Os mil e um orientes

Desmistificando as falácias de um jornalista

Se buscássemos uma narrativa que sumarizasse emblematicamente todos os embates do Ocidente e do Oriente Próximo a tragédia Medéia, de Eurípedes, seria escolha inevitável. Nessa peça, Jasão, encontra a bruxa oriental Medéia, tratando logo de seduzi-la para concretizar sua demanda: a busca pelo velo de ouro. Ambos se apaixonam e Medéia torna-se mãe de dois filhos do heróis grego; nessa primeira etapa, temos uma aceitação ativa, fascinada até, e uma busca utópica por uma espécie de comunhão absoluta de ambas culturas. No segundo momento, Jasão abandona Medéia para se casar com a filha de Creonte, rei de Corinto, Gláucia; trata-se do momento no qual a utopia dilui-se, o fascínio envelhece, e a dura condição de pária não assimilado, latente, torna-se fato no campo da rejeição – cercada de cuidados, entre o medo obscuro do Outro e a hipocrisia – e a Medéia é ordenado que abandone a cidade, uma espécie de deportação avant la lettre, realidade cotidiana de muitos imigrantes. Submissa, Medéia implora um dia a mais na cidade, no que é atendida com relutância, e aproveita-se disso para assassinar Gláucia, mandando-lhe como presente de casamento uma vestimenta envenenada, e seus dois filhos com Jasão, antes de matar-se. O trágico da conclusão da narrativa é a própria essência dessas duas formas de tratar o Outro oriental, aceitação fascinada e rejeição hipócrita, e seu resultado mais evidente: a destruição de ambos, pois sem a possibilidade de interpretação crítica e projeção histórica, ambas as culturas, Oriental e Ocidental, são apenas ídolos, fetiches vazios para adoração e execração deste ou daquele grupo, ou fantoches que qualquer um pode preencher à vontade, com o que bem convier. Mas a universalidade da Medéia de Eurípedes, sua transparência – não por acaso serviu de inspiração para diretores de cinema anticonvencionais, de Pasolini a Dreyer, desembocando em Lars Von Trier – advém, justamente, do fato de sua tragédia se repetir continuamente ao longo da História, seja no domínio político, seja nesse campo abstrato que costumamos chamar "Cultura".

No universo da Cultura, aliás, os tempos hodiernos são dominados por uma fascinação – a primeira etapa de Medéia – pelo que poderíamos chamar "orientalismo". E, com isso, não estamos evocando o popular e abstruso conceito forjado por Edward Said, mas designando um sentimento mais simples: ignorar o velho dito de Terêncio – "Tudo o que é humano não me é estranho" – e construir tradições conflituosas e irreconciliáveis Ocidente-Oriente. Tradições essas tão conflituosas que não tiveram resolução até o momento no qual a cultura Ocidental – de toda a forma, direta ou indiretamente, decadente – abdicou parte de sua existência e, sabiamente, absorveu os eflúvios orientais: religiosos, filosóficos e, claro, artístico-literários. A globalização teria dado esse golpe de misericórdia redentor, embora os orientalistas da moda – todos eles com amplo acesso aos meios mediáticos – discordem, algumas vezes, sobre qual globalização foi essa: como as Grandes Navegações foram um tipo de globalização e ampliação do escopo cultural, o mesmo valendo para a Renascença européia – do ponto de vista espiritual – a rendição do Ocidente estaria nesses primeiros ensaios de multiculturalismo. É a opinião de Georges Bourdokan, escritor que defende a tese de que a Divina Comédia de Dante teria inspirações claras de obras literárias árabes. Outros, contudo, entendem o papel redentor das mídias como o único catalisador possível para essa redenção do Ocidente e de sua cultura, a par e passo com a "democratização" do consumo garantida pela tecnologia. Orientalistas desse último grupo aliam a fé cega no medium como elemento crucial de mudanças no mundo à visão, já focada no parágrafo anterior, de fascinado e acrítico louvor daquilo que, em imagens padronizadas, entendem como "Oriente", entidade fantástica dotada de características múltiplas e que, selvagem, exige sacrifícios para se deixar capturar.

