Marlowe e os estatutos do Mal

Parte I

A escola da noite

É provável que, para traçar uma rápida ligação entre Marlowe e nossa cultura e literatura contemporâneas, não seja preciso, num primeiro momento, sequer proceder à leitura e análise de seus poemas e peças teatrais. Como qualquer autor moderno, desde pelo menos o Romantismo, é a vida de Marlowe aquilo que, em primeiro lugar, chama-nos a atenção. Nessa vida, cheia de sobressaltos violentos, adesões e repulsas pouco claras e na qual até a morte ainda persiste como questão em aberto, existe, completamente desenvolvido, esse elemento crucial – a transformação de si em personagem de si – que ligam esse autor do século XVI aos expoentes da modernidade em poesia, aqueles demiurgos que configuraram mitos poéticos persistentes por mais de um século, como por exemplo Rimbaud ou Byron, entre muitos outros. O contraste com outra imensa figura do período, William Shakespeare, é reveladora: nesse aspecto específico, ambos os autores são antíteses perfeitas. Jorge Luis Borges captou essa antítese, ao comentar – no prólogo que escreveu para a peça Macbeth – o estranho "mistério" biográfico de Shakespeare. O trecho é um tanto extenso, mas vale a pena reproduzi-lo na íntegra:

E agora a William Shakespeare. Naquela época decisiva da Invencível Armada, da autonomia dos Países Baixos, da decadência da Espanha e da conversão da Inglaterra, ilha desgarrada e lateral, num dos grandes reinos do orbe, o destino de Shakespeare (1564-1616) corre o risco de nos parecer de uma misteriosa mediocridade. Foi sonetista, empresário, ator, homem de negócios e de litígios. Cinco anos antes de morrer retirou-se para sua aldeia natal, Stratford-on-Avon, e não mais escreveu uma única linha, exceto um testamento no qual não se refere a um só livro e um epitáfio tão grosseiro que melhor seria tomá-lo por brincadeira. Não reuniu em volume sua obra dramática; a primeira edição que possuímos, o in-fólio de 1623, deve-se à iniciativa de alguns atores. Jonson afirmou que dominava muito pouco o latim e menos ainda o grego. Tais fatos inspiram a suposição de que foi apenas um testa-de-ferro. Miss Delia Bacon, que encontrou asilo final num manicômio e cujo livro mereceu um prólogo de Hawthorne, que não o lera, atribuiu a paternidade de seus dramas a Francis Bacon, profeta e mártir da ciência experimental e homem de uma imaginação de todo singular; Mark Twain reivindicou essa hipótese. Luther Hofman propõe a candidatura, bastante menos inverossímil, do poeta Christopher Marlowe, "amado das musas", que não teria sido morto a punhaladas em uma taverna de Depford em 1593.
(BORGES, Jorge Luis. "Prólogo". In SHAKESPEARE, William. Macbeth. Rio de Janeiro, Ediouro, 1998. p. 7 e segs.)


Gravura para edição de Doctor Faustus
No parágrafo seguinte, Borges segue os desdobramentos iniciais dos mitos sobre Shakespeare: as tentativas de articular uma outra imagem do autor isabelino, mais radical, feitas por românticos como Victor Hugo ou os poetas da geração de Thomas Chatterton, tomando Shakespeare como um incompreendido, vilipendiado e desprezado autor fora de tempo e de lugar, "preferiam-no desgraçado", nas palavras do autor argentino. Esse material de "desgraças" e mistérios, no sentido biográfico, capacitando um autor a ser "poeta" dentro de uma acepção romântica, Marlowe possuía de sobra. Mas a verdade é que essa visão arquetípica dos escritores da era Isabelina, seja ele Shakespeare ou Marlowe, é uma generalização demasiado grosseira: eles eram, antes de mais nada, escritores inseridos e inteligíveis dentro de um contexto histórico, dialogando com tradições aí desenvolvidas e com a visão de mundo – incluindo os preconceitos – dominante em seu próprio Hic et Nunc. A modernidade desses autores deve ser localizada aí, não em uma qualquer tentativa de se extrair de suas obras um tipo de essência mais ou menos universal. No caso de Marlowe e Shakespeare, um curioso comportamento – especialmente diante de peças de teor preconceituoso, que foram, em novas releituras, armas úteis na propaganda de regimes racistas modernos, como o nazismo – é a tentativa de se neutralizar essa parte do conteúdo da peça, especificando-se apenas seus méritos literários. Numa trilha aparentemente oposta, mas seguindo um raciocício semelhante, uma certa crítica literária formalista prefere ignorar todos os fatores históricos e biográficos em prol de uma análise "objetiva", centrada toda ela na forma dos produtos literários. Um exemplo desse tipo de análise aplicada ao texto de Marlowe é o famoso ensaio de T. S. Eliot sobre ele no livro Elizabethan Dramatists. Ao analisar The Jew of Malta, não há qualquer menção ao conteúdo ideológico da peça: embora, para Eliot, ela seja uma peça "incompreendida", trata-se de uma incompreensão meramente formal, pois "sempre foi dito que o final, mesmo os dois últimos atos, não podiam ser comparados aos três primeiros" (ELIOT, T. S. Elizabethan Dramatists. London, Faber and Faber, 1963. p. 63). Mais adiante, Eliot postulará que essa incompreensão advém do fato de que muitos críticos da peça acreditarem que a peça é uma tragédia ou uma "tragédia de sangue" (tragedy of blood) quando, na verdade, tratar-se-ia de uma farsa. Embora a observação de Eliot seja, em certo sentido, acertada, não nos parece gratuito o fato dessa peça adotar um tom farsesco – tom que não seria adotado, por exemplo, em Doctor Faustus, ao menos em boa parte da obra e em seu excruciante final.

