Fim do Mundo

O punk nacional do começo do fim do mundo ao fim

São Paulo, 16 de março de 2002, um sábado de tempo estável. Num velho galpão em pleno centro da capital, uma reunião de gente incomum: cabelos espetados, alguns raspados, coturnos, tachas e rebites. A faixa etária não poderia ser mais democrática, indo do adolescente deslumbrado (espinha na cara e CPM 22 debaixo do braço) ao balzaquiano assumido (com orgulho - "estive no Começo do Fim do Mundo" ou "estive no Grito Suburbano"). Sob uma alcunha de gosto duvidoso, acontecia um verdadeiro festival de "quem-é-quem" do punk paulista. Bandas iniciantes disputavam a poga dos ouvintes lado a lado com veteranos da cena. E é aí que aconteceu algo curioso: chamou a atenção de muita gente um revival escondido naquela maratona toda. As bandas que fechavam o festival daquele dia específico eram Inocentes, Olho Seco e Cólera. Nada mais nada menos que as protagonistas do primeiro capítulo da história fonográfica punk do Brasil!

Flashback: São Paulo, 26 de junho de 1982. Numa casa de bailes funk da época (Zimbabwe), em Santana, acontece o festival de lançamento do primeiro disco punk do Brasil. Tocam os participantes desse disco, uma coletânea contendo quatro músicas de cada banda: Inocentes, Olho Seco e Cólera. O vigor juvenil dá a tônica do espetáculo, composto basicamente de gente deslumbrada (em cima do palco e no meio da platéia) com um novo modo de expressar sua revolta ante os desmandos do "sistema". Gravações amadoras registram o momento histórico para a posteridade, mas não transmitem nada da sensação de estar ali presente e fazer parte daquele contexto. Público e platéia se misturam em paixão e energia, tudo é novidade, tudo está para ser feito ou descoberto - o mundo é nosso e só depende de nós para sermos felizes!

Corte rápido para o presente: exatos 20 anos depois, descobre-se que não é bem assim - não, não depende só de nós para que o mundo seja melhor, somos apenas uma peça dessa complicada engrenagem. Tentamos mudar o amanhã, mas nos esquecemos do presente. Muitos não são mais garotos do subúrbio, agora são pais de família, e têm de dizer amém ao sistema que tanto condenaram e negaram naqueles dias. Não, a terceira guerra mundial ainda não veio - apesar de ser ainda um espectro presente na vida de todos (uma hora o foco está na Ásia, outra hora na África, no onipresente Oriente Médio, e agora nem os donos do capital estão ilesos, depois que um de seus símbolos máximos de prepotência foi literalmente transformado em cinzas).


É interessante notar os universos paralelos criados dentro desse. Estamos no meio daquele mundaréu de gente, mas o nosso mundo limita-se àquilo que criamos e agregamos ao nosso redor. Assim, o papo mais interessante é falar sobre como “Bodies”, dos Sex Pistols, ainda é a música mais poderosa do universo, ou analisar a profundidade das letras do Buzzcocks… Enquanto de outro lado um moleque grita que João Gordo é um traidor e que comer no McDonalds é sustentar o capitalismo (ao mesmo tempo em que vocifera contra bandas como Holy Tree e Blind Pigs, mas compra shape de skate que custam mais que um salário mínimo e tênis idem - além de ter TV por assinatura e Internet em casa…).

Calibre 12, Excluídos, Seek Terror, Sapo Banjo e outros ainda tecem essa história; engatinham nesse setor, em comparação aos "Quatro de Ouro" do punk paulista (Olho Seco, Inocentes, Cólera e Ratos do Porão - que tocaria no dia seguinte). Os Invasores de Cérebro contam com o discurso inflamado de outro decano dessa turma: o nervoso Ariel. Ainda portador dos mesmos ideais de 20, 25 anos atrás, conclama o público, discursa, resgata a história (tocando covers de Stooges e 999), tem carisma e ganha a simpatia tanto do público antigo quanto do mais novo. Óbvio também que o som punk moderno da banda é de respeito.

Dos três do Grito, o primeiro a entrar são os Inocentes. E tacam logo de cara dois sons do histórico disco, talvez pra dizer que não estavam ali por acaso. A despeito de terem sido dos três os que mais freqüentaram a mídia (até chegaram a dizer que suas raízes não eram exatamente o punk, certa feita, durante esses 20 anos de existência), estiveram com o público na mão. Acontecem as primeiras invasões de convidados quando resolvem chamar Ariel (que já foi vocalista dos Inocentes) para cantar “Desequilíbrio”, clássico punk do repertório do Restos de Nada (pré-Inocentes). Clemente reclama muito dos erros dos outros (não vê os próprios), tenta soar natural, com tudo sob controle, sorri falsa e nervosamente - e dá a impressão que termina o show antes do tempo, saindo do palco meio que contrariado.


Quando entra o Olho Seco (foi de propósito ou o Fábio escorregou na primeira música e cantou estatelado no chão?), a galera já grita em coro "isto é olho seco" - aliás, como há 20 anos, como comprovam quem estava lá no começo de sua história (o vídeo do Grito chega a registrar alguns desses momentos). Tal qual um gabba gabba hey, o grito de guerra do público não tira o brilho das outras músicas, clássico atrás de clássico dessa banda respeitada mais no exterior que em se próprio país. Fábio não berrou tanto quanto antes, mas ainda tem um discurso afinado e afiado na ponta da língua, além de atual - alertou até para tomarmos cuidado com a lavagem cerebral de meio de ano, pela Copa do Mundo, ocasião onde historicamente os governantes aproveitam a distração do povo para soltar leis na calada da noite. A manchar a apresentação, apenas uma briga entre a equipe da casa e o pessoal que abusava do stage diving.

O Cólera entrou com o jogo ganho. Impressionante. Com músicas cantadas em uníssono pela platéia, eles pulam, gritam e tocam como há vinte anos. Tanto que é super comum a fuga de tons nas músicas (aliás como também ocorreu com os Inocentes - o cantar berrando invariavelmente faz o vocal aumentar o tom e fugir do que o resto da banda está tocando). Desfilam um infindável set, que culmina com uma versão diferente e ultra rápida, quase irreconhecível, de "Subúrbio Geral". Com o tempo estourado e com ainda vários sons (hits?) a serem tocados, dizem que vão trocar cordas quebradas (do baixo ou da guitarra?), mas não voltam: o pessoal da casa acende as luzes e desligam a aparelhagem. Já era meia-noite em ponto, num show que era previsto para terminar meia hora antes. Não deu nem para se despedir do povo, apesar de terem feito isso pouco antes (para provocar um grito de "bis"?).

Saldo: altamente positivo, como não? São sempre boas as festas desse tipo. E o público presente gritou, dançou e pulou de tal maneira que não há outra denominação mais adequada: festa punk. Um público fiel, no qual vale pena investir e dar atenção. Quem sabe o punk não seja a adolescência do rock? A identificação é total, até para quem sofre do complexo de Peter Pan (como esse que vos escreve); afora que conhecer gente nova sempre nos traz surpresas agradáveis, além de renovar seu espírito e arejar a mente. Infelizmente, como um show não é só o preço do ingresso (bebidas, conduções, cigarros e afins estão inclusos nos custos de uma empreitada dessas) não deu para ir no domingo, pois a grana anda curta - exatamente como há 20 anos.

por
Jorge Vitzac
em setembro de 2006

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