por muitos membros da massa de perseguição, simbolizam essa massa como um todo. Assim, todos os membros da massa se sentem participantes do crime, pois sua ação na morte da vítima parece mais clara e efetiva – nesse mesmo trecho, Canetti, afirma que o fogo, eventualmente, ocupa essa mesma função com efeitos psicológicos semelhantes. É devido a essa função psicológica, provavelmente, que essa forma de execução seja uma das mais antigas formas de crime coletivo publicamente executado que se têm notícia, e que continua corrente mesmo nos dias de hoje – dentro do universo de repúblicas e monarquias islâmicas, por exemplo. Parece-nos que a autora preferiu colocar em cena o apedrejamento exatamente por suas características arquetípicas. Mas a escolha da vítima para a ávida massa de perseguição representada pelos habitantes de uma pequena cidade rural e sua tediosa existência apresenta algumas características interessantes. No conto, o acaso interfere não apenas na escolha da vítima, mas na determinação dos papéis de verdugo-participante e vítima-encurralada. A correspondência entre os papéis – que só são determinados pelo acaso da loteria – insinua uma perspectiva bastante radical: o perseguido, direta ou indiretamente, participa da própria perseguição, enquanto está integrado na massa de linchadores, exorcizando, assim, o Mal que toda a comunidade comete cotidianamente, mas que não pode aflorar nunca. Na falta de alvos externos, a fúria totalitária dos membros dessa massa de perseguição se volta contra seus próprios membros. Sem dúvida, essas sombrias reflexões que constituem o pano de fundo de The Lottery foram sugeridas, em parte, de forma consciente ou não, à Shirley Jackson pela realidade histórica, bastante próxima, do totalitarismo e da Segunda Guerra Mundial.

O escritor argentino Jorge Luis Borges foi, nesse sentido, um precursor direto do conto de Jackson, ao figurar a loteria como arquétipo do poder arbitrário em "La loteria en Babilonia" – texto publicado na coletânea de contos Ficciones, de 1944. Na narrativa de Borges, como na de Jackson, a loteria ocupa o centro do mundo: um narrador descreve a evolução do jogo de azar, da brincadeira com o acaso, de um jogo plebeu, até consituir-se em frame absoluto de toda a sociedade. Essa transformação essencial é sublinhada por Borges, e ocorre justamente no momento em que a loteria já não comporta elementos pecuniários, mas metafísicos. Desse momento, surge uma sociedade determinada por sucessivas e infinitas loterias – que podem decidir a sorte de cada um em cada detalhe, em cada imprecisão – coordenadas por uma Companhia todo-poderosa. Mas Borges vai além do brilhante exercício de alegoria política: sua Babilônia é um reflexo de um universo de indeterminação, para o qual a própria noção de acaso é uma criação fictícia, necessária à manutenção da própria Humanidade.


Retrato da autora.
Mas existe uma outra fonte dos insights da autora quanto à constituição e formação de massas de perseguição, pois, ao lermos a descrição brutalmente direta das crianças, em The Lottery, que preparam as pedras alegremente ou de uma vizinha, poucos minutos antes do sorteio tão amistosa, mas que carrega uma pedra enorme para esmagar aquela que foi assinalada pelo sorteio, não nos provoca uma vertigem de horror por sua aparência familiar e prosaica? E a escolha de uma loteria como veículo do Mal também não é aproximar objetos familiares, inofensivos, cotidianos, de um Mal que, nas mãos da autora, se lhes torna inerente? Parece-nos claro que a autora retirou sua inspiração da realidade cotidiana, de seu dia a dia como mãe de família e dona de casa. Nas noites, após as cansativas tarefas diárias, assumia uma nova postura e transfigurava – apresentando uma onipresente presença do Mal provocado por forças irracionais – seu universo familiar. Entretanto, devido, talvez, à força psicológica dos laços que a prendiam, não podia representá-los diretamente e nem poderia apresentar personagens que o superassem sem traumas os laços com o grupo que, em maior ou menor intensidade, simboliza a família. Assim, o destino de sua personagem central no conto, Tessie Hutchinson, é a morte por apedrejamento, paralela à sua exclusão do grupo. Já no romance The Haunting of Hill House (traduzido como A Assombração da Casa da Colina), é ainda mais significativa a posição da outsider: a personagem Eleanor, quando consegue se libertar do grupo de aventureiros – uma forma sublimada do núcleo familiar – só encontra a morte em um tenebroso suicídio dirigido por forças irracionais.

Nas obras de Shirley Jackson, de um modo geral – e o conto The Lottery é um dos ápices de sua produção, tanto no campo narrativo e simbólico quanto em seus significado para a compreensão da produção da sua autora – representa esse impasse que é a consciência, dentro de um contexto que lhe é adverso, refletindo sobre a repressão nas esferas individual e coletiva. Por adverso, não pretendemos qualificar apenas o casamento, mas as inúmeras instituição humanas que se sustentam, de certa maneira, na má-fé (o trabalho assalariado, o casamento, os tribunais de justiça, as escolas etc.). No caso da autora de The Lottery, temos o conflito – que termina em empate – entre o mundo do indivíduo e seu terrível invólucro externo, a sociedade; entre a repressão individual e a coletiva; entre a revolta e a submissão. Poderia-se afirmar que essas contradições condicionam seus insights mais expressivos e, ainda que Shirley Jackson jamais tenha visto os meetings do partido nazista (como Fritz Lang, autor de The Fury) nem as violentas greves e manifestações partidárias de comunistas e nazistas (como Elias Canetti) ela intuiu, a partir de sua própria experiência privada, muitas das caracterísitcas de um fenômeno totalitário coletivo, confirmando a correspondência entre a repressão em um plano individual e em um plano coletivo.

Nota: As informações biográficas – bem como a tradução para o espanhol, realizada por Ana Poljak e entitulada "La Lotería” – foram consultadas a partir de uma excelente coletânea de escritoras do gênero fantástico: FOIX, J. A. Molina (ed.). La Eva Fantástica: De Mary Shelley a Patricia Highsmith. Madrid, Ediciones Siruela, 1996. A tradução que utilizamos do ensaio de Elias Canetti é CANETTI, Elias. Masa y Poder. Madrid, Alianza Editorial / Muchnik Editores, 1995, p. 43-44.

por
Alcebíades Diniz
em setembro de 2006

proposta do site | sobre a cultura gótica | créditos | contato
1998/2002 © Carcasse.com | comunidade virtual da arte obscura