Literatura cyberpunk

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As características que definem o estilo cyberpunk na literatura têm sido debatidas desde o começo desde movimento literário. Alguns autores, classificados como tal questionam a existência deste rótulo, enquanto outros constantemente discordam sobre os aspectos que caracterizam esta forma de expressão.

Autores como Bruce Sterling acreditam que o cyberpunk é a integração de tecnologia e literatura em um mundo onde o diferencial entre ficção científica e realidade está cada vez mais tênue; de qualquer forma, outros como Lewis Shiner acreditam ser ela meramente um produto da cultura pop, fato pelo qual não teria grandes méritos literários.

Estas teorias representam diferentes visões dos autores consagrados que compõem o estilo, portanto é complicado definir um estilo literário a partir de visões tão opostas. De qualquer forma, o cyberpunk é tido como a voz do underground na sociedade moderna e o vislumbre de um novo mundo imerso na tecnologia.

Um método mais elucidativo seria analisar as características e lugares-comuns mais recorrentes nas narrativas que recebem a alcunha. A base central seria a integração maligna entre sociedade e tecnologia, porque apresenta uma visão pessimista do avanço científico. Os tons negros deste estilo apresentam visões de um mundo desértico e devastado através da ficção futurística.


imagem de Steve Pyke
O constante conflito entre o individual e a sociedade é também um assunto recorrente, pois mostra a insignificância do homem frente a tecnologia onipresente. Mesmo sendo constante mostrar a tecnologia e sua integração à sociedade; isto não é uma característica essencial ao cyberpunk. Um exemplo disso é o livro The Girl Who Was Plugged In: mesmo que o autor James Triptree Jr. tenha sido bem convincente em demonstrar os possíveis avanços da tecnologia presente no livro, o fio condutor da estória é o esforço da personagem principal em reclamar sua individualidade dentro da tecnologia.

Muito da ficção científica é calcado em como o indivíduo utiliza a tecnologia para sobrepujar os problemas que o confrontam. Mais objetivamente: no cyberpunk, a individualidade do personagem está sempre em conflito com a impessoalidade das máquinas.

A palavra tecnologia traz imagens de exatidão e precisão, mas quando os autores lidam com os possíveis avanços científicos nesses mundos fictícios, as opiniões são ambíguas. The Gernsback Continuum ilustra a conformidade causada pelos avanços científicos. William Gibson é muito genérico ao descrever a arquitetura específica e as nuanças tecnológicas usadas na criação de tais objetos futurísticos. Segundo Serhat Guven, um estudioso do assunto, "a falta de detalhes definidos ao descrever cenários futuros acontece porque a literatura cyberpunk resiste aos conceitos de tecnologia". The Girl Who Was Plugged In também exemplifica isto. A personagem principal utiliza a tecnologia para se transformar em alguém fisicamente mais atraente; mas a tecnologia que carrega em torno de si rouba a sua individualidade. Esta perda da individualidade apresenta uma visão lúgubre da propriedade individual na sociedade.

A melancolia permeia quase toda essa produção. Sterling sempre afirma que o imaginário noturno é uma constante em seus livros. Será possível traçar um paralelo com a literatura romântica do século XIX? Sterling também descreve a sociedade como que infestada por mega-coporações que oprimem os personagens. Este tema, afinal, é a essência do cyberpunk e é uma das características que o diferem da simples ficção-científica.

Resumindo, os conceitos básicos da literatura cyberpunk consistem em mostrar a tecnologia como obstáculo ao homem, estórias calcadas em temas obscuros, e um personagem que irá ou falhar ou se conformar com a sociedade estruturada. De forma contrária à atitude otimista (e porque não dizer altruísta?) que a ficção-científica (ou especulativa) clássica trata a tecnologia, essa ficção trata o assunto como um dos maiores problemas que a sociedade enfrenta. A tecnologia intensifica os atributos físicos do personagem através de supostos implantes e próteses, mas por outro lado, inibe suas individualidades.

Enfim, os autores "cyberpunks" tem uma visão pessimista da condição humana imersa na tecnologia, portanto a atitude não-conformista é marcante em sua personalidade. O gênero persiste consagrado, através de clássicos como Neuromancer, de William Gibson ou Campo de Batalha: Terra, de L. Ron Hubbard. Será o cyberpunk realmente uma antecipação do futuro?

por
Eduardo Sguerra
em setembro de 2006

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