O jornalista Renato Pompeu pertence ao último grupo, coisa que se torna clara quando lemos o artigo de sua autoria publicado na revista Bravo! de outubro de 2005, cujo título é "Vinte anos de revolução nas letras". A proposta que norteia o texto de Renato Pompeu é rastrear, através da "comparação aleatória" – nas palavras do autor – das listas dos dez livros mais vendidos, tradicionalmente publicada na revista semanal Veja, vinte anos de alteração cultural: o primeiro marco é a lista do mês de agosto de 1985 e o último, o mesmo mês do ano de 2005, exatos vinte anos depois. O box com a chamada do texto poupa o trabalho do leitor mais afoito, revelando as premissas essenciais do artigo: que a mudança, evidente e óbvia, na lista top ten daquela revista semanal refletiria duas mudanças cruciais e profundas no âmbito da Cultura, que seriam essa tendência ao "orientalismo" e a deselitização do público leitor. Para tanto, inicia seu texto referindo-se explicitamente aos caminhos e desenvolvimentos históricos completamente inesperados que esses vinte anos garantiram: da redemocratização do Brasil à crise do governo Lula; das reformas políticas de Gorbatchev à derrocada do PT; da ascensão dos EUA como potência mundial e "império" único ao ataque direto, realizado pelo viés terrorista, diretamente ao coração desse "império" etc. O autor não esquece de mencionar também a revolução tecnológica, Internet, robotização, redes e afins. Contudo, todas essas mudanças históricas apenas preparam o terreno para aquilo que o articulista chama de "grande revolução cultural mundial", indicada por uma assim chamada "mudança nos hábitos de leitura" refletida no top ten literário da revista Veja. Após apresentar sua premissa maior, o autor se dedica à comparação propriamente dita das duas listas: começa por enumerar a diferença que considera crucial, a saber, a presença, na lista de 1985, de autores pertencentes à "cultura superior" – praticamente ausentes da lista de 2005, à exceção de Gabriel Garcia Marques. A esse fato primeiramente percebido, o autor vai agregando e empilhando outros: o crescimento do número de livros de um tema – a assim chamada "auto-ajuda", ou seja, livros cuja temática mescla diversos formatos de crença religiosa e irracionalismo pseudo-científico para atingir o leitor, temática que Renato Pompeu amplia com a criação de um conceito interessante, batizado por ele de gênero, o "sobrenatural edificante" – entre os mais vendidos; a persistência de obras policiais em ambos os top ten, com a diferença de que a lista de 2005 focaria mais um policial baseado no jogo de fatos históricos, na brincadeira meta-literária de "jogar com o real"; os efeitos da globalização na reduzida participação de autores brasileiros na lista de 2005; o fim das promessas de utopia política com a falência das experiências de socialismo "real" e o renascimento do irracionalismo religioso. Até aqui, Renato Pompeu apenas enumera e recontextualiza – nem sempre acertadamente, uma vez que o autor esquece o sólido mercado de literatura espírita, que não poderia ser reduzido a um modismo religioso orientalista, haja vista a vasta base ocidentalizada e de ressonância, configurando sólidos exemplos de best selling desde o século XIX – fatos mais ou menos evidentes. A partir da questão religiosa é que nosso autor arrisca sua primeira hipótese mais concreta. E é nesse momento que o orientalismo surge com bastante evidência.