Mas, antes de entendermos a gama de matizes ideológicas que cercam suas peças (infelizmente, por questão de escopo, teremos de nos restringir a duas), vale a pena mergulhar em alguns aspectos biográficos, esses aspectos que tornam esse erudito autor inglês tão inteligível e próximo de nós. Christopher Marlowe nasceu em 1564, na cidade de Canterbury, localidade que foi imortalizada nos contos de Chaucer. Seu pai era sapateiro, de nome John Marlowe, e, embora certa biografia apócrifa diga que era homem pobre, alcançou importantes posições na hierarquia civil e profissional (uma vez que era dono de sua própria oficina). Isso não o impedia, contudo, de adquirir numerosas dividas. A cidade de Canterbury, antigo berço do catolicismo inglês e local de procissão – pelo menos, antes das reformas anglicanas de Henrique VIII – pois lá se encontrava o túmulo de Santo Tomás Beckett. De qualquer forma, era uma cidade comercial de tamanho razoável. Na praça do mercado, ao lado dos muros da cidade, costumavam ficar os supliciados, seja por questões políticas, sociais e/ou religiosas, que, semi-mortos, eram hostilizados pela populaça. Quando esses "divertimentos" eram escassos, o esporte predileto era amarrar um urso, boi ou qualquer animal bem grande e atiçar os cães contra ele. A agonia do animal supliciado era longa, fornecendo a cota de prazer a um populacho reprimido. De qualquer forma, essas imagens violentas e sádicas acabaram gravadas a ferro e fogo na mente do jovem Marlowe.


Provável retrato de Marlowe
Nosso autor entrou para o King's School, de Canterbury, em 1578, provavelmente graças a uma bolsa de caridade. Em 1580 já estava no Corpus Christi College, de Cambridge, local no qual recebeu o B.A. (o bacharelado) em 1584, embora seus últimos períodos de curso fossem marcados por ausências prolongadas, que fizeram as autoridades suporem que Marlowe seguia seminários católicos em Rheims. Para obter seu M.A. (título equivalente ao de doutor), houve intervenção das autoridades, que justificaram as faltas e o desleixo de Marlowe com o nome de "bons serviços em benefício de seu país". Aqui, começam as estranhas relações de Marlowe com a coroa da rainha Elizabeth e seus serviços como espião e agente da polícia político-religiosa: é provável que Marlowe tenha, de fato, freqüentado os seminários de Rheims, mas no papel de espião e de delator de católicos ingleses que lá estivessem. Mas, claro, tratam-se de conjecturas: a documentação não nos permite maiores conclusões sobre o caso. É igualmente conjectural a relação de Marlowe com seus colegas e com a academia enquanto estudava, mas aqui as conjecturas encontram fortes ressonâncias em suas peças: dono de uma inteligência fria e objetiva, que poderiam transformá-lo em um grande cientista, Marlowe desprezava seus colegas, que estavam na academia apenas por influência, dinheiro e, no limite, nascimento: sua visão começava a se configurar desapiedada, feroz. Pretendia obter o poder e o dinheiro que seu nascimento, pobre e sem títulos, lhe negara; desde cedo, portanto, percebia os estudos como um trampolim para contatos políticos. Assim, após traduzir Amores de Ovídio e Guerras Civis, de Lucano, despedia-se de vez do mundo dos scholars, optando pelo glamour de cores imprecisas do teatro que, como o cinema em nossos dias, era uma forma de expressão artística e um rentável divertimento para as massas. Se Marlowe vivesse nos dias de hoje, iria, como Tennesse Williams, para o cinema.

