Das Ich

Entrevista com Bruno Kramm

A dupla alemã Das Ich – formada por Bruno Kramm e Stefan Ackermann – é um das mais respeitadas e polêmicas bandas da cena eletrônica gótica-industrial. Recentemente, a banda apresentou-se no Brasil e aproveitamos para conversar com o atencioso Bruno Kramm sobre os últimos trabalhos da banda, o conteúdo de suas letras, seu trabalho como produtor e sua opinião sobre as cenas gótica e metal, entre outras coisas

O Das Ich lançou recentemente dois álbuns, Lava:ashe e Lava:glut. Gostaria que você comentasse mais sobre esses trabalhos e quais são as principais diferenças entre eles.

Lava lida com duas direções de um sentimento. O amor pode trazer dor como também pode fazer bem. Por causa disso existem as duas versões do álbum. A brasa (glut) é também um jeito direto de se expressar sentimento enquanto o pó (ashe) é a expressão fria e sem reflexo, remixada de alguma forma.

Os títulos de seus álbuns sempre são chocantes e bem conceituais como Antichrist, ou Satanische Verse. Há alguma raiz anticristã em suas músicas? Como as organizações católicas alemãs (sei que são muitas) reagem com temas e títulos tão explícitos?

Se isso fosse satânico, seríamos cristãos com sinais ao contrário. Não, na maior parte do nosso material, há uma relação apenas de crítica. Nascemos num país cristão onde as pessoas pregam a palavra cristã e, exatamente por isso, lidamos com estes símbolos.

Falando nisso, seu visual desde o disco Antichrist está diferente. Vejo o Das Ich não apenas como uma banda musical, mas quase como um teatro. Interação entre visual, som e temáticas... Conte-nos um pouco sobre essa interação da banda entre visual e som: existe uma preocupação estética para diferenciar os conceitos de cada álbum ou vocês não ligam muito para isso?

Para nós, é bem importante ter o nosso estilo visual mudado conforme a idéia do álbum. Mesmo assim, o ponto central ainda é a música. Sempre!

O que ou quem seria o atual anticristo?

George W. Bush.


Bruno Kramm
A sua gravadora, Danse Macabre esta no mercado há mais de uma década e já ouvi vários rumores de que ela iria fechar. De onde estes boatos surgem e qual a atual situação dela? Há planos para o futuro próximo?

Não, não. Ao contrário, agora as coisas estão realmente começando. Neste começo de ano tivemos muitos lançamentos. Em janeiro tivemos a coletânea Danse Macabre 3, Metallspürhunde e Selfless. Em março, saiu o Ptyl, em maio, o Gobs, e para junho planejamos o novo Elfengrab.

O Das Ich criou para sua época (e continua inovando) um estilo realmente próprio, único e, mesmo assim, ousando, conseguiu emplacar justamente por essa originalidade. Como você vê essas novas bandas, de qualquer cena, se vendendo cada vez mais a padrões já estabelecidos pelas grandes gravadoras e inovando cada vez menos? Vejo a cada dia dez novas bandas surgindo e, entre elas, nove são péssimas ou cópias das cópias.

Isto infelizmente é um problema. É muito simples e barato fazer um CD hoje em dia. Então, de cada demo feita hoje, podemos já dizer que é quase um CD e todos vêem isto como uma grande revolução. Acredito que a maioria das bandas precisem de um tempo até adquirirem experiência o suficiente para gravar e se lançar no mercado.

Sei que você tem uma formação em piano clássico pelo seu pai e isso de certa maneira o influencia nas composições com os sintetizadores. Existe uma ligação bem forte entre o Das Ich e a música clássica, mas de uma maneira bem sombria, claro. Você tem alguns compositores clássicos que o influenciam diretamente nas suas composições ou tudo sai de maneira não planejada?

Tudo é meio que planejado de alguma forma, mas minhas influências por exemplo são Shostakovitch e Stravinsky. Eu amo aquele sentimento que pode ser retratado e as emoções que os compositores do oeste da Alemanha passam. Gosto também muito de Holst, Mahler e Wagner.

Falando em composições, como você se prepara para gravar cada álbum? Prefere ficar sozinho? Prefere alguma estação ou clima? Como você gosta de compor?

Eu sempre estou escrevendo músicas. Aliás, quando estive no Brasil fiz algumas anotações.

Suas músicas e letras passam uma visão apocalíptica sobre amor, mundo, ignorância, conflitos pessoais, guerras. Mas você ainda vê luz no fim do túnel, ou acha que o mundo não tem mais jeito?

O mundo na verdade é maravilhoso se você tirar a sujeira da superfície. Eu amo a vida e acho que a música me ajuda muito a canalizar toda a minha parte negativa.

Stefan Ackermann é um artista à parte na banda. Ele realmente consegue passar para o público toda a sensação caótica do Das Ich de maneira extremamente cativante. Como é relação de vocês? Ele participa das composições também? Ele é da mesma região que você (Bavária)?

Ele é um ótimo performer e um bom amigo já há uma eternidade. Ele mora na mesma cidade que eu. No momento em que tenho múiscas prontas dou uma cópia delas para ele e, depois, discutimos as idéias do conceito que ela deve passar. Logo depois ele começa a elaborar as letras. Depois, no estúdio trabalhamos juntamente nos detalhes do texto.

