Paganini

O violinista maldito

Niccolo Paganini nasceu em Gênova, em 27 de outubro de 1782. Seu pai, Antonio Paganini, era um tocador de bandolim medíocre; sua frustração fez com que ele obrigasse seu filho, ainda criança, a praticar por longas horas no violino. Aos treze anos, Niccolo foi enviado para estudar com o famoso instrutor Alessandro Rolla, que, após ouvi-lo tocar, dispensou-o - nada mais tinha a ensinar ao jovem violinista. Esse foi o começo de sua reputação.

A princípio, a fama de Paganini espalhou-se apenas em sua cidade natal; entretanto, aos poucos, toda a Itália começou a reconhecê-lo como sendo o maior violinista que já havia passado por aquelas terras. Acima de tudo, Paganini era um virtuose; seus feitos assombravam de tal modo as audiências que começaram a circular lendas que aliavam seus feitos a forças demoníacas. Ciente disso, ele começou a cuidar de alimentar esse mito.

São muitas as lendas que circundam a figura de Paganini, a começar pelas relacionadas à sua aparência. Devido a uma doença, ele havia perdido os seus dentes, o que dava ao seu rosto uma aparência macilenta; sua face pálida, em contraste com seus longos cabelos negros, conferiam-lhe uma aura etérea. Seus trajes negros e desalinhados completavam a imagem que desejava.


A sua técnica ao violino, além de apuradíssima, também era ornamentada com elementos espetaculares; ao tocar, Paganini desenvolvia um gestual impetuoso e agressivo - por vezes atribuído aos demônios que o acompanhavam. O poeta alemão Boerne assim descreveu uma de suas apresentações:

Ele estava tomado por um entusiasmo ao mesmo tempo divino e diabólico, como eu nunca havia visto ou ouvido em minha vida.

Quando, aos quarenta anos, o violinista começou a viajar pela Europa, suas excentricidades tornaram-se ainda maiores. Chegava aos concertos coberto por um longo manto negro, em uma carruagem puxada por quatro cavalos também negros - e, algumas vezes, demorava a entrar no palco, para depois de longos minutos surgir de súbito e uivar em direção ao público.

Os feitos de Paganini ao violino não eram menos espantosos. Ele era capaz de tocar à espetacular velocidade de doze notas por segundo - esse é tempo que a maior parte dos músicos leva para ler doze notas. Ele também inovou com suas técnicas de memorização; antes dele, todos os violinistas tocavam acompanhados do programa a ser tocado - Paganini, por sua vez, costumava simplesmente subir ao palco com seu instrumento, sacudir seu longo cabelo e pôr-se a tocar. Todo o programa já havia sido memorizado.


Retrato de Niccolo Paganini
pintado por G.F. Kersting
em Dresden, Alemãnha, 1829
Entretanto, certamente a mais fantástica proeza atribuída ao violinista era sua extrema habilidade com uma única corda. Sabe-se que cedo em sua carreira Paganini treinava improvisando melodias em uma única corda, chegando inclusive a compor canções específicas para isso. Francis Gates conta uma curiosa história sobre essa peculiaridade: segundo ele, numa tarde, um rico cavalheiro contratou Paganini e mais dois músicos para fazer uma serenada para sua amada. Antes de começarem, o violinista secretamente amarrou um estilete em seu braço direito - e, então, começaram. Logo uma das cordas arrebentou. "É por causa do ar", disse Paganini, e continuou tocando com as outras três cordas. Pouco depois, outra corda se rompeu, sem que o violinista demostrasse qualquer perturbação. Enfim, a penúltima corda se partiu - para infelicidade do apaixonado cavalheiro, que começou a temer pelo sucesso de sua serenata. Paganini respondeu a isso com um sorriso e simplesmente continuou tocando como se nada tivesse acontecido.

Em busca de uma explicação para o fantástico talento do músico, mais lendas começaram a surgir. Para alguns, tamanha habilidade se explicava por uma suposta estadia na prisão. Segundo essa lenda, Paganini teria sido preso por ter assassinado, a punhaladas, um rival seu em uma disputa amorosa - e, em consequência disso, teria sido encarcerado por oito anos, tendo como sua única companhia, em todo esse período, seu violino. Outras versões dessa lenda são menos românticas, e falam sobre o assassinato de um músico rival de Paganini por envenenamento.

Quando ele morreu, em 27 de maio de 1840, o mito que o cercava consolidou-se devido a um fato, à época, bastante suspeito: ele simplesmente recusou os sacramentos finais. Para alguns, ele teria tomado tal decisão por não acreditar que pudesse realmente morrer algum dia; para outros, ele não acreditava em Deus; e, por fim, havia os que viam nisso a confirmação de seu pacto demoníaco.

O fato é que, devido a isso, ele não podia ser enterrado. Seus restos mortais ficaram guardados em um porão por cinco anos, até que finalmente sua família conseguiu que eles fossem devidamente sepultados, ao menos temporariamente... Vários historiadores afirmam que depois disso seu corpo foi várias vezes desenterrado, por causas que ninguém até hoje conseguiu descobrir...

por
Lugente Pierrot
em setembro de 2006

proposta do site | sobre a cultura gótica | créditos | contato
1998/2002 © Carcasse.com | comunidade virtual da arte obscura