Mas vejamos o que conclui Renato Pompeu a partir da evidência "fim da utopia = entronização do universo religioso". Após diferenciar a tradição do ocidente desde Aristóteles (que separa história de poesia, realidade factual de narratividade), o autor desenvolve o raciocínio de que, com a influência cultural do Oriente, facilitada pela globalização, a referida tradição apresentaria doravante fraturas decisivas:

Tanto O Código Da Vinci, de Dan Brown, quanto O Zahir, de Paulo Coelho, que relatam experiências místicas e realidades estranhas ao cotidiano, se apresentam, ou melhor, são lidos no Ocidente como relatos históricos, capazes não só de incrementar a cultura, mas também de servir de exemplos de vida a serem seguidos. Pode-se dizer mesmo que estamos assistindo à proliferação de novos livros sagrados, como são sagrados os livros de tradições orientais, aí incluídos o Velho Testamento dos judeus, o Novo Testamento dos cristãos, o Alcorão dos muçulmanos, os livros sagrados do hinduísmo, do budismo, do confucionismo e do xintoísmo.

Ainda sem entrarmos no mérito dos silogismos de Renato Pompeu, podemos perceber uma clara confusão de instâncias: qual o estatuto de um "livro sagrado", como os citados pelo autor? Seriam as vendagens de cada um? Acreditar que modismos mais ou menos passageiros constituiriam "visões" permanentes e estruturantes de uma cultura, como é o caso dos livros de Dan Brown (o mesmo valeria para uma J. K. Rowling) não seria apressado? E não seria estranho incluir em uma construída "tradição oriental" o Novo Testamento, que foi estruturado pela Igreja em plena Idade Média e teve uma substancial porção escrita em grego, o idioma pertencente ao Ocidente que estava justamente em pleno processo de superação? Mas Renato Pompeu não se deixa interromper por uma que outra eventual consideração (ou contradição) e continua:

Assim, a comparação entre os livros mais vendidos de1985 com os de 2005 nos leva a crer que estamos assistindo não à mudança da envergadura de duas décadas (sic), mas da envergadura de dois milênios. A humanidade está não só à procura da volta da religiosidade, mas também em busca de novas religiosidades – mais exatamente não uma nova grande religião universal, mas de religiosidades feitas como que por encomenda para cada pessoa, que combina, para orientar-se na vida, pedaços da Bíblia, pedaços de Dan Brown, pedaços de Paulo Coelho, pedaços do budismo, pedaços do hinduísmo etc.

Após essa definição clara de uma "alteração" tão crucial, de dois milênios de cultura, gerando um híbrido "Frankenstein" a partir das mais diversas tradições religiosas disponíveis graças à globalização advinda com a telemática, resta ao autor avançar à sua segunda premissa, que diz respeito ao significado político que está por trás da comparação feita. E, claro, essa comparação resulta em um segundo saldo positivo: democratização da cultura. Ou aquilo que o autor assim entende:

Os livros da milenar alta cultura ocidental, como os de Duras e os de Drummond, eram obras de elite, que pressupunham um alto nível cultural como exigência para serem plenamente fruídos (…) Já os livros do sobrenatural edificante pressupõem apenas a cultura do curso secundário e, na verdade, proporcionam alta cultura, ao apresentar didaticamente acontecimentos históricos no passado (…) São, assim, livros altamente democráticos, dirigidos a um público amplo e não elitizado (…)

O autor conclui seu texto com uma mensagem edificante: "já é tempo de alguém começar a se preocupar com o futuro". Ou seja: o autor retoma e insiste na velha fórmula da mescla entre cultura refinada e democracia (como se ambas instâncias fossem essencialmente antagônicas), para que os media que ora são utilizados para a vinculação de auto-ajuda transformem-se em aparatos de "transmissão" de obras pertencentes à alta cultura e de seus valores (políticos e críticos), não esquecendo de distinguir, a guisa de conclusão, o irracionalismo mercantil de um Paulo Coelho daquele do nazismo. Um box com didáticas explicações sobre o destino dos autores da lista de 1985 fecha o texto.