Gostaria de falar um pouco sobre seu trabalho como produtor. Você já produziu e remixou inúmeras bandas como Atrocity, Crematory, Sanguis et Cinis, L'Ame Immortelle entre outros, de diversos estilos, da música eletrônica ao metal. Qual é o estilo mais fácil para se trabalhar? Como produtor, qual você considera seu melhor trabalho?

Pessoalmente o trabalho com Saviour Machine foi muito legal e com o Atrocity também foi muito divertido. Sanguis foi um pouco cansativo já que para eles faltava um pouco de profissionalismo, mas no geral tudo também correu muito bem.

Existem aqueles músicos que não aceitam bem o papel do produtor, e não gostam de ver outra pessoa "interferindo" em seu trabalho. Você já teve algum tipo de problema com algum artista trabalhando na mixagem ou na produção de algum trabalho?

Às vezes acontece. Mas na maioria das vezes você consegue fazer com que o músico o entenda dando bons argumentos.

O Das Ich tem um contato muito grande com Alex Krull e o pessoal do Atrocity, gravando até um trabalho em conjunto, o Die Liebe (1995). Como surgiu esse contato, vocês ainda o mantêm? Fale-me um pouco sobre esse trabalho que já está fazendo 10 anos. Ele foi bem ousado na época, não?

Nós nos encontramos no último Wave Gothic Treffen. Ele tem um filho agora com Liv Kristine. É uma pena que tenhamos pouco tempo para conversar e ainda por cima moramos longe um do outro, por isso a gente não se encontra muito.

Conversei com Alex Krull há pouco tempo e, falando sobre aquela época, ele disse que foi fascinante ver pessoas das duas cenas num mesmo show, se respeitando. Disse também que algumas músicas de metal eletrônico são bem mais intensas do que algumas músicas do chamado "true metal". Afinal, qual sua opinião sobre essa fusão de música eletrônica e metal, algo tão comum nos dias de hoje?

A fase revolucionária já passou. Hoje esse crossover é bem normal. Acho uma pena que faltem os elementos experimentais do estágio inicial dessa história.

Alex também fez declarações interessantes de como as pessoas deveriam ousar mais e exercer a liberdade musical e não se prender a regras. Pra você, que é membro de uma banda bem ousada como o Das Ich, qual sua opinião sobre isso? Existem limites para se criar música?

Sempre deve-se tentar alcançar seus limites. Às vezes, é difícil fazer isso, mas só assim você poderá ampliar o seu horizonte.

Já que estamos falando tanto de metal, Varg Vikernes (líder da banda de black metal Burzum), uma das personalidades mais polêmicas da música, que está preso pelo assassinato de outro músico e por queimar igrejas, declarou recentemente na prisão que tem ouvido muito Das Ich, e que é uma das únicas bandas que o agrada atualmente. Como você se sente com tal declaração? Pra você, é um elogio que um músico como Varg declare-se fã de sua música ou simplesmente você não dá a mínima para uma opinião vinda de uma pessoa como ele?

Eu não posso escolher meu público, mas eu não vejo uma explicação ou razão plausível para cometer mortes e destruir artefatos religiosos ateando fogo neles.


Stefan Ackermann
Pra encerrar esse assunto "metal", o eletrônico/industrial sempre esteve muito próximo ao movimento gótico. Nos últimos anos, contudo, surgiu a aproximação do metal com o gótico, criando uma "guerra" entre os novos góticos (que adoram o metal) e os góticos conservadores que preferem mais a aproximação com a música eletrônica. Como você vê essa "guerra"?

Bem, aqui não há esta guerra. Existem muitos gostos e é legal assim. Todo estilo tem sua razão de existir, e o que faz a música obscura interessante é justamente isso, a existência de tantos estilos.

O Das Ich mesmo sempre esteve próximo ao gótico, tocando suas músicas nas festas góticas, apresentando-se em festivais etc. Você considera o Das Ich uma banda gótica? Qual seria a melhor definição para o som de vocês?

Isso é difícil de dizer. É claro que somos uma banda gótica nesse sentido. Pessoalmente, não podemos achar um nome para a música que fazemos, já que ela é a nossa música. Diga-se de passagem música Kramm/Ackermann.

Que banda chamou mais sua atenção em 2004 na cena metal e na cena gótica?

Na verdade, nenhuma. Tudo bem, eu gostei de algumas coisas do Within Temptation, The Cure, Neubauten e NIN. Bom, mas eu ouço mais coisas antigas na verdade.

Obrigado, Bruno. Algumas últimas considerações para o público brasileiro?
Quero agradecer por toda essa hospitalidade e amor dos brasileiros. Em tão pouco tempo achei tão bons amigos. Um grande obrigado aos meus amigos Alex Twin, Marina, Edson, Marcos, Maíra, Maurício, Agnes, Bones e todos os outros. Muito obrigado!



Entrevista gentilmente cedida pela Valhalla metal Magazine. Colaborou Tadeu Arafna. Agradecimentos a Marcos Franke pela tradução.



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