Em 1587, mudou-se para Londres. Desde esse ano até sua morte, assassinado a punhaladas em uma taverna de Depford, em 1593, Marlowe escreveu quatro peças (a primeira data dos tempos de escola e é Dido Queen of Carthage), um poema epitalâmico (Hero and Leander), viu uma de suas obras ser publicada (a peça Tamburlaine, em 1590) e foi preso cerca de cinco vezes. Por aí, vemos que nosso dramaturgo acumulou alguma reputação, no campo das letras e no campo da agitação política – após prisões, costumava se gabar dos contatos feitos dentro delas – o que era, de certa forma, seu objetivo. A primeira prisão de Marlowe ocorreu em 1589, quando testemunhou o assassinato – do qual provavelmente foi cúmplice – de William Bradley, morto por seu amigo, o poeta Thomas Watson. Foi logo liberado. Em 1592, foi preso três vezes: a primeira delas, em Flushing, por falsificação; a segunda, em maio, por ameaçar um oficial de polícia; a terceira, em setembro, na sua cidade natal, por assalto. Em nenhum dos casos passou muito tempo na prisão, embora um processo subterrâneo – que já veremos como se desenrolou – agregava provas de sua cumplicidade com autoridades católicas no Continente. Apesar disso, Marlowe continuou, aparentemente informando seu chefe na polícia política da rainha, Sir Francis Walsingham. De qualquer forma, as curtas, mas freqüentes, estadias de Marlowe pelos presídios ingleses configuraram um grande mito em torno de sua pessoa: a chamada School of Night (escola da noite), um suposto grupo de intelectuais com ramificações na corte – entre os membros do grupo, costumam-se contar, além de Marlowe, com as figuras de Walter Raleigh, o famoso navegador, e seu círculo de amizades pessoal – que também costumavam ser chamados de School of Atheism (escola de ateísmo) em panfletos e relatórios policiais escritos por seus detratores. As relações reais entre Raleigh e Marlowe se resumem a alguns poucos dados fornecidos por informantes da polícia, como é o caso de Richard Chomley, que afirmava: "esse Marlowe é capaz de demonstrar mais razões bem certas que qualquer divindade na Inglaterra para a crença, e que este afirmava ter tido leituras ateístas com Sir Walter Raleigh e outros". Aparentemente, o único elo de ligação mais forte entre os dois homens era a convicção religiosa avançada que compartilhavam, além das leituras das obras banidas de filósofos do Continente como Maquiavel e Giordano Bruno. Numa Inglaterra mergulhada na paranóia política e no medo pânico de restabelecimento do catolicismo romano, fantasias como essa eram freqüentes, sempre dirigidas a minorias inassimiláveis. Na Inglaterra isabelina, eram: os judeus, os huguenotes emigrados do Continente (França e Holanda, notadamente), os católicos e, claro, os intelectuais. Logo, Raleigh perderia seu status de preferido da rainha e, implicado nas complicadas tramas políticas entre Inglaterra e Espanha, seria executado por crime de traição em 1618, exatos 25 anos depois da morte de Marlowe.