Em síntese, o artigo de Renato Pompeu gira em seu próprio eixo, que são duas premissas: 1) ocorreu uma orientalização da cultura Ocidental (de primado racionalista), com a entronização de valores irracionalistas (religiosos, mas não necessariamente); 2) essa orientalização, se demoliu a visão política, por um lado, facilitou por outro a democratização do conhecimento. Assim, nesses termos altissonantes, estaríamos diante de uma nova cultura, democrática e "oriental", imaginativa e apolítica, que poderia ser veículo de novos clássicos. Ou seja: Renato Pompeu de fato retirou uma bela e complexa análise de material aparentemente avaro – duas listas de livros de uma revista semanal (que reproduzimos na tabela abaixo), sem maiores fontes analíticas e sem listas em períodos intermediários, o que facilitaria o teste de certas afirmações e premissas –; pena que a base dela, representada pelas duas premissas maiores citadas acima, seja falaciosa: dizer que um Dan Brown representa um estilo que mescla ficcionalização e factualização, mito e fato histórico, realidade e fantástico, e que esse estilo surgiu no final do século XIX com as obras citadas acima, é simplesmente desconhecer – e desprezar conscientemente – toda a tradição fantástica Ocidental, que abarca boa parte da literatura antiga e medieval, a literatura confessional e religiosa (incluindo a teologia em geral), os contos populares ou de fadas, o teatro de Shakespeare e Marlowe, os estilos gótico e frenético do século XVIII, o fantástico do século XIX, o neofantástico do século XX, a ficção científica e as weird stories na tradição de um Lovecraft. Mas é melhor não adiantarmos o carro, colocando-o adiante dos bois.

A primeira premissa de Renato Pompeu baseia-se, portanto, numa análise superficial que o autor faz de certas concepções aristotélicas. Talvez a separação fosse clara para Platão, mas um grego dessa época poderia muito bem achar que a Odisséia representaria o universo factual – a instância e os agenciamentos do mito são universais. Era por medo dessa universalidade que Platão expulsava de sua Nova Atenas ideal os poetas: a ficcionalização poderia muito bem passar por reconstituição factual. E qual o instrumento dessa possibilidade? No Ocidente, ele sempre foi chamado de retórica, a arte que possibilita ao artífice a estruturação imagética de um discurso (texto, imagem ou comunicação oral) dentro de um formato que pareça mais verdadeiro que outros formatos concorrentes. Portanto, a divisão estanque entre história e poesia (uma divisão mais correta seria entre verossimilhança e verdade) só existe na cabeça do autor que, cegado pela própria ideologia orientalista, crê que por 2000 anos a cultura do Ocidente esteve engessada por modelos aristotélicos imutáveis. O cristianismo representou a primeira quebra dessa "coerência": a própria existência de Cristo e de seus milagres, seu ser histórico, cheio de pathos, em perpétuo conflito com seu ser idealizado ou materializado, representou um desafio por milênios e criativas soluções desde os evangelistas ou de João em Patmos até Kierkegaard. E, evidentemente, todas essas formulações filosóficas exigiram formulações narrativas diferenciadas, cada qual adaptada ao seu próprio tempo.


Ilustração para Vathek
Transcende ao escopo de nosso trabalho aqui um amplo e sistemático quadro histórico da literatura de base não realista, cuja estrutura de verossimilhança da representação não repousa na imitatio da realidade factual, mas gostaríamos de levantar um exemplo que invalida parte da primeira premissa de nosso autor: o romance Vathek de William Beckford. Nessa obra complexa, é evidente a influência das primeiras edições e traduções d'As Mil e Uma Noites no Ocidente – ou seja, uma evidente influência oriental muito antes da globalização tecnológica que tanto fascina Renato Pompeu, em 1781, anos antes mesmo da Revolução Francesa – na tradução de Antoine Galland, trabalho magnífico, de 1704. Essa tradução de Galland seria, aliás, o sinal de partida para uma extensa galeria ficcional que abarcaria obras de Voltaire, de Diderot, além do Vathek de Beckford. Mas voltando a este último: como Jorge Luis Borges assinala, a influência do colorido exótico de sabor oriental é meramente acidental; a magnífica estrutura do livro, plena de complexidade e de imagens fulgurantes, é sua maior conquista. A narrativa de Beckford poderia ter como pano de fundo as igualmente – para um inglês que estudou em Genebra e teve como professor de música Mozart – exóticas paisagens da Península Ibérica, com seu fanatismo religioso, crendices e o peso da Santa Inquisição, locais nos quais Beckford esteve de fato e dos quais nos legou interessantes diários. Mas ele optou pelas paisagens imaginárias da Arábia, adaptando o formato narrativa que conhecera através de Galland e ampliando – e muito – seu escopo. Apenas isso tornaria a tese de Renato Pompeu uma curiosa maneira de entronizar o "Oriente" tigre de papel dos livros de Paulo Coelho, mas outro fato a torna ainda mais frágil: a verdade é que existe muito da tradição ocidental n'As Mil e Uma Noites. É Borges novamente quem destaca que o grande épico fragmentário árabe também duplica motivos advindos da tradição ocidental – espargidos mundo afora graças ao helenismo cultural e militar de Alexandre da Macedônia – ao perceber que uma das viagens de Simbad "coincide" com as navegações de Ulisses. A relação bipolar e unívoca advogada por Renato Pompeu, de um Ocidente fechado por dois milênios – até o milagroso advento de uma globalização dada como a priori, mas que supõem-se, pelos marcos históricos enumerados no início do texto, coincidente com os avanços tecnológicos e nas telecomunicações dos últimos 20 anos – é uma ilusão de ótica ideológica desde sua base.

Mesmo assim ainda teríamos pela frente um segundo dado: e a mescla de dados factuais e dados ficcionais marcaria um novo tipo de ficção – que o autor, afeito à terminologia, própria ou alheia, chama de fenômeno "pós-moderno" –, marca de uma época na qual a leitura de ficção de décima categoria constituiria, contudo, uma forma de acesso ao conhecimento válida, uma vez que o "orientalismo" já demonstrou que inexistem fronteiras entre o "histórico" e o "poético". De fato, é perceptível que se trata de um conjunto confuso, mas a confusão não é capaz de salvar essa conexão entre as duas premissas centrais de Renato Pompeu. Basta ler as obras de Borges – como a explícita brincadeira irônica sobre isso, como o conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", ou de H. P. Lovecraft, que mesclava em suas narrativas pulp informações advindas de almanaques, livros inventados e citações retiradas de volumes raríssimos; mas já no século XIX temos The Private Memoirs and Confessions of a Justified Sinner de James Hogg ou On Murder Considered As One Of The Fine Arts de Thomas de Quincey, dois exemplos nos quais narração, ensaio, memórias (forjadas ou não) se confundem, mesclam e entrechocam. Mas para quê utilizar exemplos do século XIX e XX se um autor do século XVIII escreve um livro em 1722 deslocando a perspectiva de um diário eventos de 1665? Esse é o caso do extraordinário A Journal of the Plague Year, de Daniel Defoe, fonte constante de análises historiográficas modernas sobre o "ano da peste" na Inglaterra – uma vez que Defoe preocupou-se em criar um universo sistemático e verossímil para sua narrativa pseudo-memorialista, realizando imenso levantamento e pesquisa de fontes – e encarado por muitos como um diário real. Portanto, podemos concluir que a possibilidade de mesclar fato e ficção não é uma obscura "influência oriental" ou uma conquista de uma pós-modernidade pretendida, mas uma possibilidade que autores diversos lançam mão já faz bastante tempo.