Marlowe morreu num aposento como este
A morte de Marlowe, aliás, encenou tantas causas e variações complexas que, hoje, é difícil onde termina a verdade e começa a farsa teatral pois, de fato, as complicadas implicações e significados dessa morte remetem a alguma das peças de Marlowe, notadamente Edward II. Em 30 de maio de 1593, no início da noite, e quatro homens estavam numa taverna em Depford: Ingram Frizer, Robert Foley, Nicholas Skeres e Christopher Marlowe. Pretendiam jantar na taverna e, enquanto esperavam, começaram algum jogo de cartas, enquanto o dramaturgo descansava, sentado um pouco mais distante. É preciso dizer que todos os quatro homens nessa taverna eram agentes do governo e cumpriam ordens de Walsingham. Logo, surgiu uma disputa qualquer entre eles e Marlowe, aparentemente, chamou Frizer para a luta franca e arremessando sua adaga, com a lâmina virada ao contrário, para que o cabo batesse com violência na cabeça do inimigo: o convite de duelo típico dos isabelinos. Frizer (que, aparentemente, estava de costas para Marlowe), se voltou com a adaga já desembanhada, pegando seu adversário, quase que por engano, no momento em que este se aproximava; o criador de Doctor Faustus bateu a região superior do olho direito na adaga de Frizer e morreu na hora. Alegando legítima defesa, Frizer foi inocentado. Antes de sua morte, contudo, Marlowe já parecia que estava com problemas com seus antigos patrões da polícia política anglicana: em 12 de maio de 1593, o igualmente grande dramaturgo Thomas Kyd, que dividiu seu quarto com Marlowe por algum tempo, foi preso e enviado para interrogatório e tortura, sob acusação de possuir e divulgar documentos que negavam a divindade de Jesus Cristo. Confessou, então, que fora Marlowe quem misturara os papéis, incriminando-o. Entre o dia 18 e 20 desse mesmo mês e ano, o informante Richard Baines confirmou que Marlowe deixava pública sua negação da religião anglicana (sim, pois a lista de afirmacões imputadas pelo informante a Marlowe inclui algumas que revelam certa admiração pelo catolicismo romano e pela Igreja). O Conselho Privado da rainha, então, expediu ordem de prisão para Marlowe, no dia 20 de maio de 1593. Mas o acusado morreria antes de ser preso e, como Kyd, selvagemente torturado.

Aqui termina a realidade documentada e começam as mais loucas fantasias: especula-se se a morte de Marlowe não teria sido ordenada por seu velho patrão Walsingham para esconder certas jogadas políticas do espião-mestre da rainha. Alguns argumentam que o local da morte não foi a taverna, mas a casa de uma viúva em Depford. Outros, mais delirantes, dizem que ele não morreu apunhalado, dividindo-se na hora de imaginar e/ou especular e fantasiar qual teria sido o destino desse possível Marlowe sobrevivente e quem teria morrido em seu lugar (alguns dizem que foi Shakespeare); ele teria cometido suicídio depois ou teria morrido de peste, não sem antes ter escrito a obra que depois seria imputada a Shakespeare. Como os mitos da cultura pop moderna – James Dean, John F. Kennedy, Jim Morrison e tantos outros – a vida excepcionalmente curta, misteriosa e produtiva de Marlowe gerou e gera sucessivos mitos, embora a produção deles seja fenômeno moderno (fins do século XIX). Uma das versões mais imaginativas é oferecida pelo ensaísta e estudioso anarquista francês Raoul Vaneigem. Para Vaneigem, Marlowe, pelo teor de suas declarações, estaria em uma espécie de confluência imediata (não comprovável por nenhum documento e toda baseada na analogia) com uma tradição de negadores das concepções religiosas dominantes na Idade Média que moldaria os mitos em torno do livro mítico De Tribus Impostoribus, obra imaginária, usada para acusar hereges, que, segundo se dizia, negava como impostores e embusteiros Moisés, Cristo e Maomé. Sem dúvida, Vaneigem estava impressionado pelo informe distorcido de Baines – publicado pela primeira vez, a guisa de apêndice, por Havelock Ellis na edição das obras de Marlowe da Mermaid, 1887. Algumas dessas declarações, de fato, mantêm a força subversiva intacta até hoje:

(Marlowe dizia) que foi coisa fácil para Moisés, versado nas artes dos egípcios, enganar os judeus, que eram um povo rude e grosseiro.
Que Cristo era um bastardo e sua mãe, desonesta.
Que São João Evangelista era parceiro de cama de Cristo, que várias vezes se inclinou no peito deste; e que dele se servia como os pecadores de Sodoma etc.
Essas últimas afirmações, blasfemas e escandalosas, reportadas por um agente da polícia, espicaçadas de preconceito, orgulho infantil, arrogância e assumida homossexualidade fecham a vida de Marlowe. Suas peças, cruéis em um sentido que as de Shakespeare, homem de caráter completamente diferente, jamais seriam, ficariam na obscuridade por bom tempo: a Revolução Puritana e o Protetorado de Cromwell aboliriam o teatro da Inglaterra por mais de cinqüenta anos. Mas a sombra desse poeta, uma sombra com um quê simultâneo de farsa negra e tragédia de sangue, persistiria subterrânea. E quem poderia negar que o século XX, com toda sua violência, sangue, genocídio, espionagem e luta por poder não seria um enorme palco marloweano?
por
Alcebíades Diniz
em setembro de 2006

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