Restam, ainda, algumas palavras sobre a questão da democratização, levantada por Renato Pompeu, base de sua segunda premissa. "Democratização do quê?", poderíamos perguntar: do conhecimento? Do acesso ao livro? Da informação? O ensaísta não apresenta um dado estatístico sequer que defina em que 2005 é mais democrático que 1985, por exemplo, no campo editorial e livresco. É bem verdade que o autor comete um erro bisonho, ao mencionar que "as obras" de Shakespeare "em seu tempo", circulavam "apenas entre pequenas elites cultas". Imaginará Renato Pompeu que Shakespeare publicava livros na Inglaterra da rainha Elizabeth, e que os vendia para as pessoas cultas da nobreza? Que suas peças eram assistidas apenas por um refinado público elitista, por isso seriam tão complexas e sofisticadas? É evidente que o autor desconhece o fato de o teatro elizabethano ser para o século XVI o que o cinema hollywoodiano é para o século XX. Por esse erro percebemos com clareza que a palavra "democracia" surge aqui como sinônimo de facilidade de leitura, qualidade que estaria ausente em obras exigentes como Der Zauberberg de Thomas Mann. Mas essa facilidade não indica, contudo, aumento do número de leitores, mas apenas que a literatura necessita de uma "liquidez" que parecia dispensar: o leitor moderno, deste fim de século XX e início do XXI, sem tempo para prazeres fugazes e diletantismo, precisa aprender – no sentido de "se instruir" – com os livros, que significam capital empatado. Ou, ao menos, precisa da ilusão de que está aprendendo algo, de fato. Daí o sucesso dos livros do historiador Eduardo Bueno, cobrindo assuntos tão áridos quanto os degradados no Brasil colônia ou o processo político que culminou na colonização de nosso país, tenha freqüentado o mesmo top ten que ora Renato Pompeu analisa, e isso pouco tempo atrás. A leitura não é mais movida pelo prazer – atributo essencial destacado de Montaigne a Barthes – mas pela utilidade entrevista nos livros, e a exigência que tais mercadorias rendam o que valem. E não faz muito tempo uma popular revista semanal brasileira publicava pesquisa supostamente científica, revelando que a leitura evitava inúmeros problemas de saúde, como a esclerose. Assim, a leitura adestrada ocupa o tempo-livre de massas alienadas, dando-lhes o gosto diluído de conhecimento e capacitando-a ao debate de "suas idéias", meio digeridas sobre assuntos mil, como religião ou história. O processo poético de se apropriar da história, proposto por Shakespeare ou Marlowe no século XVI-XVII, parece, nesse sentido, paradoxalmente muito mais verdadeiro em sua mitificação e muito mais democrático em seu aparente elitismo.

Assim, a "democratização" pretendida é apenas uma estratégia que os escritores utilizam para ampliar a venda de seus livros, atendendo à demanda e às expectativas de seus leitores, já pré-condicionados pelo consumismo do mercado e as periódicas modas lançadas para promoção deste ou daquele produto – Renato Pompeu evita analisar obras presente no top ten de 2005 que contrariam abertamente suas teses, como a ficção científica de Douglas Adams, completamente extemporânea, cujo sucesso moderno é apenas conseqüência natural do recente blockbuster cinematográfico –, esquema no qual os livros, especialmente nesse ou em qualquer outro top ten, se enquadram à perfeição. A revolução que seria a mudança não de duas décadas mas de dois milênios, resume-se ao predomínio temático de um formato que agrada ao leitor deste mês, deste ano, e que encontra suas bases num lastro de tradição tanto ocidental quanto oriental – uma vez que ambas, ao menos desde o século XVIII, estavam de uma forma ou de outra à disposição no Ocidente – e que possua a complexidade, a contradição e a profundidade da Wikipedia ou de uma sistemática busca no Google, popular ferramenta de pesquisa da Internet. Em certo sentido, Renato Pompeu se assemelha ao Heidegger que surge na curta correspondência trocada com seu ex-aluno – e ex-admirador – Herbert Marcuse. Quando questionado sobre sua vergonhosa adesão ao nazismo, Heidegger se defende com clichês e idéias feitas, dentre as quais se destaca sua afirmação de que estava pensando apenas em defender o "Dasein ocidental". Diante de tamanha má-fé, Marcuse replicou: e a Rússia não seria parte desse Dasein? O próprio socialismo não era expressão e herança do Ocidente? Como Renato Pompeu, o ilustre filósofo alemão preferiu separar o mundo em metades iguais, pois precisava de algum consolo, e de uma forte justificativa, para que seus fantasmas ideológicos pudessem ganhar um corpo visível e quase palpável, como as miragens dos desertos árabes.

por
Alcebíades Diniz
em setembro de 2006

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